
O armazém de secos e molhados
Grande ou pequeno, até os anos 1950 e 1960 toda cidade tinha seus armazéns. Era por meio deles, que a população se abastecia de gêneros alimentícios e o que mais precisasse.
Nos bairros e na região rural ficavam os pequenos estabelecimentos, as vendas ou vendinhas. Não havia supermercados.
Nas pequenas cidades do interior eles só surgiram no final dos anos 60, e com eles os produtos embalados.
Em Pirassununga, entre os armazéns de secos e molhados que se destacaram, quero contar hoje um pouco da história da Casa Guarani, que pertenceu ao meu pai, Ferdinando Bragagnollo, e meu avô Fortunato, o Nato, como era conhecido.
Ambos vieram de Santa Cruz das Palmeiras, onde tiveram um bar no principal clube da cidade. Naquele município, meu pai também trabalhou como barbeiro.
Quando chegou a Pirassununga, seu primeiro emprego foi no Casa Nova, o armazém dos irmãos Rubens & Elias, onde trabalhou por um período de quatro anos.
Em 1951, decididos a abrir o Casa Nova em outro endereço, os irmãos Elias não só passaram o ponto comercial a meu pai, como venderam os balcões, as prateleiras e demais suprimentos. Nascia assim a Casa Guarani.

A Casa Guarani, que ficava na rua José Bonifácio, entre as ruas Duque de Caxias e XV de Novembro, funcionou, num primeiro momento, onde hoje, está instalada a Sensação Lanchonete e Sorveteria, entre o Bradesco e a Casas Pernambucanas.
Tempos depois, mudou-se para o outro lado da rua, no mesmo prédio que durante décadas alojou o Restaurante Nono.
O telefone do armazém teve dois números: 109 e 2069. Sob o comando de “Seo” Ferdinando e “Seo” Fortunado Bragagnollo, a Casa Guarani sobreviveu até meados dos anos de 1970.


Artigos mais procurados
Óleo a granel, café moído na hora….
A Casa Guarani também tinha um pouco de tudo: arroz, feijão, batata, farinha e demais cereais, massas alimentícias, entre outros artigos.
O Café Júnior, de Araras, era moído e pesado na hora. Vendia tripa seca por metro para encher linguiça e coalho para fazer queijos.
O óleo de cozinha, vendido a granel, vinha acondicionado em tambores de 200 litros. O freguês tinha que levar o vasilhame. Para encher o litro de óleo na medida exata, bastava dar uma volta completa na manivela da bomba acoplada ao tambor. Criança, aquilo me intrigava.
Bolachas de maizena
Os Biscoitos São Luiz faziam muito sucesso entre crianças e adultos. As bolachas “Maria” (redondas) e “Maisena” (retangulares) eram vendidas a granel. Vinham soltas em latas.
Não havia embalagens como as que conhecemos. Só depois de algum tempo, os biscoitos começaram a aparecer em latas menores, sortidas, decoradas com estampas chamativas.
Quando acabava a bolacha, saia briga para saber quem ficaria com a lata, que depois servia para guardar quinquilharias.

Vasos, Filtros e Talhas
Nas prateleiras da Casa Guarani tinham vasos de barro, filtros, talhas e moringas. Havia faqueiros, bacias e vasilhas de alumínio, copos de vidro para liquidificador, penicos, resistências para ferros de passar roupa e chuveiros, além de tachos de cobre.
Carne-seca, Queijo Parmesão
Lá, os fregueses também encontravam linguiça, salsicha, carne-seca, salame e queijos parmesão.
Tudo era cortado na faca. Não havia fatiador de frios e tudo tinha que passar pela balança. Nas conchas – de diferentes tamanhos para cada produto – cabiam exatos um quilo de arroz, de feijão, etc.
Não havia produtos embalados em pacotes de um, dois, cinco ou 10 quilos. As conchas ficavam dentro das sacas para facilitar a colocação dos produtos nos saquinhos de papel pardo e a pesagem.
Cera Parquetina, crush, Grapette
Para a limpeza da casa, a Casa Guarani tinha a Cera Parquetina, que deixava o assoalho brilhando, e para os móveis, o óleo de peroba, era a receita. O escovão, para lustrar o assoalho, não faltava.
O armazém tinha bebidas variadas e refrigerantes. Entre os refrigerantes que marcaram nossa infância, destacamos a imbatível Maçã de Analândia, o SevenUp (7Up), a Cerejinha (era pior que xarope de tão ruim), a Crush e a Grapette. Também tinha bacalhau, merluza e sardinha.

Se quer ver mais fotos incríveis de produtos da época visite o site abaixo:
Os “picles”, em grandes latas, eram vendidos a granel. O fumo de corda, em rolos, ficava guardado numa lata.
Alpargatas Roda
E se o sapato era artigo de luxo, a Alpargatas Roda fazia muito sucesso. O calçado era revestido por um tecido, com uma sola de corda (sisal) trançada.
Era um calçado barato e muito usado pela população. Como dizia o povo na época, a Alpargatas Roda tinha “cor de burro quando foge”.
Tela para galinheiro
Outro artigo, muito procurado, era tela de arame para fazer galinheiros. Vendida por metro, em frente ao armazém a metragem ficava pintada na calçada, para facilitar o corte da tela na medida exata exigida pelo freguês.
Como a maioria tinha no meio rural suas raízes, nas famílias havia o hábito de criar galinhas, patos e leitões em seus vastos quintais, para consumo próprio.


“Bater o cartão na Casa Guarani” quase um “HAPPY HOUR”
Num espaço reservado da Casa Guarani – “a cozinha” -, os comerciantes da redondeza ali de reuniam antes do almoço e nos finais de tarde para o tradicional tira-gosto, degustando salames e queijo parmesão regados a doses da melhor pinga de alambique.
Fregueses de Caderneta
Outra peculiaridade, não só da Casa Guarani como de todos os armazéns, eram os fregueses que compravam na “caderneta”.
Num surrado caderninho, o balconista anotava cada compra e o seu valor.
No final do mês a conta era paga e tudo começava novamente.
Bastava ser conhecido para poder comprar fiado, sem consulta ou apresentação de qualquer documento.
Apenas a anotação da caderneta bastava.
Entregas a domicílio
As compras do dia eram entregues nas residências de bicicleta.
Os balconistas, que também faziam a entrega, passavam diariamente nas casas para saber o que os fregueses precisavam.
Umas das bicicletas do armazém tinha um suporte com caixote na parte dianteira para carregar as compras. Sob o cano – o quadro – havia numa pequena placa metálica a figura de um índio pintada e, ao seu lado, a identificação: Casa Guarani.
A Casa Guarani foi o primeiro emprego de muitos jovens.
Armazém e fregueses
Nos armazéns, a relação entre proprietários e fregueses ultrapassava as questões comerciais. Havia um laço, um vínculo muito forte de amizade e respeito entre as partes.
Na Casa Guarani não era diferente. Famílias tradicionais da cidade e de Cachoeira de Emas, somadas àquelas que vieram a Pirassununga para morar e trabalhar no IZIP, na Estação de Piscicultura (hoje CEPTA/IBAMA), servir o Exército ou a Aeronáutica, bancários, funcionários públicos do IAPI, IAPC e instituições aqui sediadas, muitos deles compravam na Casa Guarani.
Os agricultores e moradores da zona rural também faziam suas compras na Casa Guarani.

Comerciantes mais unidos
Concorrência sempre houve no comércio de Pirassununga, mas uma das coisas que meu pai fazia questão de frisar, dizia respeito ao bom relacionamento, que existia, naquela época, entre os proprietários de armazéns.
“Os comerciantes eram muito mais unidos, mais amigos”, afirmava. Um exemplo? Ele e o Chico (Francisco Franco da Silveira) da Casa Brasileira eram a prova dessa relação.
Quando faltava alguma mercadoria na Casa Guarani ou na Casa Brasileira, um emprestava ao outro para atender aos clientes. Os tempos mudaram…
Além de atuar no varejo, a Casa Guarani também supria os pequenos empórios e vendas. No quintal de nossa casa, na rua dos Lemes, ficavam estocados sacos e sacos de açúcar cristal, arroz, feijão, entre outros cereais.
A chegada dos supermercados nas pequenas cidades no final dos anos de 1960 e início dos anos 1970, inviabilizou os armazéns. Muitos deles acabaram fechando suas portas. Com a Casa Guarani não foi diferente.
Conheça, também, outros armazéns que fizeram história em Pirassununga, acessando o álbum “OS ARMAZÉNS DE SECOS E MOLHADOS DE PIRASSUNUNGA”, através do link https://www.facebook.com/media/set/?set=a.272764826264426….
Isso é história!
