
— Zora, você já percebeu que eu praticamente trouxe você para esta vila?
Levantei os olhos das cartas.
Mirtes estava encostada na porta da minha sala, como sempre.
Existe uma pequena ironia nisso: ela vive lembrando que me ajudou a encontrar esta casa, mas aparentemente esqueceu que alugar uma casa para alguém não dá direito de entrar nela sem bater pelo resto da vida.
— Você não me trouxe para a vila, Mirtes. Você me mostrou uma casa para alugar.
— Se eu não tivesse mostrado, você não estaria aqui.
— E se sua mãe não tivesse conhecido seu pai, você também não estaria. Nem por isso ele entra aqui sem bater.
— Credo, Zora. Hoje você acordou atravessada.
— Não. Você que entrou atravessando.
Ela entrou de vez.
E sentou.
Naturalmente.
Mirtes não é exatamente minha vizinha. É uma espécie de acontecimento diário.
— Mas conta como foi — ela pediu. — Para o pessoal conhecer nossa história.
— Que pessoal?
— Sei lá. O pessoal que vai ler essas coisas que você anda escrevendo.
— Ah. Agora você sabe até que estamos sendo lidas?
— Zora, eu moro numa vila. Aqui a gente sabe das coisas antes delas acontecerem.
— E depois dizem que a sensitiva sou eu.
Ela abriu um sorriso.
Foi assim que começamos a lembrar.
Quando cheguei à vila, eu estava procurando uma casa havia semanas.
Queria uma casa com espaço, janelas, uma sala grande para colocar minha mesa de tarô e, principalmente, uma porta.
Eu ainda não sabia que a porta seria o item mais inútil da propriedade.
Foi Mirtes quem apareceu.
— Você é a moça que está procurando casa?
— Depende. Quem quer saber?
— Eu.
— E você é?
— Mirtes.
Como se isso explicasse alguma coisa.
Cinco minutos depois eu sabia que havia uma casa vazia na vila, que o proprietário estava desesperado para alugar, que a antiga moradora tinha fugido com um professor de pilates e que o encanamento da cozinha fazia um barulho estranho quando alguém tomava banho.
— O encanamento é importante — explicou Mirtes.
— O professor de pilates também?
— Para entender por que a casa ficou vazia.
Foi assim.
Eu aluguei a casa.
Mirtes ganhou uma vizinha.
E o universo ganhou um problema.
Nos primeiros dias, eu ainda acreditava que Mirtes era apenas simpática.
No quarto dia ela apareceu porque tinha brigado com o namorado.
— Zora, tira uma carta.
— Para quê?
— Para saber se ele vai voltar.
Tirei.
— Vai.
— Ai, graças a Deus!
— Eu não terminei.
— Tem mais?
— Infelizmente.
Ele voltou.
Duas semanas depois, Mirtes apareceu novamente.
— Zora, tira outra.
— O que aconteceu?
— Ele voltou.
— Eu avisei.
— Mas voltou igual.
— Você queria que voltasse como? Reformado?
Terminou o namoro.
Começou outro.
Terminou.
Voltou.
Terminou de novo.
Em determinado momento, parei de tirar cartas.
— Zora, você nem vai perguntar o nome dele?
— Não.
— Por quê?
— Porque daqui a três semanas não vai importar.
Ela ficou ofendida.
Quatro semanas depois admitiu que eu tinha sido otimista.
Depois vieram as finanças.
Mirtes chegou um dia segurando quatro cartões de crédito.
— Estou numa situação delicada.
— Quanto?
— Não sei.
— Então ainda não é uma situação. É um mistério.
Passamos a tarde fazendo contas.
Descobrimos que Mirtes tinha parcelado uma sandália em dez vezes.
— Estava em promoção.
— Mirtes, se você precisa de dez meses para pagar, isso não é promoção. É relacionamento sério.
Cortamos despesas.
Renegociamos coisas.
Ela prometeu nunca mais comprar por impulso.
Na semana seguinte apareceu com uma bolsa.
— Antes que você fale qualquer coisa, ela estava com setenta por cento de desconto.
— Quanto você economizou?
— Duzentos e oitenta reais.
— E quanto gastou?
Silêncio.
Foi nesse dia que percebi que algumas pessoas não precisam de tarô. Precisam de calculadora.
Mas seria injusto contar nossa história como se apenas Mirtes precisasse de mim.
Porque houve dias em que eu também precisei dela.
Quando cheguei à vila, eu era a mulher nova.
Ruiva demais.
Colorida demais.
Decotada demais.
Cheia de cartas, velas, cristais e coisas que algumas pessoas adoram julgar antes de conhecer.
Foi Mirtes quem avisou:
— Estão falando de você.
— Quem?
— Todo mundo.
— E você falou o quê?
— Que primeiro tinham que conhecer.
Fiquei comovida.
Até ela completar:
— Porque fofoca sem confirmação vira fake news.
Esse é o coração de Mirtes.
Ele geralmente aparece escondido atrás de alguma inconveniência.
Quando alguém precisava de ajuda, era ela quem sabia primeiro.
E quando alguém adoecia, levava sopa.
Quando alguém perdia o emprego, descobria quem estava contratando.
Quando alguém terminava um casamento, chegava com café.
E quando alguém fazia alguma coisa que não devia…
Bem.
Aí ela chegava na minha casa.
— Zora! Você não sabe!
Normalmente eu sabia.
Não porque sou sensitiva.
Porque Mirtes fala alto.
— Você sabe que eu te adoro, né? — ela disse.
— Sei.
— Mesmo eu entrando sem bater?
— Apesar disso.
— E você sabe que eu acho que você vê coisas.
— Eu vejo.
Os olhos dela cresceram.
— Eu sabia!
— Neste momento estou vendo uma mulher sentada na minha cadeira, tomando meu café e tentando descobrir se eu sou vidente.
— Você estraga tudo.
— Faz parte do meu encanto.
Mirtes levantou.
Foi até a porta.
Parou.
— Zora?
— Hum?
— Você acha que a gente vai envelhecer aqui?
Olhei para a vila pela janela.
As casas coloridas.
As plantas nos portões.
Uma criança correndo.
Alguém discutindo mais adiante.
Um cachorro latindo para absolutamente nada.
A vida acontecendo naquele pequeno pedaço de mundo onde ninguém conseguia esconder nada por muito tempo.
— Espero que não.
Mirtes arregalou os olhos.
— Você quer ir embora?
— Não. Quero que a gente continue mudando.
Ela sorriu.
E eu também.
Porque talvez seja isso que tenha feito nossa amizade funcionar.
Mirtes chega trazendo o mundo como ele é.
Com seus preconceitos, paixões, confusões, namorados, contas, vizinhos, certezas e fofocas.
Eu apenas faço algumas perguntas.
Às vezes tiro cartas.
Outras vezes preparo café.
Às vezes digo aquilo que ela não queria ouvir.
E quase sempre rimos.
Não porque a vida seja sempre engraçada.
Mas porque algumas verdades entram melhor quando chegam acompanhadas de uma boa gargalhada.
Mirtes abriu a porta.
— Amanhã eu volto.
— Isso foi uma ameaça?
— Uma promessa.
— Então pelo menos bata.
Ela fechou a porta.
Três segundos depois abriu novamente.
Sem bater.
— Zora!
— O quê, Mirtes?
— Você soube da mulher da casa azul?
Olhei para o relógio.
Depois para ela.
Depois para meu baralho.
Suspirei.
— Passa o café.
Porque foi assim que tudo começou.
E, pelo visto, é assim que nossas histórias vão continuar.
Eu sou Zoraide. Ela é Mirtes. Nós moramos numa vila onde todo mundo tem uma história — e quase sempre Mirtes fica sabendo primeiro.
Eu leio as cartas.
Mirtes lê a vida dos vizinhos.
E entre uma coisa e outra, talvez a gente descubra algumas verdades sobre todos nós.
