
Uma história sobre prevenção, tratamento, identidade, solidariedade e, principalmente, presença
Minha mãe venceu o câncer de mama.
Talvez seja por isso que, para mim, Outubro Rosa não possa ser apenas um mês de laços cor-de-rosa, campanhas nas redes sociais e prédios iluminados.
Quando o câncer entra na nossa casa, o rosa deixa de ser simplesmente uma cor.
Passa a ter nome, rosto, medo. Tem noites mal dormidas, consultas, exames, espera por resultados, tratamentos e perguntas para as quais nem sempre encontramos respostas.
Mas também tem esperança. E pode ter algo extraordinariamente poderoso: gente ao nosso lado.
Outubro Rosa é um chamado para o cuidado
O Outubro Rosa nasceu para ampliar a conscientização sobre o câncer de mama, estimular a atenção aos sinais e sintomas e lembrar a importância da detecção precoce.
No Brasil, o câncer de mama é o tipo de câncer mais incidente e a principal causa de morte por câncer entre as mulheres. Serviços e Informações do Brasil
Mas falar de prevenção exige responsabilidade. Não significa simplesmente dizer que todas as mulheres devem fazer todos os exames o tempo inteiro.
Hoje, a recomendação do Ministério da Saúde para o rastreamento de rotina é a mamografia a cada dois anos para mulheres entre 50 e 74 anos. Fora dessa faixa etária, mulheres sem sinais ou sintomas podem discutir com seu profissional de saúde os benefícios e riscos do exame. E, independentemente da idade, toda mulher deve conhecer seu corpo e procurar atendimento diante de alterações suspeitas.
Portanto, talvez a mensagem mais importante seja: não abandone o cuidado com você.
Faça seu acompanhamento médico. Conheça seu corpo. Não ignore mudanças. Não adie uma investigação necessária.
Porque o Outubro Rosa termina. O cuidado, não.
Quando o câncer entrou em nossa casa
Há uma lembrança de minha mãe que talvez explique melhor o que quero dizer do que qualquer número ou campanha publicitária.
Antes de ela perder os cabelos por causa do tratamento, fui com ela procurar uma peruca.
Tivemos muita sorte.
A pessoa que nos recebeu já havia passado pelo câncer e, talvez exatamente por isso, compreendesse coisas que não precisavam ser explicadas.
Com uma delicadeza incrível, colocou várias perucas em minha mãe.
Uma.
Outra.
Mais uma.
Minha mãe se olhava no espelho, mas alguma coisa não funcionava.
Ela não se reconhecia.
Aquela mulher então pegou uma peruca de comprimento médio e começou a cortá-la. Fez praticamente o mesmo corte que minha mãe usava.
Finalmente, ela começou a se sentir um pouco mais confortável.
Foi quando aquela mulher, que guardo na memória como um verdadeiro anjo daquele momento, fez uma sugestão:
— Você não prefere cortar seus próprios cabelos e doar?
Minha mãe gostou da ideia.
De repente, algo que parecia estar sendo retirado dela pelo câncer voltou a ser uma escolha sua.
Ela poderia decidir quando cortar.
Poderia decidir como cortar.
E seus cabelos ainda poderiam ajudar outra pessoa.
Minha mãe cortou e doou os cabelos.
Saímos de lá com um novo visual.
Parecia que tínhamos resolvido a questão.
Mas não tínhamos.
“Não me vejo no espelho”
Quando chegamos em casa, minha mãe se olhou novamente.
E me disse uma frase que nunca esqueci:
— Não me vejo no espelho.
Aquilo me atingiu.
Porque percebi que não estávamos procurando apenas cabelos.
Estávamos procurando minha mãe.
Então me lembrei dos anos 1970.
As mulheres usavam aqueles turbantes maravilhosos, coloridos, elegantes. Minha mãe tinha tudo para ficar linda daquele jeito.
Peguei um lenço e disse:
— Vamos voltar aos anos 70!
Ela fez um turbante.
Olhou para o espelho.
E sorriu.
Não aquele sorriso que damos para tranquilizar quem está preocupado conosco.
Era um sorriso verdadeiro.
Então ela falou:
— Essa sou eu!
Pronto.
Nós a tínhamos encontrado novamente.
Não era o cabelo, não era a peruca, muito menos o turbante.
Era ela.
Daquele momento em diante, a alegria voltou ao seu olhar.
Continuaram os tratamentos, os medos, as dificuldades que fazem parte de uma doença tão séria.
Mas aquela mulher havia recuperado alguma coisa que o câncer tentou levar junto com os cabelos: a possibilidade de se reconhecer.
Autoestima também é cuidado
Talvez quem nunca tenha passado por uma situação assim possa pensar que cabelo, peruca, lenço ou turbante são detalhes diante de um câncer.
Não são.
Quando uma doença começa a provocar mudanças no nosso corpo sem pedir licença, poder escolher como queremos nos apresentar ao mundo pode significar recuperar um pouco da autonomia sobre nossa própria vida.
Foi por isso que, ao conhecer o trabalho do Instituto Amor em Mechas, lembrei imediatamente da história da minha mãe.
Amor em Mechas: quando cabelos se transformam em amor
A história do Instituto Amor em Mechas também nasceu de uma experiência pessoal com o câncer de mama.
Sua fundadora, Débora Pieretti, recebeu o diagnóstico em 2015 durante exames de rotina. Passou por cirurgia, quimioterapia e radioterapia. No ano seguinte, participou de um evento para pacientes oncológicas e recebeu uma peruca. A experiência foi tão marcante que decidiu ajudar outras mulheres a terem gratuitamente aquela mesma oportunidade. O Amor em Mechas nasceu oficialmente em 2017.
Hoje, a organização recebe cabelos, mantém urnas de coleta em salões e fornece gratuitamente perucas a pessoas em quimioterapia ou que convivem com alopecia.
Depois da experiência da minha mãe, consigo compreender a dimensão desse gesto.
Quem doa uma mecha talvez enxergue apenas alguns centímetros de cabelo.
Quem recebe pode enxergar muito mais.
Pode enxergar um pouco de si novamente.
E talvez um dia outra mulher coloque uma dessas perucas, olhe para o espelho e também consiga dizer:
— Essa sou eu.
Oncoguia: informação também acolhe
Existe outro momento muito difícil depois de um diagnóstico: descobrir o que fazer.
Surgem perguntas sobre tratamento, direitos, trabalho, plano de saúde, SUS, medicamentos e sobre a própria vida.
Nesse momento, informação de qualidade também se transforma em cuidado.
O Instituto Oncoguia atua nacionalmente oferecendo informação baseada em evidências, apoio e acolhimento a pacientes e familiares, orientação sobre direitos, educação em saúde e advocacy para melhorar o cuidado oncológico no país. Instituto Oncoguia
Sua história começou em 2003 com um portal criado para combater a desinformação sobre câncer; em 2009, tornou-se oficialmente uma ONG e ampliou sua atuação.
Hoje disponibiliza inclusive conteúdos específicos sobre direitos dos pacientes, tratamento, qualidade de vida e espaços destinados tanto a quem enfrenta o câncer quanto aos familiares.
Isso também faz diferença.
Porque o medo cresce quando não sabemos o que está acontecendo.
Informação não elimina o diagnóstico, mas pode diminuir a sensação de estarmos perdidos diante dele.
Instituto Protea: quando a condição financeira não pode decidir quem terá uma oportunidade
Existe ainda uma realidade sobre a qual precisamos falar quando pensamos em cidadania.
Não basta descobrir uma doença.
É preciso conseguir chegar ao tratamento.
O Instituto Protea nasceu em 2018 e tem como missão ampliar o diagnóstico precoce e o acesso ao tratamento de qualidade para mulheres de baixa renda com câncer de mama. Atua em dois grandes eixos: diagnóstico precoce e tratamento, incluindo o custeio de consultas, exames, cirurgias, quimioterapia e radioterapia.
Sua própria origem é uma história de inconformismo.
A fundadora Gabi Antici havia enfrentado o câncer de mama duas vezes quando soube de uma jovem de 30 anos, recém-diagnosticada, que teria de esperar meses por uma cirurgia. A diferença entre ter acesso rápido ao tratamento e precisar esperar ajudou a provocar a criação do instituto.
Esse é um assunto que pertence profundamente ao Mundo Cidadão.
Porque diante de uma doença grave, dignidade não deveria depender da conta bancária.
Três organizações, uma mesma mensagem
Amor em Mechas, Oncoguia e Protea atuam de maneiras diferentes.
Uma pode ajudar alguém a recuperar a autoestima.
Outra oferece informação, orientação, acolhimento e defesa de direitos.
Outra trabalha para que mulheres de baixa renda tenham acesso mais rápido ao diagnóstico e ao tratamento.
Mas existe alguma coisa que une todas elas.
Elas transformam solidariedade em ação.
E isso nos ensina que não precisamos ser médicos para participar do cuidado de alguém, doar, ser voluntários.compartilhar informação confiável, acompanhar alguém a uma consulta.
Podemos simplesmente estar presentes.
Minha mãe venceu. Mas ninguém vence sozinho.
Hoje posso escrever uma das frases mais bonitas que um filho poderia escrever sobre essa história: minha mãe venceu o câncer.
A medicina fez sua parte.
Os profissionais fizeram sua parte.
O tratamento fez sua parte.
Mas eu tenho uito orgulho pois eu fiz a minha parte.
Foi segurando a mão, acompanhando diariamente, tentando transformar medo em esperança.
Foi procurando uma peruca, encontrando um lenço, brincando de voltar aos anos 70.
Acima de tudo foi estando presente.
E talvez essa seja a mensagem que eu mais queira deixar neste Outubro Rosa.
Não espere alguém que você ama pedir ajuda para começar a participar.
Pergunte como foi a consulta.
Acompanhe um exame quando puder.
Escute.
Observe.
Ajude nas coisas pequenas.
Aceite o medo do outro.
Celebre as pequenas vitórias.
E esteja lá.
Porque, muitas vezes, amar alguém durante uma doença significa simplesmente fazer com que essa pessoa perceba, todos os dias: “Você não está sozinha.”
E por isso quero terminar este artigo não apenas falando às mulheres que enfrentam ou já enfrentaram o câncer de mama.
Quero falar com aqueles que estão ao redor.
Pais, filhos, maridos e amigos: participem ativamente da vida de quem vocês amam!
Não deixem que todo o peso fique sobre os ombros de quem está enfrentando a doença.
A medicina trata. A ciência avança. As instituições apoiam. Mas somos nós, família e amigos, que podemos transformar o caminho em uma caminhada acompanhada.
E se, em algum momento dessa caminhada, um simples lenço fizer alguém que você ama olhar novamente para o espelho, sorrir e dizer “Essa sou eu!”, você entenderá que algumas das maiores demonstrações de amor podem estar escondidas nos menores gestos.
Outubro Rosa é prevenção. É tratamento, informação, cidadania.
Mas acima de tudo é presença.
Cosmo Fuzaro Mundo Cidadão Comudsaber
Conhecimento que informa. Histórias que aproximam. Solidariedade que transforma.
