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Dívida pública e PIB: o Brasil deve mais do que pode pagar?

Em períodos eleitorais, ouvimos políticos, economistas e comentaristas discutirem o tamanho da dívida pública brasileira. Alguns afirmam que estamos caminhando para uma crise. Outros dizem que o endividamento é perfeitamente administrável.

Mas como saber quem está falando a verdade?

Antes de aceitar qualquer argumento, precisamos compreender três questões: quanto o país deve, quanto produz e quanto consegue arrecadar para sustentar seus compromissos.

E vamos fazer isso sem transformar economia em um assunto complicado.

O que significa dívida pública em relação ao PIB?

Imagine uma pessoa que possui uma dívida de R$ 100 mil.

Se essa pessoa ganha R$ 3 mil por mês, sua situação é muito diferente daquela de alguém que recebe R$ 30 mil mensais.

A dívida é a mesma, mas a capacidade econômica é diferente.

Com os países acontece algo semelhante.

O Produto Interno Bruto (PIB) representa o valor de todos os bens e serviços finais produzidos em um país durante determinado período, normalmente um ano.

Já a dívida pública representa o conjunto das obrigações financeiras acumuladas pelo governo.

Aqui existe uma distinção fundamental: o PIB não é a receita do governo.

O PIB mede a atividade econômica de toda a sociedade. A receita pública vem principalmente dos tributos, contribuições e outras fontes de arrecadação.

Portanto, dívida/PIB é um indicador da dimensão do endividamento em relação à economia, e não uma medida direta da capacidade de quitar a dívida.

Um país pode ter dívida elevada e continuar financeiramente sustentável. Outro pode ter dívida menor e enfrentar dificuldades, dependendo dos juros, do crescimento econômico, da arrecadação, da moeda em que deve e da confiança dos investidores.

É justamente por isso que precisamos comparar os números com cuidado.

Como o Brasil se compara aos países do G20?

O G20 reúne algumas das maiores economias do planeta. Comparar seus indicadores ajuda a entender que o endividamento público não é uma exclusividade brasileira.

Mas precisamos usar o mesmo critério para todos: a dívida bruta do governo geral, que abrange diferentes esferas de governo, conforme a metodologia do Fundo Monetário Internacional (FMI).

O quadro abaixo é uma referência comparativa, com valores aproximados de 2025, arredondados. Não deve ser tratado como a tabela definitiva de outubro de 2026 sem conferência na base atualizada do FMI. Valores indicativos e arredondados, sujeitos a revisões. O G20 também inclui a União Europeia e a União Africana, que não aparecem como países individuais. Fonte de referência metodológica: FMI, World Economic Outlook.

O Japão, por exemplo, apresenta uma relação dívida/PIB muito superior à brasileira, mas possui características próprias: grande mercado doméstico de títulos, financiamento em sua moeda e estrutura de credores diferente.

Isso não significa que o Brasil possa se endividar indefinidamente. Significa que não existe um percentual universal que, sozinho, determine se um país está falido ou saudável.

Também é importante observar que a dívida bruta brasileira calculada pelo Banco Central pode diferir da apresentada pelo FMI, em razão das metodologias utilizadas.

O PIB brasileiro cresceu de verdade desde 1990?

Sim. E aqui precisamos separar dois conceitos.

O PIB nominal aumenta tanto pela produção quanto pela variação dos preços. Já o PIB real desconta a inflação, permitindo acompanhar a evolução efetiva da produção.

Para evitar que mudanças de moeda e inflação distorçam a análise, vamos utilizar uma série internacional em dólares constantes de 2015, do Banco Mundial.

PIB real do Brasil — evolução histórica

US$ trilhões constantes de 2015; anos selecionados, valores arredondados

Referência: Banco Mundial, série NY.GDP.MKTP.KD. 2025 é o último ano completo.

O Brasil produziu consideravelmente mais em 2025 do que em 1990. Mas o caminho não foi contínuo.

Houve períodos de expansão, estagnação e retração, incluindo a recessão de 2015–2016 e a crise da pandemia.

/Além disso, existe outra questão fundamental: o PIB total pode crescer enquanto o crescimento por habitante permanece baixo. Afinal, a população também aumenta.

PIB per capta Brasil

O que o gráfico do PIB per capita revela sobre o Brasil?

A ilustração mostra como evoluiu a produção econômica brasileira por habitante entre 1990 e 2025, descontando os efeitos da inflação.

O PIB per capita é calculado dividindo o PIB total pela população. Ele permite observar se a economia está crescendo mais rapidamente do que o número de habitantes.

É importante esclarecer que o PIB per capita não representa o salário médio dos brasileiros nem a renda efetivamente recebida por cada pessoa. Trata-se de uma medida da produção econômica por habitante.

Segundo os valores aproximados apresentados na ilustração, o PIB per capita passou de US$ 5.191, em 1990, para US$ 9.689, em 2025, em dólares constantes de 2015.

Isso representa um crescimento acumulado próximo de 87% em 35 anos.

Entretanto, o crescimento não foi uniforme. O gráfico apresenta períodos de expansão, estagnação e recuperação.

Os dois períodos de maior expansão

De 1990–2010  +81% e de 2020–2025  +16%

Nota metodológica: Embora existam séries históricas do PIB brasileiro anteriores 1990 não apresentam a mesma abrangência e padronização das séries mais recentes, dificultando comparações diretas e confiáveis da relação dívida/PIB ao longo de todo o período, assim como o valor per capta.

Primeiro período — 1990 a 2010: foi a expansão mais expressiva da ilustração, mas reuniu diferentes fases econômicas. A estabilização monetária após o Plano Real, a ampliação do crédito, o crescimento do consumo e o aumento das exportações contribuíram em momentos distintos. – Redemocratização do país.

O trecho particularmente forte ocorreu entre 2003 e 2010, quando o Brasil se beneficiou da valorização internacional das commodities, especialmente minério de ferro e soja, da expansão do mercado interno e do aumento do emprego e da renda.

Segundo período foi de 2020 a 2025: o gráfico mostra uma recuperação importante após a pandemia. A retomada dos serviços, o crescimento do emprego, a expansão do agronegócio e a recuperação da atividade econômica contribuíram para elevar a produção por habitante.

Qual foi o fator que mais contribuiu para o crescimento?

Se precisarmos destacar um fator, especialmente no período de maior expansão dos anos 2000, eu apontaria o fortalecimento do consumo interno das famílias, impulsionado pelo aumento do emprego, da renda e do crédito.

Um estudo do BNDES concluiu que, entre 2004 e 2013, o consumo das famílias foi o componente que mais contribuiu para o crescimento econômico brasileiro pelo lado da demanda.

Mas esse crescimento foi favorecido por outros fatores importantes:

  • Mercado internacional: a valorização das commodities aumentou as receitas de exportação e ajudou a dinamizar a economia. (segundo Banco  Mundial)
  • Emprego, renda e crédito: mais pessoas empregadas e com acesso ao financiamento ampliaram o consumo e estimularam empresas a produzir e investir.  (dados do FMI)
  • Políticas sociais e estabilidade econômica: contribuíram para ampliar o mercado consumidor e criar condições para o crescimento. (dados do World Bank)

No período de 2020 a 2025, não seria correto atribuir o crescimento a um único fator sem uma decomposição anual. A recuperação após a pandemia, os serviços, o emprego e o desempenho de diferentes setores tiveram papéis relevantes.

O gráfico permite compreender que o Brasil avançou economicamente, mas também enfrentou longos períodos em que sua produção por habitante pouco evoluiu.

E aqui está uma reflexão que considero central para o artigo: O crescimento econômico mais duradouro depende de transformar consumo e investimentos em maior produtividade. Isso significa melhorar a educação, a infraestrutura, a tecnologia e a capacidade de produzir mais valor com os recursos disponíveis.

Um país não se desenvolve apenas quando produz mais. Desenvolve-se quando sua população consegue transformar esse crescimento em melhores condições de vida.

Por que uma dívida pública aumenta?

É comum ouvirmos que a dívida cresce porque o governo gasta demais. Isso pode acontecer, mas não é a única explicação.

Uma dívida pode aumentar porque o governo realiza investimentos, porque suas despesas superam suas receitas, porque precisa pagar juros ou porque refinancia obrigações anteriores.

Vamos imaginar dois exemplos.

Situação A — Investimento: o governo contrai uma dívida para construir uma ferrovia. Inicialmente, o endividamento aumenta. Mas a ferrovia pode reduzir custos logísticos, estimular a produção, criar empregos e ampliar a arrecadação futura.

Situação B — Despesas correntes: o governo contrai dívidas repetidamente para financiar despesas que não consegue cobrir com suas receitas. Se não houver crescimento suficiente da arrecadação ou controle dos gastos, o endividamento pode tornar-se cada vez mais difícil de administrar.

Entretanto, há uma questão decisiva: nem todo investimento produz retorno, e nem toda despesa corrente é improdutiva. Educação, saúde e manutenção da infraestrutura também podem gerar benefícios econômicos duradouros.

Além disso, os juros fazem a dívida crescer mesmo quando não há novos investimentos. E o PIB pode crescer, reduzindo a relação dívida/PIB, sem que o valor absoluto da dívida diminua.

Portanto, a pergunta não deve ser apenas quanto o governo tomou emprestado, mas o que foi feito com os recursos e se o país terá condições de sustentar os compromissos assumidos.

Pontos importantes do momento atual do PIB brasileiro:

O FMI elevou a projeção do PIB brasileiro para 2,4% (um salto significativo face aos 1,9% estimados anteriormente), apontando também uma perspetiva de 2,2% para o ano seguinte.

Considerando o Banco Mundial, a  instituição elevou a estimativa de crescimento do PIB para 2,1%, impulsionada pela dinâmica da procura interna e do mercado de trabalho.

O Brasil teria como Motores do Crescimento Económico:

Consumo das Famílias e Emprego: O consumo privado continua a ser um dos principais pilares de sustentação da atividade económica. O mercado de trabalho resiliente mantém o rendimento disponível e assegura o dinamismo no comércio e serviços.

Agropecuária Forte: Mesmo enfrentando desafios climáticos, o setor agropecuário recebeu revisões positivas do governo, com expectativas de expansão que ajudam a mitigar impactos mais severos dos juros altos sobre outros setores.

Retorno ao Top 10 Mundial: Embalado pela recuperação cambial e pelo aumento de exportações estratégicas (como o petróleo), o Brasil projeta o seu retorno ao grupo das dez maiores economias do mundo.

O que realmente precisamos perguntar aos candidatos?

A discussão econômica precisa ultrapassar os discursos de campanha.

Quando alguém afirma que a dívida pública está muito alta, precisamos perguntar em relação a quê, qual o custo dessa dívida e como ela evoluiu.

Quando alguém promete grandes investimentos, precisamos saber como pretende financiá-los, quais resultados espera alcançar e como avaliará sua eficiência.

E quando um candidato promete cortar despesas, precisamos conhecer quais despesas serão reduzidas e quais consequências isso poderá trazer para a população.

A responsabilidade fiscal é fundamental.

Mas responsabilidade fiscal não significa simplesmente deixar de investir. Significa administrar os recursos públicos com planejamento, transparência e sustentabilidade.

Da mesma forma, defender investimentos não significa ignorar limites orçamentários.

Um país precisa cuidar de suas contas sem abandonar seu futuro.

“O problema não é apenas quanto um país deve,

mas quanto consegue transformar seus recursos em desenvolvimento,

bem-estar e futuro para sua população.”