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A Complexidade do Design e a Identidade Visual

Somos artistas, não somos artistas? somos técnicos, não somos? Somos designers? Somos criadores? O que somos?

Além do Óbvio

Eu levei um bom tempo para me acostumar com a ideia de que sou uma artista. A primeira vez que me permiti ouvir isso, soou quase como uma heresia, aos meus ouvidos. Por que foi tão difícil de ouvir e mais ainda de aceitar? 

Afinal, eu trabalho com arte e com criação praticamente todas as horas do meu dia. Mas assim como me aceitei como artista, também precisei aceitar o ônus que vinha com o título. 

Questiono minha obra e minha capacidade; me sinto uma fraude na grande maioria das vezes. Acho complicado dar por terminada uma criação, afinal, sempre parece que algo poderia ser melhor. Sou assolada por inúmeros fantasmas durante horas, todos os dias.

Essa convivência constante com a dúvida, apesar de desafiadora, traz também uma espécie de recompensa. Quando permito que o problema permaneça por mais tempo, encontro novas conexões, descubro soluções que antes pareciam invisíveis. 

Essa vontade de fazer algo que ainda não foi feito, ou até mesmo de pegar algo que já existe e reinventar, é o que me move, mas também é o que me faz sentir um impostor. Como se eu estivesse constantemente à beira do fracasso, mesmo quando o resultado parece bom.

Seth Godin

Seth Godin tem uma visão interessante sobre isso, dizendo que todos somos impostores. 

Ele fala que, quem está fazendo um trabalho que realmente importa, está sempre lidando com algo que pode falhar. E é exatamente essa incerteza, essa falta de garantias, que nos faz questionar se somos capazes. 

Criar, no fundo, é navegar pelo desconhecido, sem saber ao certo onde vamos chegar. Ser artista, designer, ou qualquer outro tipo de criador, é aceitar esse risco. Não há mapas, garantias ou certezas. O que nos sobra é a coragem de continuar, apesar das dúvidas.

Essa coragem de ir adiante, de experimentar, errar e, principalmente, recomeçar, é o que define o processo criativo. O caminho quase nunca é linear. Às vezes, o que começamos lá no primeiro esboço não tem nada a ver com o resultado final. 

Mas cada interação, cada rascunho e revisão, nos leva um pouco mais perto da solução ideal (só perto. Ela nunca chega). Mudar de direção no meio do processo exige coragem. Abraçar a ambiguidade, lidar com a incerteza, transformar um erro em oportunidade, isso é o que faz a diferença.

“menos, mas melhor”

É aqui que as lições de mestres como Dieter Rams e Paul Rand se tornam valiosas. Rams, com sua filosofia de “menos, mas melhor”, mostrou que o design deve ser simples, mas funcional, servindo ao usuário sem se impor. 

Ele influenciou profundamente a estética da Apple, onde a simplicidade foi elevada à arte. Paul Rand, por outro lado, trouxe o conceito de branding como uma ferramenta estratégica, não apenas visual. 

Ele moldou o design corporativo como o conhecemos hoje. No entanto, como Seth Godin lembra, ninguém é “a pessoa mais qualificada do planeta para fazer esse trabalho”. 

Isso me faz pensar se, ao seguir esses mestres, não estamos também limitando nossa própria visão de mundo, repetindo fórmulas sem questionar se elas ainda se aplicam a todos os contextos.

Essa sensação de não estar à altura das expectativas, de ser uma fraude, reflete um problema maior. A indústria, muitas vezes, modela nosso entendimento de sucesso a partir de padrões homogêneos, frequentemente ocidentais e brancos. 

Mas o design pode e deve ir além disso.

Criar algo verdadeiramente novo exige coragem para desafiar esses padrões, para buscar vozes e culturas que estão à margem, para questionar o que nos ensinaram como verdades absolutas. Porque se continuarmos apenas repetindo o que já foi feito, estamos perdendo a chance de inovar.

E inovar também significa ter coragem de mudar de rumo, quando percebemos que algo não está funcionando. 

Passamos horas, às vezes anos, em um projeto, só para perceber que ele não está levando a lugar algum. E, nesse momento que devemos parar e admitir que talvez seja hora de recomeçar, de tentar algo novo. Esse tempo gasto pode parecer uma perda, mas na verdade é o que nos permite identificar caminhos errados. E uma vez que sabemos o que não funciona, ficamos mais próximos do que vai funcionar.

Quando penso na minha caminhada como artista, vejo que essa tal síndrome do impostor não é um obstáculo, mas um sinal de que estou no caminho certo — estou navegando em águas desconhecidas, o que é exatamente onde a verdadeira criação acontece. 

Como Seth Godin diz, “abandonar a narrativa do impostor não é arrogância, é simplesmente uma maneira de focar no que realmente importa: fazer o trabalho, enfrentar a resistência e continuar criando”. O medo está sempre presente, mas também a coragem de ir em frente com medo mesmo.

O design, assim como a arte, vai muito além de ser prático ou funcional. Ele é uma forma de conectar o criador ao observador, de comunicar emoções, de contar histórias. 

Para que isso aconteça, precisamos não só dominar os fundamentos, mas também estar dispostos a explorar o desconhecido, a questionar as verdades estabelecidas e buscar novas formas de expressão. 

Como disse John Berger, “a maneira como vemos as coisas é afetada pelo que sabemos ou acreditamos”. Cabe a nós, como criadores, expandir essa visão, ultrapassar nossas limitações e ver além das superfícies. Porque, no final das contas, é na incerteza que encontramos o verdadeiro potencial da criatividade.