
Uma história sobre cartomancia, quiropraxia, criptografia e uma vizinha que conseguiu misturar tudo isso numa única fofoca.
Era uma tarde tranquila na vila.
Eu estava sentada à minha mesa de tarô, tomando café e organizando algumas cartas, quando ouvi uma voz indignada vindo da rua.
— ZORAAAA! O MUNDO ESTÁ PERDIDO!
Fechei os olhos.
Respirei fundo.
Aquela voz só podia significar três coisas: alguém havia morrido, alguém havia traído alguém ou Mirtes tinha descoberto alguma coisa na internet.
A porta se abriu.
— Zora, você não sabe o que eu descobri!
— Boa tarde para você também, Mirtes.
— Não tem boa tarde! O mundo está perdido! As pessoas mentem demais na internet!
— O que aconteceu? Descobriu que aquele seu namorado de aplicativo tinha vinte anos a mais do que dizia?
— Não! Coisa muito mais séria!
— Mais séria que o Valdemar ter colocado uma fotografia de quando ainda tinha cabelo?
— Zora, presta atenção! Preciso te fazer uma pergunta.
Coloquei a xícara sobre a mesa.
— Faça.
Mirtes aproximou-se, olhou para os lados e perguntou em voz baixa:
— O que você faz tem alguma coisa a ver com tecnologia?
Olhei para ela.
— Oi?
— Tecnologia! Computador! Internet! Essas coisas modernas!
— Mirtes, eu uso computador, celular, redes sociais…
— Não é isso!
— Então explica.
Ela puxou uma cadeira, sentou-se e abriu os braços como quem estava prestes a revelar uma conspiração internacional.
— Você pratica cartomancia e quiromancia, não pratica?
— Sim. A cartomancia utiliza cartas como instrumento de interpretação simbólica, e a quiromancia é a prática de interpretar características das mãos.
— Isso! Coisa de cartomante!
— Quiromante, nesse segundo caso.
— Tanto faz, Zora! O importante é que você entendeu!
— Ainda não tenho tanta certeza.
Mirtes continuou:
— Pois outro dia eu estava na internet e apareceu um homem dizendo que fazia quiroplaxia!
— Quiro… o quê?
— Quiroplaxia!
— Quiropraxia?
— Isso! Essa mesma!
— E daí?
— E daí que tinha uma figura de uma pessoa com uns negócios coloridos pelo corpo, igualzinho àqueles chacras que você tem aqui!
Apontou para um quadro na parede.
— Chakras, Mirtes.
— Foi o que eu disse!
— Não foi.
— Não interrompe que eu estou chegando à parte importante!
Cruzei os braços.
— Continue.
— Eu quase escrevi para o homem corrigir a propaganda. Porque, veja bem, se ele trabalha com essas coisas de mão, de energia e de adivinhação, o certo seria quiromancia!
Olhei para ela.
Depois para o teto.
Depois novamente para ela.
— Mirtes…
— Espera! Fica melhor!
Eu tinha medo de que ficasse.
— Hoje de manhã — continuou — apareceu um técnico de informática explicando que os dados dos computadores precisavam ter criptografia!
Fiquei imóvel.
— Criptografia?
— Isso! Ele disse que sem criptografia os dados poderiam ser descobertos por outras pessoas!
— Certo…
— Aí eu entendi tudo!
— Entendeu o quê, criatura?
Ela aproximou o rosto do meu.
— Que alguém estava adivinhando os dados do computador!
Silêncio.
— Como?
— Ué, Zora! Criptografia! Cartomancia! Quiromancia! É tudo parecido!
Arregalei os olhos.
Mirtes abriu um sorriso de satisfação.
— Viu? Até você ficou surpresa!
Fiquei.
Mas não pelo motivo que ela imaginava.
— Então, Mirtes, você acha que um técnico de informática usa cartas para descobrir os dados de um computador?
— Não sei se usa cartas! Pode usar as mãos! Ou aqueles chacras coloridos!
— Meu Deus…
— E se o computador estiver com vírus, será que precisa de um passe?
Foi nesse momento que perdi completamente a compostura.
Comecei a rir. Mas a rir de verdade.
Daquelas gargalhadas que fazem a barriga doer, os olhos lacrimejarem e a pessoa precisar se apoiar na mesa para não cair da cadeira.
— MIRTES! HOJE VOCÊ SE SUPEROU!
Ela me olhou indignada.
— Está rindo de quê?
— De você tentando resolver um problema de segurança digital com um baralho e um alinhamento de chakras!
— Não precisa debochar! Eu vim justamente porque você entende dessas coisas!
— Mirtes, minha querida, você conseguiu misturar espiritualidade, terapias manuais, anatomia, informática e segurança de dados numa única conversa!
— Viu? É tudo relacionado!
Comecei a rir novamente.
Quando finalmente consegui recuperar o fôlego, puxei minha cadeira para perto dela.
— Vamos por partes. Primeiro: cartomancia.
Peguei meu baralho.
— É uma prática de interpretação simbólica por meio das cartas. Algumas pessoas a utilizam como oráculo, outras como instrumento de reflexão e autoconhecimento.
Mirtes assentiu.
— Essa eu sei. Você faz.
— Exatamente. Agora, quiromancia.
Estendi a mão.
— É a prática tradicional de interpretar as linhas, os formatos e outras características das mãos.
Mirtes olhou para minha palma.
— E dá para saber se vou ficar rica?
— Pela sua mão, não. Pelas suas faturas de cartão, consigo ter uma ideia melhor.
— Zora!
— Continuando. Quiropraxia é outra coisa. É uma profissão da área da saúde que trabalha principalmente com a avaliação e o tratamento de problemas musculoesqueléticos, especialmente relacionados à coluna e às articulações.
Mirtes arregalou os olhos.
— Então o homem não adivinha nada?
— Não é essa a função dele.
— Mas ele mexe nas mãos!
— Ele pode usar as mãos para realizar determinados procedimentos.
— Igual você!
— Mirtes, um padeiro também usa as mãos. Nem por isso ele prevê o futuro do pão!
Ela começou a rir.
— Tá bom! Entendi!
— Entendeu mesmo?
— Entendi. Quiromancia é mão para adivinhar. Quiropraxia é mão para arrumar a coluna.
— Simplificando bastante, é isso.
Mirtes ficou pensativa.
— Então, se você tirar uma carta ruim para minha coluna, eu procuro o quiroprático?
— Procure um profissional de saúde se tiver algum problema na coluna. Não espere meu baralho dar diagnóstico.
— Está bem, está bem!
Respirei aliviada.
Tinha sido mais fácil do que imaginei.
Ingenuidade minha.
— Agora vamos aos chakras — continuei.
Apontei para o quadro.
— Em determinadas tradições espirituais indianas, os chakras são compreendidos como centros de energia sutil.
— Aqueles círculos coloridos?
— São representações simbólicas deles.
— E o homem da quiropraxia tinha um desenho parecido!
— Pode ter usado uma ilustração semelhante ou algum material sobre bem-estar. Mas isso não significa que quiropraxia e práticas espirituais sejam a mesma coisa.
Mirtes concordou.
— Entendi perfeitamente.
— Ótimo.
— Então, se o chakra estiver desalinhado, a coluna fica torta?
Fechei os olhos.
— Mirtes…
— É só uma pergunta!
— São conceitos diferentes! Uma coisa é uma interpretação espiritual; outra é a estrutura física do corpo humano.
Ela olhou para mim com uma expressão de quem finalmente havia compreendido os grandes mistérios da existência.
— Agora sim!
Pegou a xícara.
Tomou um gole de café.
E perguntou:
— E a criptografia?
Eu já estava começando a sentir falta da quiropraxia.
Peguei meu celular.
— Mirtes, criptografia é uma técnica utilizada para proteger informações.
— Proteger de quem?
— De pessoas que não deveriam ter acesso a elas.
— Tipo a senha do meu banco?
— Exatamente! A criptografia transforma informações em dados codificados, que só podem ser interpretados corretamente por quem possui os meios necessários para decifrá-los.
Ela ficou fascinada.
— Então é uma espécie de segredo?
— Isso! Imagine que você queira me mandar uma mensagem e não queira que outras pessoas consigam entender o conteúdo caso a interceptem.
— Igual quando conto uma fofoca e não quero que ninguém descubra quem me contou?
— É uma comparação possível.
— Então eu já faço criptografia!
— Como assim?
— Eu digo: “Uma pessoa me contou que outra pessoa viu uma terceira pessoa saindo da casa de uma quarta pessoa.”
— Mirtes, isso não é criptografia. É fofoca com proteção de testemunha!
Ela começou a rir.
— Mas funciona!
— Funciona até você contar o nome das quatro pessoas no parágrafo seguinte.
— Detalhes!
Continuei:
— A criptografia é usada em aplicativos, bancos, sistemas de pagamento e muitas outras tecnologias para ajudar a proteger dados.
Mirtes olhou para o celular com respeito.
— Então o técnico estava falando de segurança?
— Exatamente.
— Não estava falando de adivinhação?
— Não.
— Nem de tarô?
— Não.
— Nem de chakras?
— Não.
— Nem de coluna?
— NÃO, MIRTES!
Ela se recostou na cadeira.
— Nossa, Zora! Que complicação!
— Complicação foi você conseguir transformar uma técnica de segurança digital numa sessão de quiromancia!
Achei que o assunto estava encerrado.
Mirtes parecia satisfeita.
Eu estava exausta.
Meu café havia esfriado.
Até minhas cartas pareciam precisar de descanso.
Foi quando ela pegou o celular novamente.
— Espera aí, Zora! Tem outra coisa!
Olhei para o teto.
— Senhor, se estiver me ouvindo, esta é uma excelente oportunidade para demonstrar sua existência.
— Aqui! Achei!
Ela virou a tela para mim.
Era uma propaganda de um profissional de saúde oferecendo serviços de quiropraxia.
— Está vendo? Quiropraxia!
— Estou.
— Então esse homem trabalha com coluna!
— Isso.
Ela passou para outra publicação.
— E esse aqui fala de criptografia!
— Isso.
Passou para uma terceira.
— E essa mulher aqui diz que faz quiromancia!
— Exatamente!
Mirtes ficou olhando as três publicações.
Uma.
Duas.
Três vezes.
Então levantou a cabeça, abriu um sorriso enorme e anunciou:
— EU NÃO FALEI QUE É TUDO FAKE NEWS?
Fiquei olhando para ela.
— O quê?
— Ué, Zora! Um fala que é quiropraxia, outro fala que é criptografia e a outra diz que é quiromancia! Cada um inventa um nome diferente para parecer importante!
— MIRTES! EU ACABEI DE EXPLICAR QUE SÃO TRÊS COISAS DIFERENTES!
— Pois é! Se fossem verdadeiras, tinham o mesmo nome!
A gargalhada que saiu da minha boca assustou até o gato, que dormia tranquilamente no sofá.
Mirtes começou a rir também.
Não porque tivesse entendido.
Mas porque, quando uma pessoa ri muito, a outra geralmente acaba rindo junto.
— Você é impossível! — consegui dizer.
— E você é muito complicada!
— Mirtes, fake news é informação falsa ou enganosa apresentada como se fosse verdadeira. Não é simplesmente uma palavra que você desconhece!
Ela se levantou, pegou a bolsa e caminhou até a porta.
— Tá bom, Zora! Entendi!
— Graças a Deus!
— Vou embora porque preciso passar na farmácia.
— Comprar o quê?
— Um remédio para dor nas costas.
— Então, se a dor persistir, procure um profissional de saúde.
Ela parou na porta.
Virou-se.
E perguntou, com a maior naturalidade do mundo:
— Mas você não pode tirar uma carta para saber se minha coluna está precisando de criptografia?
Eu não respondi.
Simplesmente peguei meu baralho.
Mirtes abriu um sorriso.
— Viu? Eu sabia que tinha alguma coisa a ver!
— Não, Mirtes. Estou procurando a carta da paciência.
— E existe?
— Se não existir, vou mandar fabricar uma só para você!
Ela saiu gargalhando.
E, como sempre, deixou a porta aberta.
Fiquei sozinha na sala.
Olhei para meu celular.
Depois para as cartas.
Depois para o quadro dos chakras.
Pensei em como a internet havia colocado o conhecimento do mundo inteiro ao alcance de nossas mãos.
E em como algumas pessoas conseguiam pegar esse conhecimento todo e fazer uma salada tão extraordinária que nem os deuses do Olimpo seriam capazes de identificar os ingredientes.
Mas Mirtes tinha uma qualidade.
Ela perguntava.
Confundia tudo, é verdade.
Misturava conceitos.
Tirava conclusões absolutamente inacreditáveis.
Mas perguntava.
E talvez o maior problema não esteja em quem faz perguntas absurdas.
Talvez esteja em quem nunca pergunta nada, acredita que sabe tudo e sai espalhando suas certezas pelo mundo.
Sorri.
Peguei minha xícara.
O café estava frio.
Pela janela, ouvi Mirtes conversando com uma vizinha:
— Menina, você não sabe! Acabei de fazer um curso intensivo de tecnologia com a Zora!
Fechei os olhos.
— Ai, meu Deus…
E então ouvi a continuação:
— Agora eu entendo tudo de criptografia, quiromancia e quiropraxia! Se você tiver problema no computador, na coluna ou no casamento, pode falar comigo!
Levantei-me imediatamente.
— MIRTES! VOLTA AQUI!
Mas ela já estava longe.
E, pela primeira vez na vida, pensei seriamente em colocar uma senha criptografada na porta da minha casa.
Não para impedir a entrada de hackers.
Para impedir que Mirtes entrasse com mais uma descoberta da internet!
A frase de Zora
“O problema da internet não é que todo mundo pode falar. É que tem gente que entende metade, inventa a outra metade e ainda ensina o resto!”
O que essa história deixa
Não existe vergonha em desconhecer uma palavra, fazer uma pergunta ou admitir que não entendemos determinado assunto.
O perigo começa quando confundimos informação com imaginação e transformamos nossas dúvidas em verdades absolutas.
Antes de compartilhar uma notícia, procure compreender o assunto, verificar a fonte e distinguir fatos de opiniões.
E, se encontrar alguém dizendo que seu computador precisa alinhar os chakras para proteger os dados…
Não entregue sua senha. Nem seu cartão de crédito. E, principalmente, não chame a Mirtes para resolver o problema!

