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Dois santos, dois dias e esse tal de amor

Mirtes entrou na casa de Zoraide sem bater.

O que, para Mirtes, não era falta de educação. Era intimidade.

— Zora!

— Se você entrou gritando desse jeito, ou encontrou um homem ou perdeu um.

— Nenhum dos dois. Vim falar do Dia dos Namorados.

Zoraide levantou os olhos das cartas que estavam espalhadas sobre a mesa.

— Mirtes, falta muito para junho.

— Junho? Eu comemoro duas vezes!

Zoraide franziu a testa.

— Você não está namorando ninguém.

— Exatamente. Tenho o dobro de oportunidade.

— Explique essa matemática sentimental.

Mirtes puxou uma cadeira.

— Dia 14 de fevereiro tem São Valentim. Dia 12 de junho tem Santo Antônio. Eu comemoro os dois. Se um não resolver, o outro pode resolver.

Zoraide caiu na gargalhada.

— Você terceirizou sua vida amorosa para dois santos?

— Não sou boba. Diversificação de risco.

— Isso não é investimento, Mirtes.

— Amor também dá prejuízo.

— Nisso você tem experiência.

— Muita.

E as duas riram.

Dois santos e uma velha mania humana: procurar o amor

Zoraide embaralhou lentamente o tarô.

— Mas você sabe por que existem essas duas histórias?

— Sei. Um santo é internacional e o outro é brasileiro.

— Santo Antônio nasceu em Lisboa.

— Pronto. Começou a estragar minha teoria.

Zoraide explicou.

Em muitos países, o amor romântico é celebrado em 14 de fevereiro, Dia de São Valentim.

A figura histórica por trás da tradição não é tão simples quanto as histórias românticas fazem parecer. Há relatos de diferentes mártires chamados Valentim, e, ao longo dos séculos, suas histórias acabaram se misturando.

Uma das tradições mais conhecidas conta que Valentim teria desafiado uma proibição do imperador romano Cláudio II e continuado a celebrar casamentos.

Verdade histórica, tradição ou uma mistura das duas coisas?

Séculos depois, talvez isso seja menos importante para compreender o símbolo que nasceu.

Valentim tornou-se aquele que, na imaginação popular, ficou ao lado dos que queriam amar.

— Gostei dele — interrompeu Mirtes. — Homem que ajuda os outros a casar já começa com pontos comigo.

— Você só pensa nisso?

— Não. Também penso em chocolate.

E então chega Santo Antônio

No Brasil, quem ganhou fama nos assuntos do coração foi outro.

Santo Antônio.

Franciscano, pregador, intelectual e defensor dos pobres, Antônio de Lisboa, também chamado Antônio de Pádua, acabou ganhando entre nós uma fama que provavelmente jamais imaginaria: santo casamenteiro.

Uma das tradições relaciona essa fama à ajuda que ele teria dado a mulheres pobres que precisavam de dote para conseguir se casar.

Com o tempo vieram as simpatias.

A imagem de cabeça para baixo.

O santo escondido.

O Menino Jesus separado da imagem.

Promessas.

Orações.

Pedidos.

— Eu nunca colocaria Santo Antônio de cabeça para baixo — disse Mirtes.

Zoraide arregalou os olhos.

— Finalmente alguma sensatez.

— Tenho medo de ele ficar bravo e mandar outro igual ao meu ex.

— Retiro o que disse.

Mas por que pedimos tanto ajuda para encontrar alguém?

Zoraide ficou séria.

Pegou o baralho.

— Tire uma carta.

— Para descobrir quando vou namorar?

— Tire a carta, Mirtes.

Ela puxou uma.

Os Enamorados.

Mirtes quase caiu da cadeira.

— EU SABIA!

— Senta.

— Zora, saiu Os Enamorados! Isso é sinal!

— É. Um sinal de que você continua interpretando as cartas do jeito que lhe interessa.

Mirtes fez cara de ofendida.

Zoraide colocou a carta sobre a mesa.

Os Enamorados estão entre as imagens mais conhecidas do tarô.

Mas essa carta não fala apenas de encontrar alguém.

Ela fala de escolha.

Desejo.

União.

Valores.

Entrega.

E também da responsabilidade pelas escolhas que fazemos quando amamos.

Talvez seja por isso que o amor apareça tantas vezes nas religiões, na espiritualidade, nos oráculos, nas simpatias, nas músicas, na literatura e até na magia.

Porque poucas experiências humanas nos colocam tão intensamente diante de nós mesmos.

Amar revela.

Revela nossos medos, carências, coragem.

Nosso desejo de pertencer e nossa capacidade de cuidar.

E, algumas vezes, nossa enorme dificuldade de deixar o outro ser quem ele é.

O amor não pertence a uma religião

Mirtes ficou olhando para a carta.

— Então Santo Antônio e São Valentim não são donos do amor?

— Ainda bem. Imagina o tamanho do departamento de atendimento.

Mirtes riu.

Zoraide continuou:

— O cristão pode enxergar o amor como expressão do divino. Outras tradições espirituais encontram suas próprias formas de compreender vínculos, encontros, afetos e energias. Há quem faça uma oração. Outros acendem uma vela. Há quem consulte o tarô. Há quem faça uma simpatia. E há quem simplesmente coloque uma roupa bonita, passe perfume e vá viver.

— Eu faço tudo.

— Eu sei. Esse é o problema.

Mas talvez exista alguma coisa anterior a todas essas formas.

A necessidade humana de amar e ser amado.

O amor entre um homem e uma mulher.

Entre dois homens, duas mulheres.

Entre pessoas que descobriram maneiras diferentes de construir suas relações.

O amor que chegou aos vinte.

O que apareceu depois dos sessenta.

O primeiro.

O segundo.

O que achávamos que seria o último.

E aquele que apareceu justamente quando jurávamos que nunca mais amaríamos ninguém.

Existem também amores que não cabem numa fotografia de casal.

O amor de mãe, pai, filho, irmãos, amigos, animais…

A saudade e o amor por quem já partiu.

O amor por uma comunidade.

E existe um amor particularmente difícil: aquele que precisamos aprender a ter por nós mesmos.

Afinal, qual é o verdadeiro Dia dos Namorados?

Mirtes permaneceu alguns segundos em silêncio.

Para ela, aquilo já era quase um fenômeno paranormal.

Então perguntou:

— Zora, afinal, qual dos dois é o verdadeiro Dia dos Namorados? Fevereiro ou junho?

Zoraide tomou um gole de café.

— Os dois.

— Eu sabia!

— E nenhum.

— Lá vem você.

— Dia dos Namorados é uma data. Amor é outra coisa.

Mirtes ficou olhando para ela.

— Então posso continuar comemorando duas vezes?

— Pode.

— Mesmo solteira?

— Principalmente se você entender que estar sem namorado não significa estar sem amor.

Mirtes abriu um sorriso.

— Então dia 14 de fevereiro eu comemoro São Valentim. Dia 12 de junho, Santo Antônio.

— Certo.

— E nos outros 363 dias?

Zoraide sorriu.

— Você vive.

Mirtes levantou-se, pegou a bolsa e caminhou até a porta.

Parou.

Voltou.

Pegou a carta dos Enamorados da mesa.

— Essa eu vou levar.

Zoraide arrancou a carta da mão dela.

— Nem pense nisso!

— Egoísta!

Mirtes saiu gargalhando pela vila.

Da porta, ainda gritou:

— Zora! Se aparecer alguém antes de junho, eu venho tirar carta!

Zoraide respondeu lá de dentro:

— Se aparecer alguém, primeiro converse com o homem. Depois converse com o baralho!

Mirtes pensou por alguns segundos.

— Posso fazer ao contrário?

— MIRTES!

E lá se foi ela.

Sozinha.

Solteira.

Rindo.

E, definitivamente, cercada de amor.

Porque talvez o grande encontro da nossa vida não seja simplesmente encontrar alguém, seja aprender a reconhecer o amor quando ele chega, qualquer que seja a forma que ele escolha para chegar.

Moral da história

São Valentim pode ficar com fevereiro. Santo Antônio, com junho. O tarô pode mostrar caminhos, as religiões podem alimentar a fé e as simpatias podem até deixar a vida mais divertida.

Mas nenhum santo, carta ou magia consegue amar em nosso lugar.

O amor pode até pedir ajuda ao céu. Mas precisa acontecer aqui embaixo.

Esse conto foi inspirado em uma publicação do instagran

https://www.instagram.com/reel/Dd9L1FdOcie/?stkn=ZDFubG1vZzhkc285