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Meu Jardim, Minha Vida

Há quem veja meu jardim e enxergue apenas flores.

Eu vejo histórias.

Cada muda que plantei um dia passou pelas minhas mãos como um pequeno gesto de esperança.

Nenhuma delas chegou pronta. Algumas eram apenas sementes, outras pequenos brotos que pareciam frágeis demais para enfrentar o tempo.

Ainda assim, eu acreditava.

Plantar uma flor nunca foi apenas colocar uma muda na terra.

É fazer um pacto com o futuro.

É aceitar que existe um tempo em que nada acontece diante dos nossos olhos, embora muita coisa esteja acontecendo debaixo da terra.

A natureza tem essa delicadeza de nos ensinar sem dizer uma única palavra.

Ela nos mostra que crescer exige silêncio.

Que criar raízes é tão importante quanto florescer.

Que nem sempre o que parece parado está realmente imóvel.

Ao longo da minha vida, percebi que também fui assim.

Plantei sonhos. Cultivei amizades.

Descobri na arte uma maneira de conversar com o mundo.

Aprendi técnicas, experimentei materiais, errei muitas vezes, recomecei outras tantas, até encontrar uma forma de colocar um pouco da minha alma em cada trabalho que faço.

Talvez seja por isso que minhas flores apareçam tanto nas minhas telas, nos mosaicos, nas caixas decoradas, nos sabonetes, nas toalhas pintadas e em tantas outras peças que nasceram das minhas mãos.

Antes de estarem na arte, elas já moravam dentro de mim.

Meu jardim nunca foi apenas um lugar bonito.

Ele sempre foi um lugar de encontros.

Encontro entre a terra e o céu.

Entre o tempo e a paciência.

Entre o cuidado e a recompensa.

Há dias em que caminho entre as flores apenas para observá-las.

Vejo um botão ainda fechado.

Dias depois ele se abre em cores.

O vento leva algumas pétalas.

A chuva fortalece outras.

Então chega o momento em que aquela flor encerra seu ciclo.

Ela murcha.

Ela retorna à terra.

Durante muitos anos pensei que isso representava um fim.

Hoje vejo diferente.

Ela apenas cumpriu sua missão.

Porque enquanto uma flor parte, outra já está preparando seu nascimento.

É impossível cuidar de um jardim sem compreender que a vida acontece em ciclos.

Nada permanece igual para sempre.

Nem a primavera.

Muito menos o inverno frio.

Nem nossas alegrias.

E o que dizer de nossas dores.

Talvez seja exatamente isso que eu mais amo nas flores.

Elas nunca desistem de florescer.

Mesmo depois da tempestade.

Independente do frio.

Mesmo depois de parecerem adormecidas.

Elas encontram uma nova estação.

E recomeçam.

A arte também é assim.

Cada obra que termino representa um ciclo encerrado e, ao mesmo tempo, o nascimento de outro.

Nunca pinto apenas uma tela.

Eu nunca monto apenas um mosaico.

Muito menos decoro apenas uma peça.

Em cada criação deposito um pouco da mulher que fui, da mulher que sou e daquela que continuo me tornando.

Hoje, quando caminho pelo meu jardim, não vejo apenas plantas.

Vejo uma vida inteira florescendo diante dos meus olhos.

Com suas cores. Perdas, conquistas.

Enfim suas estações.

Talvez seja por isso que eu continue acreditando tanto na beleza.

Porque aprendi com as flores que a verdadeira força não está em permanecer sempre floridas.

Está na coragem de renascer.

E acredito que o espírito humano seja muito parecido com elas.

Podemos enfrentar ventos fortes, longos invernos e dias difíceis.

Mas, enquanto existir esperança, sempre haverá uma nova primavera esperando para acontecer.

E é essa primavera que procuro levar para cada obra que nasce das minhas mãos.