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O Piano

Há alguns dias eu estava com raiva do piano.

Era um sentimento estranho.

Eu já não era mais aquela criança, mas bastou olhar para ele para que antigas lembranças ruins aparecessem.

É curioso como a mente humana funciona.

Diante das dificuldades da vida, ela parece insistir em abrir apenas as gavetas da dor.

O ser humano tem essa mania de puxar tudo para baixo, de aumentar o peso do que já é pesado, como se os momentos difíceis não pudessem guardar nenhuma fresta de luz.

Mas existe algo em mim que nunca se cala: a fé.

A fé em Deus, que me criou, e a fé de que sempre existe um outro olhar para as mesmas histórias.

Então, quase sem perceber, dou aquela risada boba que tantas vezes me salva. Uma risada simples, que parece dizer à alma:

“Procure melhor… deve haver algo bonito escondido aqui.”

E havia.

De repente, as lembranças ruins desapareceram.

No lugar delas, lembrei do que realmente significava aquele piano para mim.

Quando eu tocava, minha alma transbordava.

Não era durante os exercícios, nem quando eu seguia disciplinadamente uma partitura.

O que eu mais amava era conversar com o piano. Eu apenas colocava as mãos sobre as teclas e deixava que os sons encontrassem minhas emoções.

Era uma conversa silenciosa e ao mesmo tempo sonora entre dois amigos antigos.

As notas vinham carregadas das lembranças da minha mãe tocando, da velha vitrola, dos LPs espalhados pela sala e da música enchendo a casa de vida.

Cada melodia começou a dançar dentro da minha memória.

Nunca toquei para impressionar ninguém.

Eu tocava para mim.

E o piano me ouvia.

Sem críticas.

Ele não me cobrava.

Ali não haviam preconceitos.

Eu o amava.

E, de alguma forma, sempre senti que ele também me amava.

Naqueles momentos em que ficávamos sozinhos, eu tinha a estranha sensação de que seres muito especiais estavam ao meu redor.

Nunca senti medo daquela presença. Pelo contrário. Parecia que eles estavam ali porque reconheciam a beleza daqueles sons e da alegria que eles carregavam.

As lembranças continuavam chegando.

Minha mãe sentava-se ao piano e tocava Fascinação para meu pai.

Ele se acomodava ao lado dela como quem sabia que estava vivendo um instante precioso.

Os dois quase não precisavam falar. Bastava o olhar.

Às vezes ele se levantava, caminhava lentamente até ela e permanecia atrás do banco. Esperava o momento exato em que ela repousava a cabeça por um instante e sorria ao terminar a música.

Era um amor que também tocava.

Em outra ocasião, ela executou uma obra que jamais esqueci: Em um Mercado Persa. A composição possui vários movimentos, mas quando chegava à Ária da Princesa, parecia que o romance invadia a casa inteira. Ainda hoje consigo ouvir, dentro de mim, cada nota daquele trecho.

O piano esteve presente em muitas descobertas.

Descobertas do amor.

Esteve comigo nas saudades.

Nos desejos e encontros.

E nas despedidas.

Talvez por isso ele nunca tenha sido apenas um instrumento.

Era um companheiro de viagem.

Percebi, então, que a vida também se parece com um piano.

Existem teclas claras e escuras.

Notas alegres e notas tristes.

Silêncios que parecem intermináveis.

Mas nenhuma música nasce de uma única tecla.

A beleza aparece justamente quando todas elas encontram o seu lugar.

Passei muito tempo sem tocar.

Tempo demais.

Hoje sinto que preciso reencontrar aquele velho amigo mágico.

Voltar a colocar as mãos sobre as teclas, não para tocar perfeitamente, mas para conversar novamente com ele.

Porque existem amizades que não envelhecem.

Existem sons que nunca deixam de morar dentro da gente.

E existem instrumentos que, quando tocados com a alma, devolvem muito mais do que música.

Eles nos devolvem a nós mesmos.