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PAI, uma palavra pequena demais para tudo o que pode significar

Neste Dia dos Pais, uma homenagem à presença, à memória, à responsabilidade e às muitas formas de exercer a paternidade

PAI

Pai é uma palavra curta.

Três letras.

Mas tente colocar dentro delas tudo o que um pai pode representar.

Não cabe.

Pai pode ser colo quando o mundo assusta.

Pode ser mão quando os primeiros passos ainda são inseguros.

Pode ser limite quando ainda não sabemos onde termina nossa vontade e começa o direito do outro.

Pode ser conselho.

Pode ser silêncio.

Pode ser bronca.

Pode ser abraço.

Pode ser aquele olhar que diz: “Vai. Eu estou aqui.”

Pai é quem ensina algumas vezes falando e muitas outras simplesmente vivendo.

É aquele de quem herdamos gestos sem perceber.

Sabe aquele jeito de rir.

Uma expressão.

E as manias.

Os princípios.

A coragem.

Às vezes até os medos.

Pai pode ser raiz.

Mas sua maior missão talvez seja justamente ensinar os filhos a criarem asas.

E ter coragem suficiente para vê-los voar.

A presença e a ausência

Nem todo mundo poderá abraçar o pai neste Dia dos Pais.

E precisamos falar disso.

Alguns perderam seus pais para o tempo.

Outros nunca os conheceram.

Existem pais distantes.

Pais separados dos filhos pelas circunstâncias.

Pais que estiveram fisicamente presentes, mas emocionalmente ausentes.

Existem também relações difíceis, histórias interrompidas, palavras que nunca foram ditas e abraços que não aconteceram.

Por isso, o Dia dos Pais pode ser alegria para alguns e silêncio para outros.

E tudo bem que seja assim.

Porque também somos feitos de ausências.

Às vezes, depois que um pai parte, descobrimos uma coisa estranha e bonita:

ele continua aparecendo.

Numa frase que repetimos.

Naquela receita que cozinhamos.

Numa música tocando no rádio.

Num conselho que finalmente compreendemos.

Ou até na maneira como tratamos as outras pessoas.

Naquela velha história que já ouvimos cem vezes e que daríamos tudo para ouvir pela centésima primeira.

Existem pessoas que deixam de estar ao nosso lado, mas nunca deixam verdadeiramente de caminhar conosco.

Talvez essa seja uma das formas mais bonitas da memória.

Afinal, qual é a função de um pai?

Durante muito tempo, simplificamos demais essa resposta.

Ao homem caberia prover.

Trabalhar.

Sustentar.

Proteger.

E essas responsabilidades continuam importantes.

Mas paternidade nunca deveria caber apenas numa conta bancária.

Filhos precisam de presença.

Precisam de alguém que pergunte como foi a escola e tenha paciência para ouvir a resposta.

Precisam de quem apareça na apresentação, na reunião, no jogo, na consulta e também naquele dia absolutamente comum em que aparentemente nada importante aconteceu.

Porque a infância é construída principalmente nesses dias comuns.

Um pai participa da formação de valores.

Ensina respeito.

Mostra limites.

Ajuda a compreender frustrações.

Estimula autonomia.

Protege sem aprisionar.

Orienta sem determinar todos os caminhos.

E talvez tenha uma função ainda mais delicada: permitir que o filho seja diferente dele.

Porque amar um filho não significa fabricar uma continuação de nós mesmos.

Significa ajudá-lo a descobrir quem ele é.

Ser pai no mundo em que estamos vivendo

Talvez nunca tenha sido simples criar filhos.

Mas existe algo particularmente desafiador em exercer a paternidade hoje.

Nossos filhos carregam o mundo inteiro dentro do bolso.

Celulares, redes sociais, vídeos, jogos, inteligência artificial, influenciadores, algoritmos e informações chegam até eles numa velocidade que nenhuma geração anterior experimentou.

Antes, os pais perguntavam: “Com quem meu filho está?”

Hoje precisamos perguntar também: “Com quem meu filho conversa quando está sozinho diante de uma tela?”

Que conteúdos está consumindo?

Quem influencia seus valores?

Com quem se compara?

O que está aprendendo sobre sucesso, beleza, dinheiro, relacionamentos, sexo, respeito, felicidade e fracasso?

A tecnologia abriu possibilidades extraordinárias.

Nunca tivemos tanto conhecimento disponível.

Mas nunca disputamos tanto a atenção uns dos outros.

Talvez por isso uma das maiores responsabilidades da paternidade contemporânea seja uma das mais antigas: estar presente.

Não basta colocar limites de tela.

É preciso oferecer algo melhor do outro lado dela.

Conversa.

Passeio.

Esporte.

Música.

Livros.

Natureza.

Humor.

Afeto.

Olho no olho.

Tempo.

Porque nenhuma tecnologia deveria conseguir competir com a sensação de uma criança que sabe que pode conversar com seu pai sem medo.

Pais não precisam saber tudo

Há outra armadilha na qual muitos homens caíram.

A ideia de que pai precisa ter todas as respostas.

Não precisa.

Talvez nossos filhos aprendam muito mais quando nos escutam dizer:

“Eu não sei.”

“Eu errei.”

“Desculpe.”

“Vamos descobrir juntos.”

“Eu também estou aprendendo.”

Existe uma força enorme num pai capaz de reconhecer sua vulnerabilidade.

Porque filhos não precisam crescer acreditando que homens são invencíveis.

Precisam aprender que homens podem sentir.

Podem chorar.

Podem ter medo.

Podem pedir ajuda.

Podem demonstrar carinho.

Podem cuidar.

Podem mudar.

E podem recomeçar.

Talvez essa seja uma das maiores revoluções da paternidade atual.

E existem muitas maneiras de ser pai

Também precisamos ampliar nosso olhar.

Porque a família contemporânea possui muitas formas.

Existe o pai biológico.

Existe o pai adotivo.

Existe aquele que chegou depois e escolheu amar uma criança que não gerou.

Existem avôs que precisaram assumir novamente a responsabilidade de criar.

Tios.

Padrinhos.

Homens que se tornaram referências fundamentais na vida de crianças e jovens.

Existem famílias reconstruídas depois de separações.

Existem pais que criam seus filhos sozinhos.

Existem famílias homoafetivas.

Existem crianças que convivem com dois pais.

Existem histórias construídas pela adoção.

Existem paternidades que nasceram da biologia e outras que nasceram de uma escolha diária.

E talvez seja justamente aí que encontremos a essência.

Paternidade não deveria ser medida apenas pelo sangue.

Sangue explica origem.

Amor, responsabilidade, cuidado e presença constroem vínculos.

Não precisamos diminuir uma forma de família para reconhecer outra.

Precisamos compreender que crianças necessitam, acima de qualquer modelo, de ambientes onde possam crescer cercadas de proteção, respeito, limites, segurança e amor.

Também existem mulheres que precisaram ser pai

Quantas vezes ouvimos alguém dizer: “Minha mãe foi mãe e pai.”

A frase pode não ser tecnicamente perfeita, mas conhecemos profundamente o que ela quer dizer.

Ela fala de ausência.

Mas fala principalmente de força.

De mulheres que assumiram sozinhas responsabilidades que deveriam ter sido compartilhadas.

Que trabalharam.

Educaram.

Protegeram.

Disseram “não”.

Deram colo.

Pagaram contas.

Enfrentaram reuniões escolares, noites de febre, adolescências difíceis e medos que muitas vezes ninguém percebeu.

Neste Dia dos Pais, essas histórias também merecem respeito.

Não para apagar a importância da figura paterna.

Mas para reconhecer a grandeza de quem precisou ocupar todos os espaços quando alguém faltou.

Talvez pai seja um verbo

Depois de pensar em tudo isso, volto à palavra do início.

PAI.

Três letras.

Continuam pequenas demais.

Talvez porque pai não devesse ser apenas um substantivo.

Talvez devesse existir o verbo “paternar”.

Paternar seria estar.

Cuidar.

Ouvir.

Ensinar.

Proteger.

Corrigir.

Brincar.

Abraçar.

Discordar.

Perdoar.

Pedir perdão.

Deixar partir.

E continuar disponível quando o filho precisar voltar.

Porque gerar uma vida pode acontecer em um instante.

Construir uma relação de pai e filho leva uma vida inteira.

Neste Dia dos Pais

Aos pais que podem abraçar seus filhos hoje: abracem um pouco mais demoradamente.

Aos filhos que podem telefonar para seus pais: talvez não seja necessário encontrar palavras extraordinárias.

Às vezes um simples “eu te amo” resolve aquilo que passamos anos tentando dizer de maneiras complicadas.

Aos que sentem saudade de um pai que já partiu: permitam que as boas lembranças se sentem à mesa hoje.

Aos que carregam uma história difícil: que encontrem paz para construir relações diferentes das que receberam.

Aos homens que escolheram filhos que a vida colocou em seus caminhos: que saibam a dimensão do amor que representam.

Às mães, avós, avôs, tios e tantas pessoas que precisaram preencher ausências: nosso reconhecimento.

E aos pais que ainda estão aprendendo: continuem.

Filhos não precisam de pais perfeitos.

Precisam de pais verdadeiros.

Presentes.

Humanos.

Capazes de amar e de demonstrar esse amor enquanto ainda existe tempo.

Porque talvez um dia nossos filhos esqueçam os presentes que compramos.

Esqueçam algumas viagens.

Esqueçam o valor das coisas que lhes demos.

Mas dificilmente esquecerão como se sentiam quando estávamos ao lado deles.

E talvez seja esse o verdadeiro significado da palavra PAI:

alguém cuja presença ajuda outro ser humano a encontrar segurança suficiente para descobrir o próprio caminho, e liberdade suficiente para percorrê-lo.