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Homenagem à Terceiro Milênio e à Vovó Cici

Vovó Cici precisa ser conhecida por todos os brasileiros, assim como a história da criação vista pelo povo Yorubá!

Hoje faço um texto em Homenagem à Escola Estrela do Terceiro Milênio, escola que, ano passado, tive o prazer de conhecer!

Minha Ala possui mulheres incríveis no comando, elas sabem como lidar com gente, temos a Krys, Magali, Rita, Tina, Jaque e Sueli, citei essas seis, pois as reconheço rapidamente, além da Regina que era desse grupo e com quem mantive muito contato desde ano passado por admiração pessoal, pois é uma pessoa que entende das relações humanas, mas tem muitas outras, desculpem as que não listei aqui.

Nesse ano vivemos um momento de tensão, medo e insegurança, que surgiu por um detalhe e podia mudar a história da ala toda, mas todas elas se mobilizaram. Uma mulher corajosa me chamou a atenção pois ela não parou para se prender ao problema, foi buscar a solução, Magali foi brilhante, num momento de crise ver a luz no final do túnel merece elogios, só aí vemos os líderes naturais. Tomam o problema na mão e buscam a solução! E tudo deu certo!

Desfilar não é coisa simples, vocês imaginam quantos itens compõem uma roupa, quantos detalhes, amarrações certas, nenhum deles pode sair do prumo. Essas mulheres são responsáveis por tudo isso.

Elas não desfilam como nós, de fantasia, mas como um exército ao lado, nos alinhando, motivando e torcendo loucamente pelo sucesso. Aplausos para cada um desses anjos que colocam a escola na avenida!

Ano passado me empolguei e até contei para vocês a história do samba deles!

Mas meu respeito e admiração evoluíram demais esse ano!

Pois num ano eles cantaram os direitos da mulher, depois falaram sobre o direito a alegria e agora trouxeram algo muito maior, vou dividir com vocês o poder da ancestralidade que aqui habita.

Vejo nessa escola, uma “organização” que compreende o nome “Escola de Samba”, pois um samba enredo precisa ser mais que uma música, precisa ter significado, levar cultura e, nesse ano, eles trouxeram Vovó Cici e seus ensinamentos, uma mulher empoderada que tem propriedade para contar a história da Criação do Mundo segundo a cultura Yorubá!

Peço a todos leitores que leiam sem travas, leiam a essência da presença de Deus.

Samba enredo

  • “Contam os antigos que um dia
  • Foi a missão entregue a Obatalá (o criador da humanidade)
  • Criar o mundo, ver surgir o Aye (Terra)
  • Pra Olodumarê (Deus supremo) os sonhos moldar
  • E desce do Orun (o céu ou o mundo espiritual), o velho orixá (força pura)
  • Mais vai adormecer à sombra de uma palmeira
  • No desejo da magia segue Exú (Sentinela, protetor, mensageiro) ao pai maior
  • A luz de Oduduà (Divindade da Terra), fé no encantamento
  • Poesia a derramar o firmamento
  • Sete dias pro Ayê nascer
  • O florir da natureza, ganha vida o mar
  • Voam pássaros no céu desenhando o infinito
  • Paraíso singular
  • Num triste despertar,
  • se arriscar em um novo plano
  • De areia às nuvens de algodão
  • Forjar, nesse chão, o ser humano
  • Ê Nanã (orixá responsável pela criação do homem) é a mãe a modelar
  • Ouve o pranto desaguar,
  • feito choro de menino
  • Ê Nanã vê o sopro divino
  • E o pai abençoar três raças e um destino
  • Orunmilá (dividindade que sabe todos os segredos) leva o Axé (força da realização e manifestação do poder divino) a todo Erê, Babá (entidade que intemedia com o Pai)
  • Conduz a consciência para iluminar
  • Um mundo sem maldade e preconceito
  • Se não puder ser amor,
  • que seja ao menos respeito
  • Ebomi ya (Mais velha) bate forte no tambor
  • Vó Cici é de Oxalá (Deus) traz o opaxorô (cetro que dala)
  • Ebomi ya é a fonte do saber
  • Canta forte Grajaú, faz tremer o seu ilê

Esse samba traz em essência a Criação, num formato que merece respeito, por isso peço palmas a seus compositores: Rodrigo Schumacker, Thiago Meiners, Darlan Alves, Pitty De Menezes, Claudio Mattos.

 A escola evoluiu com passos pela avenida, cheios de energia e de alegria, com a presença de Vovó Cici no abre-alas e com fantasias que representavam toda a força do esplendor cultural ali cantado!

Quer conferir?

Vovó Cici

(Fotos do Instagran)

Falar de Vovó Cici é falar de cultura e de ancestralidade, pois poderíamos, sem dúvida, dizer que possui a sabedoria do Candomblé Nagô da Bahia, a Ebomi Nancy “Cici” de Souza é uma entidade viva que armazena conhecimento e pode até ser considerada uma biblioteca viva.

Vovó Cici é Egbomi do Terreiro Ilê Axé Opô Aganjú, está na religião desde os 18 anos, com quase cinquenta  de iniciação para Oxum e Oxalá, guardiã de conhecimento ancestral africano, uma mensageira das gerações antigas.

Em 2022, a contadora de histórias afro-brasileiras ganhou o título de cidadã de Salvador.

Mestra e sábia da cultura afrodiaspórica, fala vários idiomas e é uma amante da leitura, uma grande herbolária (profunda conhecedora das propriedades medicinais das plantas e da magia dos cantos que despertam as propriedades das folhas).

Foi assistente direta do fotógrafo, etnólogo, antropólogo e babalawô Pierre Fatumbi Verger.

Trabalha no Espaço Cultural da Fundação Pierre Verger como pesquisadora e contadora de histórias.

Escreveu junto com Marlene da Costa e Josmara Fregoneze o livro “Cozinhando Histórias: Receitas, Histórias e Mitos de pratos afro-brasileiros”.

Em 2023 A Universidade Federal da Bahia (UFBA) concedeu o título de Doutora Honoris Causa à griot octogenária Nancy de Souza e Silva, conhecida como Vovó Cici de Oxalá.

O título foi proposto pelo coletivo Netindeafro, do Instituto de Letras da UFBA, e se fundamentou nas contribuições inestimáveis que, há mais de 50 anos vêm ajudando nas pesquisas de doutorado no campo das Ciências Humanas na Bahia, assim como todo seu reconhecimento na arte de contação de histórias, sempre levando a cultura narrativa africana, que é milenar.

Projeto Rudá

Eu e alguns amigos criamos um Projeto chamado Rudá, que será uma sequência de e-books e livros onde nossas autoras (pois para o primeiro reunimos sete mulheres) irão perpetuar histórias contadas de mãe para filhos e de contos esquecidos em livros antigos, todos referentes às ancestralidades indígena e africana.

Fiquei muito emocionado com um texto de Mônica, uma de nossas autoras, angolana que vive aqui e ama esse país. Ela trouxe muito do povo yorubá nos seus dois textos.

Quando li a poesia na música de minha escola, fiquei muito emocionado, algo dentro de mim compreendia cada palavra e perguntei a outras pessoas, a quem mostrei a música, e descobri que era um sentimento comum a todos. Sendo assim resolvi escrever esse artigo que reverencia Vovó Cici e a Música que conta a história da criação.

Lembrem-se de que a religiosidade precisa ser vivida e, na raiz todas as religiões, não existe preconceitos e desrespeito.

Seja amor sempre e aprenda como cada cultura, cada raça, cada povo possui uma forma maravilhosa de amar ao Criador.

Mais que Bibliografia, seguem abaixo sites que mostraram com respeito e efetividade a história de Vovó Cici:

https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2024/02/02/vovo-cici-fala-sobre-iemanja.ghtml

https://www.brasildefatoba.com.br/2022/03/22/vovo-cici-recebe-titulo-de-cidada-soteropolitana-nesta-quarta-22

https://revistacontinente.com.br/edicoes/225/ebomi-cici–humildade–sabedoria-e-docura