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Mirtes tinha um irmão

No dia seguinte, às nove e sete da manhã, Mirtes bateu na minha porta.

Sim.

Bateu.

Duas vezes em dois dias.

Comecei a ficar preocupada com aquela mulher.

— Entra!

A porta se abriu devagar.

Mirtes apareceu segurando o celular.

— Zora…

— Bom dia.

— Você prometeu.

— Também prometi bom dia. Vamos começar pelas obrigações mais simples.

— Bom dia. Você prometeu.

— Café?

— Roberto.

— Pão?

— Roberto.

— Mirtes, não se procura irmão desaparecido há mais de trinta anos de estômago vazio.

Ela entrou.

— Fiz as contas.

— Que contas?

— Eu tinha dezesseis. Ele tinha dois anos e meio. Hoje eu tenho trinta e oito…

Olhei para ela.

— Quase quarenta.

Trinta e oito.

— Continue.

— Então ele deve ter vinte e quatro, mais ou menos.

Coloquei duas xícaras sobre a mesa.

— Sobrenome?

— Campos.

— Roberto Campos?

— É.

Peguei meu celular.

— Excelente. Deve haver apenas uns quatrocentos mil.

— Zora!

— Estou sendo otimista.

Começamos pelo Instagram.

Roberto Campos.

Apareceu um.

Barba.

Recife.

— Não.

Outro.

Casado.

Cinquenta e poucos.

Curitiba.

— Não.

Outro.

Músico.

— Bonito.

— Mirtes!

— Estou apenas observando.

— Estamos procurando seu irmão, não um namorado.

— Continua.

Roberto.

Beto.

Betinho.

Roberto Campos.

Beto Campos.

R. Campos.

Tentamos combinações.

Cidade.

Idade.

Amigos.

Perfis privados.

Perfis de cachorro.

Perfil de academia.

Um Roberto Campos que publicava exclusivamente fotografias de caminhões.

— Esse?

— Meu irmão tinha dois anos e meio quando eu fui embora, Zora. Não sei se desenvolveu paixão por Scania.

— Justo.

Depois de quase uma hora, Mirtes jogou o celular sobre a mesa.

— Não vamos achar.

— Uma hora atrás você passou trinta anos sem procurar. Agora está impaciente?

Ela me olhou.

— Facebook.

— Você ainda usa Facebook?

— Para desaparecidos e parentes distantes, respeito os clássicos.

E fomos.

Roberto Campos.

Apareceram dezenas.

Talvez centenas.

Até que encontrei um perfil.

Cidade de nascimento: a cidade de Mirtes.

Cidade atual: a mesma.

Idade compatível.

Abri.

— Mirtes.

Ela não respondeu.

— Mirtes.

— O quê?

Virei a tela.

Ela parou.

Não pegou o celular.

Apenas olhou.

Era um rapaz bonito.

Vinte e poucos anos.

Cabelo escuro.

O formato do rosto…

Olhei para Mirtes.

Depois para ele.

Depois para Mirtes novamente.

— Meu Deus.

— O quê?

— Ele parece com você.

Mirtes tomou o telefone da minha mão.

Ampliou a fotografia.

— Não parece.

— Parece.

— O nariz não.

— O nariz é melhor.

— Zora!

— Estou ajudando emocionalmente.

Ela passou para outra fotografia.

E outra.

E outra.

Então parou.

O rapaz estava sozinho.

Sorria discretamente.

Mas havia alguma coisa nos olhos.

— Ele parece triste — Mirtes disse.

Sentei ao lado dela.

— Talvez seja só uma fotografia.

— Não.

— Mirtes…

— Olha os olhos dele.

Olhei.

Também senti.

Mas sentimentos não são provas.

— Não vamos inventar a vida dele antes de conhecê-lo.

— Eu sei.

Ela passou o dedo pela fotografia.

— Será que ele sentiu minha falta?

Essa pergunta me desmontou um pouco.

Porque Roberto talvez não tivesse lembranças claras de Mirtes.

Mas Mirtes tinha lembranças dele.

— Eu embalava ele, Zora.

Silêncio.

— Dava banho.

Outra fotografia.

— Quando minha mãe estava ocupada, eu dava comida.

Outra.

— Ele dormia no meu colo.

E então veio a pergunta que nenhuma de nós tinha feito na noite anterior.

Onde ele ficou quando meu pai foi preso?

Não sabíamos.

Com parentes?

Avós?

Alguma instituição?

Quem cuidou daquele menino depois que a mãe morreu, o pai desapareceu para cumprir sua pena e a irmã de dezesseis anos fugiu?

Havia trinta e tantos anos escondidos entre duas fotografias.

E nenhum mecanismo de busca conseguiria nos contar aquilo.

Continuamos investigando.

Até que encontramos uma fotografia de Roberto com um homem mais velho.

Mirtes congelou.

— É ele.

— Seu pai?

Ela assentiu.

Mesmo envelhecido, reconheceu.

Demorei alguns segundos antes de perguntar:

— Quer parar?

— Não.

Encontramos o perfil dele.

Havia fotografias recentes.

Uma mulher aparecia ao seu lado.

Em outras, Roberto.

Família reunida.

Almoços.

Aniversários.

Viagens.

Sorrisos.

Pareciam felizes.

E havia outra coisa.

Publicações sobre espiritualidade.

Mensagens sobre perdão.

Fé.

Transformação.

Gratidão.

Recomeço.

Mirtes lia tudo em silêncio.

— Ele mudou — disse.

— Parece ter mudado.

— Você viu nas cartas.

— As cartas sugeriram um caminho. Isso aqui são fragmentos da vida real. Ainda não sabemos a história toda.

Ela continuou olhando.

— Eu passei a vida inteira imaginando ele bêbado.

Não respondi.

— Na minha cabeça ele nunca envelheceu, Zora. Continuava naquela casa. Com aquela cara. Com aquela voz.

Respirou fundo.

— E agora tem um senhor aqui falando de Deus.

— As pessoas podem mudar.

— Isso apaga o que ele fez?

— Não.

— Então posso continuar com raiva?

— Pode.

— E posso ficar feliz por ele ter mudado?

— Também.

Ela me olhou confusa.

— As duas coisas?

O coração humano não é formulário. Pode marcar mais de uma opção.

O medo começou a mudar de nome.

Primeiro virou curiosidade.

Depois carinho.

Depois saudade.

Uma saudade estranhíssima.

Saudade de alguém que existia, mas que Mirtes não conhecia mais.

Ela sabia quem Roberto tinha sido aos dois anos e meio.

Não sabia quem era o homem de vinte e quatro.

— Quero falar com ele.

Pronto.

Chegamos.

— Tem certeza?

— Não.

— Ótimo.

— Ótimo?

— Coragem não costuma aparecer depois da certeza. Normalmente aparece antes.

Ela respirou.

— Manda pelo seu perfil.

— Por quê?

Silêncio.

Então entendi.

Mirtes usava o sobrenome de Dona Maricota nas redes sociais.

— Você nunca usou Campos.

— Não.

— Por causa do seu pai?

— Eu tinha medo que ele me encontrasse.

Trinta e tantos anos.

E uma menina de dezesseis ainda estava escondida dentro daquela mulher.

Peguei meu celular.

— Então vamos pelo meu.

Enviamos a solicitação.

Esperamos.

Três minutos.

— Ele não vai aceitar.

— Mirtes…

Cinco minutos.

— Deve ter achado estranho.

— Mirtes.

Sete.

— Cancela.

— Fica quieta.

Oito minutos.

Aceitou.

Mirtes levantou da cadeira.

— ACEITOU!

— Eu estou vendo.

— E agora?

— Agora você pode fugir novamente ou fazer diferente.

Ela sentou.

Escrevemos.

Apagamos.

Escrevemos outra vez.

Apagamos.

Na quarta tentativa, deixei simples.

“Olá, Roberto. Desculpe a pergunta tão pessoal. Você sabe da existência de uma irmã chamada Mirtes?”

Enviei.

— ZORA!

— Você passou quinze minutos decidindo entre “oi” e “olá”. Alguém precisava assumir o comando.

— E se…

O celular apitou.

Resposta.

Imediata.

Mirtes segurou meu braço.

Abri.

Roberto sabia.

Sabia de Mirtes.

E queria saber dela.

Onde estava.

Como estava.

Se estava bem.

Por que nunca tinha aparecido.

Se era realmente ela.

As mensagens começaram a chegar uma atrás da outra.

Mirtes não conseguia responder na mesma velocidade.

Chorava.

Escrevia.

Apagava.

Escrevia novamente.

Até que finalmente digitou:

“Sou eu.”

Não sei quanto tempo ficaram conversando.

Em algum momento deixei de participar.

Fiz café.

Arrumei algumas cartas.

Reguei uma planta que não precisava ser regada.

Fingi que não estava ouvindo.

A conversa escrita virou áudio.

O áudio virou coragem.

E a coragem virou uma chamada de vídeo.

Quando a imagem apareceu, Mirtes levou as duas mãos ao rosto.

— Beto?

Do outro lado, um rapaz sorriu.

E eu vi imediatamente.

Não os olhos tristes.

Dessa vez vi Mirtes.

No sorriso.

— Mi?

Ela desabou.

Existem abraços que acontecem sem braços.

Aquele foi um deles.

Conversaram sobre tudo.

Ou tentaram.

Trinta e tantos anos não cabem numa videochamada.

Roberto queria saber onde ela morava.

O que fazia.

Por que usava outro sobrenome.

Quem era Dona Maricota.

Mirtes queria saber onde ele tinha vivido.

Quem cuidara dele.

Como tinha sido sua infância.

Como era a relação com o pai.

Quem era aquela mulher nas fotografias.

Por que ele nunca a procurara.

As respostas começaram.

Mas percebi que algumas histórias precisariam de tempo.

E outras talvez doessem.

Então ouvi:

— Você vem para São Paulo?

Levantei os olhos.

Mirtes estava sorrindo.

— Vem num fim de semana!

Silêncio.

— Claro que pode ficar aqui!

Olhei para ela.

Aqui?

Mirtes apontou para mim.

— Minha irmã tem uma casa ótima.

Minha irmã?

Levantei uma sobrancelha.

Ela continuou:

— A Zora. Depois eu te explico. Ela é meio bruxa, mas é gente boa.

— MIRTES!

Roberto começou a rir do outro lado da tela.

— Pode ficar na casa dela. Ela tem quarto.

— Tem?

— Tem sim.

— Interessante. Quando terminarem de organizar minha hospedaria, poderiam me informar a data?

Mirtes tapou o microfone.

— Zora, por favor.

Olhei para ela.

Aqueles olhos.

Ontem havia medo.

Hoje havia alguma coisa que eu ainda não tinha visto.

Pertencimento.

— Ele pode ficar.

Mirtes me abraçou.

— Eu sabia!

— Não transforme generosidade em precedente.

Ela voltou correndo para o vídeo.

— Ela deixou!

Afastei-me.

Deixei os dois conversando.

Fui até o piano.

Não toquei.

Fiquei olhando para Mirtes.

A menina de dezesseis anos que chegou sozinha a São Paulo tinha encontrado Dona Maricota e ganhado uma mãe.

Depois encontrou uma vila e ganhou uma casa.

Em algum momento encontrou a mim.

E, sem perceber, ganhamos uma à outra.

Agora, depois de décadas, ela recuperava um irmão.

Família é mesmo uma coisa engraçada.

Algumas pessoas chegam pelo sangue.

Outras pela porta.

Algumas encontramos numa busca de internet.

Outras entram em nossa casa sem bater durante anos até que um dia percebemos que já são nossas.

Mirtes virou-se para mim.

Estava chorando e sorrindo.

— Zora!

— O quê?

Apontou para a tela.

Eu tenho um irmão!

Sorri.

— Sempre teve.

Ela ficou quieta.

— Só demorou um pouco para vocês se encontrarem outra vez.

Voltou para a conversa.

E eu pensei que talvez fosse isso.

Às vezes a vida não devolve o tempo.

Não devolve a infância.

Não devolve uma mãe.

Nem apaga uma noite terrível.

Não transforma automaticamente um pai violento em alguém perdoado apenas porque ele mudou.

Mas, de vez em quando, a vida deixa uma pequena porta aberta.

E cabe a nós decidir se teremos coragem de atravessá-la.

Naquela tarde, Mirtes atravessou.

E do outro lado havia um rapaz de vinte e quatro anos dizendo:

— Mi, eu quero muito te abraçar.

O encontro estava marcado.

Roberto viria para São Paulo.

Ficaria na minha casa, informação que aparentemente fui a última pessoa a receber.

E havia ainda muitas perguntas.

Sobre a infância dele.

Sobre o pai.

Aquela nova mulher.

Sobre a prisão.

Falar sobre Dona Maricota.

Sobre a mãe que os dois perderam.

E, principalmente, sobre o que aconteceria quando dois irmãos separados por mais de três décadas finalmente estivessem frente a frente.

Mas isso…

Isso é história para outra tarde na vila.

A frase de Zora

“Há pessoas que o tempo tira da nossa vida, mas deixa escondidas em algum lugar do caminho, esperando que um dia tenhamos coragem de procurar.”

O que essa história deixa

Mirtes não recuperou os anos perdidos. Nenhuma mensagem poderia devolver a infância que ela e Roberto não viveram juntos.

Mas reencontrar não significa apagar o passado.

Significa permitir que o passado deixe de decidir sozinho o futuro.

Às vezes, família é sangue. Outras, é Dona Maricota abrindo uma porta. Às vezes, é uma vizinha ruiva que vira irmã sem que ninguém perceba.

E, às vezes, família é simplesmente alguém que passou décadas do outro lado da vida esperando poder dizer:

“Eu sabia que você existia. Só não sabia onde encontrar você.”

Agora Roberto vem para a vila.

E alguma coisa me diz que, quando essa porta se abrir, não será apenas Mirtes que encontrará um irmão. O passado inteiro daquela família vai entrar junto.