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Bienal do Livro 2026: se os jovens lotam um evento para encontrar livros, temos muito o que comemorar

Em uma época dominada por telas, algoritmos, vídeos curtos e inteligência artificial, milhares de jovens escolherem passar horas entre livros talvez seja uma das melhores notícias que poderíamos receber.

Passei pela 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo e uma imagem ficou comigo: jovens. Muitos jovens.

Jovens andando pelos corredores, carregando sacolas cheias de livros, procurando autores, esperando por palestras, fotografando capas, conversando sobre personagens, recomendando histórias uns aos outros.

E filas. Muitas filas.

O evento, realizado de 4 a 13 de setembro no Distrito Anhembi, foi projetado para receber cerca de 700 mil visitantes e mais de 230 expositores. A própria organização anunciou que a área comercializada cresceu 28% e chegou a 100% de ocupação.

No primeiro fim de semana, ingressos chegaram a se esgotar, com corredores e espaços culturais muito cheios. A presença juvenil foi particularmente visível: houve desde enormes aglomerações para encontrar a escritora Lynn Painter até um feriado marcado por crianças, adolescentes e famílias acompanhando autores e atrações literárias.

É claro que tanta gente também trouxe problemas de organização, filas e circulação — e eles precisam ser reconhecidos e corrigidos.

Mas existe algo extraordinário por trás desses problemas: estamos falando de uma multidão querendo livros.

E isso merece ser celebrado.

O jovem não deixou de ler. Talvez tenha mudado a maneira de chegar ao livro.

Durante muito tempo ouvimos que a internet acabaria com os livros.

Depois vieram os smartphones.

As redes sociais.

Os vídeos.

Os streamings.

Os games.

Agora chegou a Inteligência Artificial.

E o livro continua ali.

Mais interessante ainda: os jovens continuam ali com ele.

A Bienal deste ano parece compreender essa transformação. A própria organização adotou o conceito de um “festival de emoções” e fala em aproximar-se da chamada “geração festival”.

Talvez exista uma lição importante nisso.

Não precisamos obrigatoriamente colocar o livro em guerra contra a tecnologia.

Um jovem pode descobrir um escritor no TikTok, conversar sobre ele no Instagram, assistir a uma entrevista no YouTube, comprar o livro pela internet e, ainda assim, querer desesperadamente segurar aquele livro nas mãos.

Uma coisa não precisa eliminar a outra.

A tecnologia pode levar o jovem até o livro.

E o livro pode levá-lo para lugares onde nenhum algoritmo conseguiria levá-lo sozinho.

Existe algo no papel que uma tela ainda não conseguiu reproduzir

Quem gosta de livros conhece a sensação.

Entrar numa livraria.

Pegar um livro.

Sentir seu peso.

Olhar a capa.

Passar os dedos pelas páginas.

Abrir em algum ponto aleatório.

E sentir aquele cheiro tão característico do papel.

Pode parecer romantismo.

Talvez seja. E qual seria o problema?

Porque o livro físico oferece também uma experiência.

Durante algum tempo, aquela pessoa se desliga das notificações.

Não há mensagem chegando.

Nem há vídeo começando automaticamente.

Não existe alguém disputando sua atenção a cada poucos segundos.

Há apenas o leitor e a história.

Num mundo que disputa nossa atenção o tempo inteiro, conseguir permanecer diante de uma página talvez esteja se tornando quase um ato de resistência.

Ler exige uma coisa extraordinária: imaginar

Essa talvez seja uma das diferenças mais bonitas entre assistir e ler.

Se um filme diz: havia um castelo no alto de uma montanha…

alguém já construiu o castelo para você.

Escolheu a montanha.

A iluminação.

As roupas.

Os móveis.

Os rostos.

Mas quando um livro diz que havia um castelo no alto de uma montanha, acontece algo maravilhoso.

Você precisa construir o castelo.

O autor oferece palavras.

O leitor cria mundos.

Cada pessoa imagina um castelo diferente.

Cada leitor dá um rosto ao personagem.

Cada um escuta aquela voz de uma maneira.

A literatura nos obriga gentilmente a participar da história.

Por isso, quando uma criança ou um adolescente lê fantasia, aventura, romance, ficção científica ou mistério, ele não está simplesmente recebendo informação.

Está exercitando imaginação, interpretação, memória, repertório e capacidade de construir relações entre ideias.

Está conhecendo lugares onde nunca esteve.

Épocas em que nunca viveu.

Pessoas que nunca encontrou.

Culturas diferentes da sua.

E até sentimentos que talvez ainda não tenha experimentado.

Ler é uma das poucas maneiras que inventamos de viver milhares de vidas permanecendo dentro da nossa.

E que maravilha descobrir que os jovens ainda querem histórias

A Bienal de 2026 oferece exemplos interessantes.

A jovem escritora brasileira Ariani Castelo, de 27 anos, viu sua fantasia “Coração de Cristal Partido” esgotar quatro remessas durante o evento, segundo sua editora. Sua trajetória também mostra algo característico dessa nova geração: começou escrevendo, publicou histórias na internet, passou pela autopublicação digital e chegou à editora tradicional.

Alice Oseman mobilizou jovens leitores.

Lynn Painter provocou uma enorme aglomeração de fãs.

Autores de fantasia, ficção científica, romances e literatura infantojuvenil atraíram públicos apaixonados.

E Pedro Bandeira, aos 84 anos, continua encontrando jovens leitores para personagens criados décadas atrás.

Olhe que coisa maravilhosa.

Autores jovens encontrando jovens.

Autores mais velhos encontrando jovens.

Pais apresentando livros aos filhos.

Filhos talvez fazendo os pais conhecerem novos autores.

É assim que uma cultura leitora permanece viva: uma geração entrega histórias para a próxima — e a próxima acrescenta suas próprias histórias.

A Bienal não vende apenas livros

É isso que considero mais importante.

Uma Bienal desse tamanho movimenta editoras, autores, ilustradores, tradutores, revisores, designers, livreiros, educadores e toda uma cadeia econômica.

Mas seu maior produto talvez não possa ser colocado numa sacola.

Curiosidade.

A programação oficial reúne literatura com educação, sociedade, diversidade, inovação e formação de leitores. Há espaços para autores, educadores, podcasts, influenciadores, saraus, slams, contação de histórias e outras formas de aproximar públicos diferentes da palavra.

Isso importa porque uma sociedade que lê tende a possuir mais instrumentos para perguntar.

Comparar.

Interpretar.

Discordar.

Pesquisar.

Duvidar.

Criar.

A leitura não determina automaticamente que alguém terá boas ideias.

Mas oferece algo fundamental: repertório para construir as próprias ideias.

E isso interessa profundamente à Comudsaber.

Nosso trabalho nasceu exatamente da crença de que conhecimento precisa circular.

Encontrando autores e vendo histórias ganharem vida

Uma das coisas mais bonitas de uma Bienal é perceber que o livro deixa de ser apenas um objeto e passa a ter rosto, voz, história e encontro.

Para mim, foi especialmente emocionante reencontrar minha parceira Regina Drummond e vê-la falando sobre o Passarinho Rafa diante de uma sala cheia de crianças.

Elas estavam atentas.

Olhavam para Regina, ouviam a história, acompanhavam cada palavra e, ao final, queriam se aproximar, abraçar, conversar e pedir autógrafos.

Pode parecer uma cena simples.

Mas não é.

Ali estava acontecendo algo muito importante: uma autora deixando de ser apenas um nome impresso numa capa e se transformando, para aquelas crianças, em alguém real, próximo e inesquecível.

Talvez algumas delas esqueçam detalhes daquele dia.

Mas alguma poderá guardar para sempre a lembrança de ter conhecido quem escreveu uma história de que gostava.

E quem sabe esse encontro não desperte também uma vontade nova?

A vontade de ler outro livro.

De conhecer outro autor.

Ou até de escrever a própria história. Eu me empolguei e devo lançar mais alguns ebooks em breve, mas já lancei alguns:

Também fiquei muito feliz ao encontrar na Bienal diferentes espaços destinados a novos autores.

Isso é fundamental.

A literatura não pode viver apenas dos nomes já consagrados. Ela precisa permanentemente abrir portas para novas vozes, novas ideias, novos estilos e novas histórias.

Todo grande escritor já foi, um dia, alguém tentando encontrar seu primeiro leitor.

Criar espaço para novos autores é garantir que a literatura continue se renovando.

E talvez uma Bienal tenha exatamente essa magia: de um lado, reencontramos escritores que já admiramos; de outro, podemos descobrir alguém cujo nome ainda não conhecemos, mas cujo livro poderá nos acompanhar pelo resto da vida.

Conhecer novos talentos me inspira:

Precisamos parar de dizer que os jovens só querem celular

Talvez devêssemos olhar novamente para aqueles corredores lotados.

Eles estão nos dizendo alguma coisa.

Jovens gostam de tecnologia.

de redes sociais.

de vídeos.

games.

e gostam de inteligência artificial.

E também gostam de livros.

Talvez o erro esteja em imaginar que uma coisa necessariamente precisa destruir a outra.

Nossa missão como pais, professores, escritores, escolas, editoras e sociedade deveria ser outra: criar pontes.

Usar a tecnologia para despertar curiosidade.

Usar as redes para apresentar autores.

Usar vídeos para provocar perguntas.

E então oferecer livros para quem deseja ir mais fundo.

Porque não precisamos tirar nossos jovens das máquinas para sempre.

Precisamos mostrar que existe um mundo extraordinário também fora delas.

E talvez não exista objeto mais simples para fazer isso do que um livro.

Não precisa de bateria.

Não precisa de atualização.

Não precisa de Wi-Fi.

Não manda notificações.

Mas, quando aberto, pode carregar uma pessoa para o passado, para o futuro, para outro país, para outro planeta ou para dentro de si mesma.

Que venham mais bienais. E mais leitores.

Ao olhar tanta gente circulando pela Bienal do Livro de São Paulo, prefiro enxergar esperança.

Cada sacola carregada por um adolescente representa alguma coisa.

Talvez uma aventura.

Uma história de amor.

Um mistério.

Uma descoberta científica.

Uma biografia.

Um universo fantástico.

Não importa.

O importante é que aquele jovem escolheu levar uma história para casa.

Em algum momento, talvez desligue a tela.

Abra o livro.

Sinta o cheiro do papel.

E comece a ler.

A partir daí, não sabemos para onde ele irá.

Essa é justamente a beleza.

Porque uma sociedade precisa de tecnologia, inovação e Inteligência Artificial.

Mas também precisa desesperadamente de imaginação.

E enquanto milhares de jovens continuarem lotando uma Bienal para encontrar livros, escritores e outros leitores, existe uma mensagem que precisamos ouvir:

O livro não perdeu a batalha para as telas. Ele simplesmente ganhou novos caminhos para chegar às mãos de quem ainda deseja descobrir outros mundos.

E talvez nossa responsabilidade seja fazer com que cada vez mais mãos tenham essa oportunidade.

Bienal Internacional do Livro de São Paulo — site oficial

Programação cultural da Bienal 2026