
Existem artistas que representam o mundo.
Existem aqueles que tentam transformá-lo.
E existem alguns, muito poucos, que parecem precisar criar um mundo próprio para conseguir existir dentro deste.
Yayoi Kusama foi uma dessas pessoas.
Pontos. Redes. Flores. Espelhos. Abóboras. Luzes. Repetições que parecem não terminar.
Ambientes em que nossa própria imagem se multiplica até que já não saibamos exatamente onde termina o indivíduo e começa o infinito.
Tudo isso se tornou parte de uma linguagem artística tão particular que o mundo aprendeu a reconhecê-la.
Mas quero começar esta homenagem não por suas obras.
Quero começar por uma decisão de sua vida.
Quando reconhecer a própria fragilidade também é uma demonstração de força
Kusama falou abertamente sobre suas experiências psíquicas e sobre as alucinações visuais e auditivas que a acompanharam desde muito jovem.
Seria fácil, e talvez até poeticamente tentador, transformar seu sofrimento em explicação para sua genialidade.
Não quero fazer isso.
Doença mental não precisa ser romantizada para que reconheçamos a extraordinária história de uma artista.
Depois de retornar dos Estados Unidos ao Japão na década de 1970, Kusama passou voluntariamente a viver em uma instituição psiquiátrica em Tóquio, mantendo sua produção artística em um estúdio próximo. A partir dessa estrutura, continuou criando por décadas.
Há nisso algo que me toca profundamente.
Talvez uma das maiores demonstrações de consciência seja perceber que precisamos de ajuda.
Kusama não abandonou a vida porque precisava de cuidados.
Não abandonou a arte.
Não abandonou sua imaginação.
Encontrou uma maneira possível de continuar.
E continuou.
Durante décadas.
Até os últimos dias de sua vida.
O Yayoi Kusama Museum confirmou que ela morreu em um hospital de Tóquio em 14 de agosto de 2026, aos 97 anos, e registrou algo extraordinário: Kusama continuou pintando até seus últimos dias.
Talvez seja impossível separar completamente a mulher da artista.
Mas podemos evitar uma injustiça:
Kusama não foi extraordinária porque sofreu. Foi extraordinária também porque encontrou maneiras de continuar criando apesar de tudo aquilo que enfrentou.
Uma menina japonesa diante de um mundo que ainda não conseguia enxergá-la
Yayoi Kusama nasceu em 22 de março de 1929, em Matsumoto, na província de Nagano, Japão.
Começou a pintar ainda criança. Sua história familiar foi difícil e sua mãe se opunha à sua vocação artística. Desde pequena, Kusama relatava experiências alucinatórias que posteriormente apareceriam transformadas em elementos recorrentes de sua produção.
Ainda jovem decidiu que sua arte precisava atravessar fronteiras.
Partiu para os Estados Unidos no final dos anos 1950 e encontrou em Nova York um dos centros mais efervescentes da arte de vanguarda.
Ali desenvolveu suas pinturas de redes infinitas, esculturas, instalações e performances e conviveu com artistas que também transformariam a história da arte contemporânea.
Mas Kusama não queria simplesmente pertencer a um movimento.
Criou sua própria linguagem.
Experimentou:

Utilizou a arte para falar de sexualidade, liberdade, guerra, paz, corpo, repetição, desaparecimento do indivíduo e infinito.
Depois voltou ao Japão.
E continuou.
Décadas mais tarde, o reconhecimento internacional alcançaria dimensões extraordinárias. Suas instalações imersivas atraíram multidões, suas abóboras tornaram-se imediatamente reconhecíveis e suas salas de espelhos transformaram a contemplação artística em experiência física.
Em 2017, Tóquio ganhou um museu dedicado à sua produção.
A mulher que durante determinados períodos esteve distante do centro do circuito artístico internacional tornou-se uma das artistas mais reconhecidas de nosso tempo.
E, segundo seu próprio museu, permaneceu fiel até o fim a uma convicção que atravessou sua obra:
o amor poderia ajudar a salvar o mundo.
Para conhecer a cronologia básica de sua vida, o leitor pode consultar a biografia de Yayoi Kusama na Wikipédia.
Mas onde estão as imagens?
Decidi propositalmente não reproduzir neste artigo fotografias encontradas em jornais, galerias ou páginas da internet sem que exista uma autorização clara para sua republicação.
Respeitar uma artista também significa respeitar os direitos existentes sobre sua obra e sobre as fotografias que a registraram.
Isso, entretanto, não nos impede de fazer algo muito melhor.
Podemos levar você diretamente a lugares onde o universo visual de Kusama é apresentado por quem preserva sua obra.
Entre no universo de Kusama pelo seu próprio museu
O site oficial do Yayoi Kusama Museum, em Tóquio, apresenta algumas de suas criações e exposições. As imagens permanecem protegidas por direitos autorais, mas podem ser apreciadas ali pelo público. O próprio museu identifica as reproduções como © YAYOI KUSAMA.
Visite o Yayoi Kusama Museum e veja suas obras
https://yayoikusamamuseum.jp/en/home/
Ou visite seu Instgran: https://www.instagram.com/yayoi.kusama/
E seu site:
E talvez essa seja uma maneira mais bonita de apresentá-la.
Não retirar uma fotografia de seu contexto.
Convidar o leitor a entrar em seu mundo.
Três portas para conhecer ainda mais Yayoi Kusama
Em vez de reproduzir as fotografias das reportagens abaixo, proponho que o leitor visite as publicações originais. Além dos textos, elas permitem conhecer diferentes momentos da artista por meio das imagens selecionadas pelos próprios veículos.
1. Uma vida inteira contada por imagens
O The Guardian publicou uma galeria especialmente interessante após a morte da artista: Yayoi Kusama — a life in pictures.
Em português:
Yayoi Kusama — uma vida em imagens
A seleção atravessa diferentes épocas de sua vida e permite enxergar não apenas suas obras, mas a transformação daquela jovem japonesa na figura de cabelos vermelhos e estética inconfundível que o mundo aprenderia a reconhecer.
As fotografias permanecem na publicação original, acompanhadas de seus respectivos créditos.
Veja “Yayoi Kusama — uma vida em imagens” no The Guardian
2. Quando a arte se transforma em uma maneira de enfrentar o medo
Outra reportagem do The Guardian aborda uma dimensão fundamental desta homenagem.
O título original é:
“I fight pain and fear with art: how Yayoi Kusama blazed a trail for neurodivergent artists.”
Em tradução livre:
“Eu combato a dor e o medo com a arte”: como Yayoi Kusama abriu caminho para artistas neurodivergentes
A reportagem discute justamente sua abertura ao falar sobre saúde mental e como sua trajetória contribuiu para ampliar a maneira como enxergamos artistas que experimentam o mundo de formas diferentes.
Leia a reportagem no The Guardian
3. Conhecer a artista no momento de sua despedida
Também vale conhecer a grande reportagem biográfica publicada pelo The Guardian após sua morte.
Ela percorre a infância no Japão, a experiência em Nova York, os trabalhos de vanguarda, as performances, as instalações, sua produção literária, o retorno ao Japão e a extraordinária redescoberta internacional de sua obra.
É uma boa oportunidade para compreender que as famosas bolinhas são apenas a porta de entrada para uma produção muito mais extensa.
Leia a homenagem biográfica completa no The Guardian
E a reportagem brasileira?
Eu manteria aqui um espaço reservado para a reportagem do Jornal da Globo que você deseja utilizar. Nas buscas que fiz, não consegui confirmar com segurança qual matéria específica você tinha em mente. Prefiro deixar isso claro a colocar um link errado.
Se encontrarmos a reportagem correta, podemos inseri-la aqui e transformar esta seção em uma seleção com uma fonte brasileira e duas internacionais, como você imaginou originalmente.
Um ponto pode conter um universo
Quando olhamos retrospectivamente para 97 anos de vida, existe uma tentação de organizar tudo.

Mas vidas extraordinárias raramente obedecem a uma linha reta.
E talvez a de Kusama menos ainda.
Ela passou a vida falando sobre infinito.
Como colocar o infinito dentro de uma cronologia?
Sua obra nos leva justamente para outro lugar.
Um lugar em que um ponto se repete até deixar de ser apenas um ponto.
Um espelho reflete outro espelho até desaparecer qualquer ideia de limite.
Uma pequena abóbora pode transformar-se em escultura monumental.
Uma experiência absolutamente individual pode tornar-se compartilhada por milhões de pessoas.
Essa é uma das forças mais extraordinárias da arte.
A arte consegue retirar alguma coisa de dentro de um único ser humano e colocá-la diante do mundo.
Aquilo que era íntimo torna-se universal.
Aquilo que não podia ser explicado ganha forma.
Assim como aquilo que parecia estranho pode se transformar em beleza.
Aquilo que causava medo pode provocar encantamento.
E aquilo que parecia limitado pode apontar para o infinito.
A liberdade de criar
Talvez essa seja a maior homenagem que podemos prestar a Yayoi Kusama.
Não imitá-la.
E não transformar suas bolinhas em decoração.
Não reduzir uma trajetória extraordinariamente complexa a uma estética facilmente reconhecível.
Mas compreender aquilo que sua existência nos diz sobre a liberdade de criar.
Criar é permitir que exista aquilo que antes não existia.
É desafiar padrões.
Sem dúvida ela incomodou certezas.
É acima de tudo mostrou que duas pessoas podem olhar para a mesma realidade e enxergar universos completamente diferentes.
Kusama atravessou pintura, escultura, instalação, performance, literatura e poesia durante uma vida dedicada à criação. Seu museu oficial descreveu essa trajetória como uma existência inteira entregue à atividade artística e confirmou que ela permaneceu pintando até seus últimos dias.
Isso me parece uma despedida extraordinária.
Uma mulher diante de uma tela.
Um pincel.
Uma ideia.
Talvez mais um ponto.
Depois outro.
E outro.
Até que aquilo que começou como um pequeno gesto se transforme novamente em alguma coisa que parece não terminar.
Porque a arte possui essa estranha capacidade de sobreviver ao artista.
O corpo termina.
A criação permanece.
A pergunta permanece.
A inquietação permanece.
E a possibilidade de alguém, muitos anos depois, olhar para aquela obra e sentir alguma coisa também permanece.
Por isso, esta não é apenas uma homenagem à morte de Yayoi Kusama.
É uma homenagem à sua liberdade de existir criando.
E talvez ela tenha nos deixado uma última provocação: quantos mundos ainda existem dentro das pessoas simplesmente esperando que alguém tenha liberdade e coragem suficientes para criá-los?
Obrigada, Yayoi Kusama.
Você passou a vida repetindo pontos e acabou nos mostrando que não existem limites para aquilo que a arte pode alcançar.

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