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Fascinação, a música que abriu uma porta que Mirtes havia fechado

Naquela tarde, Mirtes não entrou sem bater.

Também não bateu.

Nem entrou.

Parou na janela.

Eu estava ao piano e não percebi sua chegada.

Isso, por si só, já demonstra o poder da música. Pouquíssimas coisas neste mundo conseguem fazer Mirtes chegar a algum lugar sem anunciar a própria presença.

Meus dedos caminhavam lentamente pelas teclas.

Era uma melodia antiga.

Daquelas que parecem conhecer nossas lembranças antes mesmo de nós.

Toquei os últimos acordes e deixei as mãos descansarem sobre o teclado.

Foi quando ouvi:

Eu amo essa música.

Quase caí do banco.

— JESUS, MIRTES!

Ela estava na janela, com os braços apoiados no parapeito.

— Que foi?

— Você enlouqueceu?

— Eu estava ouvindo.

— Pela janela?

— Não queria interromper.

Coloquei a mão no peito.

— Então decidiu me matar quando terminasse.

Ela não riu.

Foi aí que percebi.

Os olhos estavam marejados.

— Minha mãe adorava essa música, Zora.

Minha irritação desapareceu.

— Fascinação.

— É esse o nome?

— É.

Mirtes entrou.

Dessa vez pela porta.

Um acontecimento histórico.

Sentou-se perto do piano.

— Toca de novo?

Olhei para ela.

— Daqui a pouco.

— Por quê?

— Porque agora fiquei curiosa.

Ela sorriu.

— Finalmente consegui.

— Não abuse.

Passei a mão sobre o piano.

— Minha mãe tocava essa música para meu pai.

— Sua mãe tocava piano?

— Tocava.

— Igual você?

— Melhor.

— Toda filha acha isso.

— E toda vizinha acha que entende de tudo.

— Continua.

Quando eu era criança, às vezes brincava no chão da sala enquanto minha mãe tocava.

Meu pai ficava por perto.

Nem sempre falavam.

Na verdade, era justamente isso que me fascinava.

Ele olhava para ela.

Ela tocava.

De vez em quando, minha mãe levantava os olhos do piano e encontrava os dele.

E alguma coisa acontecia.

— Eles se beijavam? — Mirtes perguntou.

— Mirtes, eu tinha oito anos. Não estava catalogando preliminares.

— Estou tentando entender o romance.

— O romance estava justamente no fato de que não precisavam fazer nada.

Ela ficou quieta.

— A música era uma conversa entre eles.

— Sem palavras?

— Talvez as melhores conversas sejam.

Meu pai morreu cedo.

Minha mãe continuou vivendo.

Trabalhou. Sorriu. Fez comida. Brigou comigo. Pagou contas.

Recebeu gente em casa. Envelheceu.

Viveu.

Mas nunca deixou de amar aquele homem.

Às vezes eu a encontrava ao piano tocando determinadas músicas.

E sabia.

Meu pai estava naquela sala de algum jeito.

Não como fantasma.

Como memória, amor, acho que era parte dela.

Mirtes passou os dedos pela madeira do piano.

— Bonito isso.

— Foi.

— Lá em casa era diferente.

Esperei.

Muito diferente.

— Minha mãe também amava meu pai.

Mirtes respirou fundo.

— Só que ele batia nela.

Silêncio.

— E em mim também.

Não fiz nenhuma pergunta.

Ela continuou.

— Bebia muito. Qualquer coisa virava motivo. Comida. Dinheiro. Barulho. Ciúme. Às vezes nem precisava de motivo.

— Mirtes…

— Minha mãe era um doce, Zora. Um doce de mulher.

A voz começou a falhar.

— E defendia ele.

— Como?

— Não deixava ninguém falar mal. Dizia que ele tinha problemas. Que quando não bebia era diferente. Dizia também que tinha sofrido muito quando criança. Que no fundo era bom.

Ela olhou para mim.

— Minha mãe amava aquele homem mais do que sofria.

Balancei a cabeça.

— Não.

— Como não? Eu estava lá.

— Você estava. E justamente por isso talvez tenha aprendido a contar a história desse jeito.

Ela ficou séria.

— Minha mãe amava meu pai.

— Eu não disse que não amava.

— Então?

Amar alguém não torna aceitável aquilo que essa pessoa faz conosco.

Mirtes desviou os olhos.

— Ela perdoava.

— Era direito dela.

— Então…

— Mas ele bater nela continuava sendo violência.

Silêncio.

— Amor não transforma agressão em amor, Mirtes.

Ela engoliu em seco.

— Às vezes acho que ela acreditava que conseguiria salvá-lo.

— Muitas pessoas acreditam.

— E conseguiu?

Olhei para ela.

— Você está prestes a me contar que não.

Mirtes tinha dezesseis anos.

Moravam numa cidade pequena do interior.

Numa noite, o pai bebeu.

Mais do que de costume.

A discussão começou.

Virou grito.

O grito virou violência.

E a violência foi longe demais.

— Minha mãe morreu.

A frase saiu quase sem voz.

Aproximei minha cadeira.

Mirtes não chorou.

Talvez existam lembranças que já foram choradas tantas vezes por dentro que aprendem a sair secas.

— Depois disso eu só queria ir embora.

— E foi?

— Fugi.

— Com dezesseis anos?

— Dezesseis.

— Sozinha?

— Sozinha.

— Para São Paulo?

— Para São Paulo.

Olhei para aquela mulher que atravessava minha porta diariamente como se o mundo fosse propriedade coletiva.

De repente enxerguei a menina.

Dezesseis anos.

Uma mala.

Medo.

Luto.

Raiva.

E uma cidade gigantesca esperando por ela.

— Como conseguiu dinheiro?

Mirtes fez uma careta.

— Peguei umas joias da minha mãe.

— Pegou?

— Roubei.

— Eram de quem?

— Da minha mãe.

— E sua mãe tinha morrido.

— É.

— Então vamos deixar o tribunal para depois. Continue.

Ela vendeu algumas peças.

Pegou o dinheiro.

E veio.

São Paulo não a recebeu com flores.

São Paulo raramente recebe alguém com flores.

Primeiro pergunta quanto você tem no bolso.

Depois cobra aluguel.

Mirtes conseguiu emprego como balconista numa loja.

— Eu não sabia fazer nada.

— Sabia sobreviver.

— Isso eu sabia.

Trabalhava durante o dia.

Depois começou a estudar.

O dinheiro era curto.

Muito curto.

Até que alguém lhe falou de uma senhora que alugava quartos numa vila.

— Dona Maricota?

Mirtes sorriu.

— Dona Maricota.

— Sua mãe?

— Minha mãe.

— Mas você acabou de…

Parei.

Olhei para ela.

Dona Maricota não é sua mãe?

— Não de sangue.

Silêncio.

— Aquela mulher me alugou um quarto e acabou me dando uma vida.

Dona Maricota não tinha filhos.

Alugava quartos para complementar a renda.

Mirtes chegou assustada, desconfiada e praticamente sem ninguém no mundo.

Maricota deu-lhe uma chave.

Depois comida.

Em seguida uma bronca.

Um colo.

Depois endereço.

Depois família.

— Ela me adotou sem papel.

— As burocracias às vezes chegam atrasadas ao coração.

— Olha você ficando sentimental.

— Não espalha.

Mirtes sorriu.

— Hoje eu cuido dela.

— Eu sei.

— Porque ela cuidou de mim.

Então finalmente compreendi por que Mirtes sabia tanto sobre aquela vila.

Ela não tinha simplesmente se mudado para lá.

A vila a tinha acolhido.

— E seu pai?

A expressão dela mudou.

— Nunca mais soube.

— Sério, nunca?

— Nunca.

— E nunca quis saber?

— Não.

Fez uma pausa.

— Talvez.

Outra.

— Não sei.

Olhei para ela.

— Quer perguntar às cartas?

Mirtes me encarou.

— Você oferecendo tarô para mim?

— Não se acostume.

— Você sabe alguma coisa.

— Não sei.

— Zora.

— Mirtes.

— Eu sei que você é sensitiva.

— E eu sei que você é insistente.

— Essa pergunta teve algum fundamento.

Fui até minha mesa.

— Quer fazer?

Ela demorou.

— Quero.

Acendi uma vela.

Não porque precisasse dela para enxergar o futuro.

Mas porque alguns assuntos merecem que diminuamos a luz da sala e aumentemos a atenção.

Mirtes embaralhou.

Cortou.

Eu abri as cartas.

Observei.

Demorei.

— E então?

— O que vejo simbolicamente aqui é que ele pode estar vivo.

Mirtes empalideceu.

— Vivo?

— É a leitura que as cartas sugerem. Não uma confirmação factual.

— Meu Deus.

Continuei.

— Há uma ruptura muito grande depois da morte da sua mãe. Consequência. Punição. Um período de afastamento da vida anterior.

— Ele foi preso.

— Isso faria sentido com a leitura, mas não posso afirmar pelas cartas o que aconteceu juridicamente.

— Continue.

— Depois aparece outra vida. Outra união. Mudança de comportamento. Peso enorme do passado.

Mirtes estava imóvel.

— Ele se arrependeu?

— As cartas sugerem culpa e transformação. Arrependimento verdadeiro, Mirtes, só ele poderia dizer.

Ela respirou.

— Ele lembra de mim?

Olhei novamente.

— Eu diria que existe uma ausência feminina que ele carrega.

Mirtes levou a mão à boca.

— E tem mais alguma coisa.

— O quê?

— Aparece um homem mais jovem muito ligado a ele.

O rosto dela mudou.

— Meu irmão.

Levantei os olhos.

Você tem um irmão?

— Tinha.

— Tinha?

— Tenho.

— Mirtes!

— Eu tinha dezesseis. Ele tinha dois.

Fiquei sem palavras.

Isso acontece pouco.

Aproveitem.

— E você deixou seu irmão lá?

Ela começou a chorar.

— Eu era uma menina, Zora!

— è claro, eu sei.

— Eu tinha medo! Eu só queria fugir! Depois pensei em voltar muitas vezes. Pensei em procurar. Mas e se meu pai estivesse lá? E se ele me odiasse? E se meu irmão nem soubesse quem eu era?

Segurei suas mãos.

— Você tinha dezesseis anos.

— Abandonei meu irmão.

Você fugiu para sobreviver.

— Dá na mesma.

— Não dá.

Ela chorou.

— Não dá, Mirtes.

Depois de algum tempo, perguntou:

— Ele está bem?

Olhei para as cartas.

— A leitura sugere estabilidade.

— Ele sabe de mim?

— Não posso saber isso com certeza por um baralho.

— Mas o que você sente?

Suspirei.

— Sinto que essa história não acabou.

Ela levantou os olhos.

— Isso foi Zora taróloga ou Zora sensitiva?

— Foi Zora com acesso à internet.

— O quê?

Peguei meu celular.

— Qual era o nome do seu irmão?

Mirtes congelou.

— Não.

— Por quê?

— Tenho medo.

— De quê?

— De encontrar.

— Você passou décadas com medo de não encontrar e agora está com medo de encontrar?

— Exatamente.

— Finalmente uma coisa sua que faz sentido.

Ela riu nervosamente.

— E se ele não quiser falar comigo?

— Então você respeita.

— E se quiser?

— Você fala.

— E se ele perguntar por que fui embora?

— Você conta a verdade.

— E se ele me culpar?

— Você escuta.

— E se ele me abraçar?

Olhei para ela.

— Aí, Mirtes, tente não transformar o abraço em interrogatório.

Ela riu chorando.

Ficamos alguns minutos olhando para o celular.

Nenhuma das duas digitou nada.

Ainda.

— Amanhã — disse Mirtes.

— Amanhã.

— Você me ajuda?

— Ajudo.

— Promete?

— Prometo.

Ela levantou.

Foi até a porta.

Parou.

Olhou para o piano.

— Toca Fascinação de novo?

Sentei-me.

Comecei.

Mirtes ficou junto à janela.

Desta vez do lado de dentro.

Enquanto tocava, pensei na minha mãe olhando para meu pai.

Pensei na mãe de Mirtes tentando amar um homem que também a feriu.

Depois pensei em Dona Maricota abrindo uma porta para uma menina de dezesseis anos.

Pensei num menino de dois anos que ficou.

E numa mulher de quarenta e tantos que ainda não tinha encontrado coragem para procurá-lo.

Família.

Uma palavra tão pequena para carregar coisas tão diferentes.

Há famílias que nos dão sangue.

Outras famílias que nos dão medo.

Tem famílias que nos dão abrigo.

Há famílias que simplesmente escolhemos.

E existem famílias que o tempo separa, mas talvez não consiga terminar.

Quando toquei o último acorde, Mirtes não disse nada.

Só beijou minha cabeça.

E foi embora.

Sem fofoca.

Nenhuma pergunta.

Sem tarô.

Mas antes de fechar a porta, colocou apenas o rosto para dentro.

— Zora?

— O quê?

— Amanhã mesmo?

— Amanhã.

— Tá.

Fechou.

Eu permaneci ao piano.

Porque algumas histórias terminam quando chegamos ao ponto final.

Outras apenas esperam o próximo capítulo.

E alguma coisa me dizia que ainda ouviríamos falar muito da família de Mirtes.

A frase de Zora

“Família não é apenas de onde viemos. Às vezes é quem abre a porta quando precisamos fugir de onde viemos.”

O que essa história deixa

Amor e violência podem existir na mesma relação, mas isso jamais transforma violência em prova de amor. Perdoar é uma escolha; suportar agressões não deveria ser uma obrigação.

Mirtes descobriu muito cedo que sangue cria parentesco, mas cuidado também pode criar família. Dona Maricota não lhe deu a vida — ajudou-a a continuar vivendo.

E há histórias familiares que passamos anos evitando porque acreditamos que esquecer é a única maneira de sobreviver.

Talvez não seja.

Às vezes, quando finalmente estamos seguros, podemos olhar para trás não para voltar ao passado, mas para descobrir se alguém que amamos ainda está esperando do outro lado.

Amanhã, Zora e Mirtes vão procurar um nome. E tenho a impressão de que essa história está apenas começando.