Mirtes bateu na porta.
Eu soube que alguma coisa estava errada.
Mirtes não bate.
Mirtes entra.
Às vezes entra falando. Algumas vezes entra falando tão alto que tenho a impressão de que a voz dela chega antes e abre a porta.
Naquela tarde, porém, foram três batidinhas.
Fracas.
— Zora?
Reconheci a voz, mas não reconheci Mirtes.
Levantei-me.
Quando abri a porta, ela estava ali. Jeans, camiseta, o mesmo cabelo preto cortado naquele chanel que parece nunca sair do lugar.
Mas havia alguma coisa fora do lugar nela inteira.
Os olhos estavam inchados.
— Minha vó morreu.
Não respondi imediatamente.
Existem momentos em que até uma mulher que fala demais precisa saber calar.
Apenas abri os braços. Mirtes entrou neles. E chorou.
Chorou daquele jeito que não tem nenhuma elegância. Molhou meu vestido, borrou o rosto, fungou, tentou falar, desistiu e chorou novamente.
Ainda bem.
Há dores que ficam piores quando tentamos deixá-las apresentáveis.
Levei-a até a mesa.
Coloquei água para esquentar.
— Não quero chá.
— Não perguntei.
— Quero café.
— Então deveria ter morrido uma vizinha. Para avó, aqui em casa, é chá.
Ela riu no meio do choro.
Foi um risinho minúsculo.
Mas estava lá.
Preparei o chá.
— Está doendo muito, Zora.
— Eu sei.
— Não sabe.
Olhei para ela.
— Tem razão.
Mirtes pareceu surpresa.
— Você não vai dizer que sabe o que estou sentindo?
— Não. A dor é sua. Posso conhecer a morte. Posso conhecer o luto. Mas não conheço exatamente o buraco que sua avó deixou em você.
Ela apertou a xícara com as duas mãos.
— Ela não era só minha vó.
E começou a contar.
Quando a mãe saía cedo para trabalhar, era a avó quem acordava Mirtes.
Era ela quem penteava seus cabelos.
Era aquela senhora quem fazia comida.
Quem brigava.
Quem defendia.
Era minha vó quem escondia dinheiro dentro da mochila quando Mirtes dizia que não precisava.
– Minha vó sabia quando eu estava mentindo.
Quem sabia quando estava apaixonada.
Quem dizia que todos os namorados eram maravilhosos nos primeiros quinze dias e começava a encontrar defeitos no décimo sexto.
— Ela criou você.
— Criou.
— Então você não perdeu apenas uma avó.
Mirtes começou a chorar novamente.
— Perdi uma mãe.
Dessa vez fui eu quem segurou a mão dela.
Depois de algum tempo, seus olhos encontraram meu baralho.
Eu já sabia.
— Zora…
— Não.
— Você nem sabe o que vou perguntar!
— Sei.
— Sensitiva.
— Previsível.
Ela apontou para as cartas.
— Tira uma para minha vó.
— Para quê?
— Quero saber se ela está bem.
Silêncio.
— Zora, por favor.
Olhei para o baralho.
Depois para Mirtes.
— Posso tirar uma carta para você.
— Eu não quero saber de mim.
— Hoje deveria.
— Quero saber dela.
— E aí está uma das coisas mais difíceis da morte, Mirtes.
— O quê?
— Quem fica quer notícias.
Ela abaixou a cabeça.
— E você não consegue?
— Eu posso interpretar símbolos. Posso falar daquilo em que acredito. Posso rezar com você. Posso conversar sobre espiritualidade durante a noite inteira. Mas não vou usar sua dor para fingir uma certeza que eu não tenho.
Ela ficou quieta.
— Então você não sabe se ela está bem?
— Não sei. Eu creio. E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
Mirtes levantou os olhos.
— No que você acredita?
Pronto.
Era uma pergunta pequena com o tamanho do universo.
— Em muitas coisas.
— Isso pode?
— Deus não me pediu exclusividade de raciocínio.
Ela quase sorriu.
— Fala sério, Zora.
— Estou falando.
Puxei minha cadeira para perto.
— Do espiritismo de Kardec, gosto muito da ideia de que a morte não destrói o espírito. O corpo termina, mas a consciência continuaria sua caminhada. E a reencarnação seria parte desse aprendizado.
— Então minha vó pode voltar?
— Dentro dessa crença, o espírito continua seu caminho e pode reencarnar. Mas cuidado para não transformar isso numa conta simples. “Morreu aqui, nasce ali.” O mistério é maior que nossa ansiedade.
— E você acredita nisso?
— Acredito que a vida seja maior do que o intervalo entre um nascimento e uma morte.
— Isso diminui a dor?
Pensei.
— Não.
Ela pareceu decepcionada.
— Então para que serve?
— Para dar horizonte à dor. Não para apagá-la.
Mirtes ficou olhando o vapor do chá.
— E no candomblé?
— A relação com a morte tem outras profundidades. Há ancestralidade. Há continuidade. Há respeito aos que vieram antes. A pessoa não precisa simplesmente desaparecer da história porque deixou o corpo.
— Vira ancestral?
— Não vou simplificar tradições enormes numa frase de cozinha, Mirtes. Existem diferenças entre nações, casas, fundamentos e ritos. Mas posso lhe dizer algo que aprendi e que me toca profundamente: nós não começamos em nós mesmos.
— Como assim?
— Você acha que esse seu jeito de alimentar todo mundo veio de onde?
— Da minha vó.
— E o jeito de chamar todo mundo de “meu filho”?
— Ela fazia isso.
— E essa mania insuportável de querer saber da vida dos outros?
Mirtes me olhou indignada.
— Zora!
— Estou tentando identificar a ancestralidade.
Ela riu.
Dessa vez riu de verdade.
Depois chorou novamente.
As duas coisas cabiam juntas.
— E os indígenas? — perguntou.
— “Os indígenas” não existem desse jeito.
— Como não?
— Existem centenas de povos, línguas, cosmologias e maneiras diferentes de compreender vida, morte, espírito, território e ancestralidade. Quando colocamos tudo num saco chamado “crença indígena”, apagamos justamente aquilo que deveríamos respeitar.
— Você sempre complica minhas perguntas.
— Eu devolvo a complexidade que você tentou tirar delas.
Ela fez uma careta.
Continuei:
— Em diferentes povos originários, existem concepções próprias sobre os mortos, os ancestrais, os sonhos, a natureza e a continuidade da existência. Não há uma única doutrina indígena sobre o que acontece depois da morte.
— Mas tem alguma coisa que você aprendeu com eles?
— Muitas. Uma delas é que talvez nossa mania de separar tudo seja muito nossa. Pessoa aqui. Natureza ali. Vivo aqui. Morto ali. Espiritual de um lado. Material do outro. Existem cosmologias em que essas fronteiras não funcionam exatamente como nós imaginamos.
Mirtes pensou.
— Então minha vó pode estar perto?
— Você está tentando me fazer assinar um comprovante de entrega do além.
— Zora!
— Eu disse que não sei.
— Mas acredita?
Olhei para ela.
— Acredito que relações profundas deixam presenças profundas.
Ela ficou quieta por bastante tempo.
Depois veio a pergunta mais difícil.
— Você tem medo de morrer?
Respirei.
— Tenho.
— Você?
— Claro.
— Mas você acredita em reencarnação, ancestralidade, espírito…
— Fé não é anestesia, Mirtes.
Ela me encarou.
— Explica.
— Acreditar que existe alguma coisa depois não significa que eu queira ir descobrir hoje.
Ela soltou uma gargalhada.
— Zora!
— Estou falando sério. Eu gosto daqui. Gosto do café, dos vestidos, das minhas cartas, da minha casa…
Olhei para ela.
— De algumas vizinhas.
— Algumas?
— Não abuse do luto.
Ela sorriu.
Depois ficou séria.
— Então uma pessoa espiritualizada também sofre quando alguém morre?
— É claro.
— Mas não deveria entender melhor?
— Entender não impede amar.
E acrescentei:
— Talvez seja justamente o contrário. Se alguém foi importante, sua ausência precisa encontrar um lugar dentro de nós. Fé não significa não chorar. Fé pode ser simplesmente conseguir chorar sem acreditar que o amor foi inútil.
Mirtes olhou novamente para as cartas.
— Tira uma para mim então.
Peguei o baralho.
Embaralhei.
Ela fechou os olhos.
— Posso fazer uma pergunta?
— Pode.
— Como eu vou viver sem ela?
Dessa vez não brinquei.
Pedi que cortasse o baralho.
Ela cortou.
Virei uma carta.
Mas antes que Mirtes perguntasse o significado, coloquei minha mão sobre ela.
— Independentemente desta carta, existe uma coisa que preciso lhe dizer.
— O quê?
— Você não vai viver sem ela da maneira que está imaginando.
— Como assim?
— Sua avó está em uma quantidade absurda de coisas que você faz.
Mirtes chorou.
— Quando você cozinha aquela comida dela, alguma coisa continua.
— Quando repete uma expressão dela, alguma coisa continua.
— Quando protege alguém como ela protegia você, alguma coisa continua.
— Quando conta uma história dela e alguém que nunca a conheceu consegue imaginá-la, alguma coisa continua.
— Isso é espírito?
— Talvez.
— É ancestralidade?
— Também.
— É memória?
— Com certeza.
— Qual dos três é?
Sorri.
— Precisa escolher?
A tarde caiu devagar sobre a vila.
Do lado de fora, alguém chamou uma criança.
Uma panela bateu numa cozinha.
O cachorro da casa amarela começou uma discussão particular com uma motocicleta.
A vida continuava cometendo aquela indelicadeza terrível:
continuava.
— Zora…
— Hum?
— Eu estou com raiva.
— Da sua avó?
— Da morte.
— Justo.
— Parece tão injusto.
— Às vezes é.
— Você não vai dizer que tudo acontece por uma razão?
— Deus me livre.
Ela arregalou os olhos.
— Você não acredita nisso?
— Acredito que podemos encontrar sentido em muitas coisas. É diferente de dizer para alguém que acabou de perder quem ama que havia uma “razão”. Algumas frases espirituais são cruéis quando usadas na hora errada.
— Tipo?
— “Foi melhor assim.” “Deus quis.” “Era a hora.” “Não chore.” “Ela está num lugar melhor.”
Mirtes fez silêncio.
— Disseram tudo isso para mim hoje.
— Eu sei.
— E o que deveriam ter dito?
Apertei sua mão.
— Sinto muito. Estou aqui.
Ela começou a chorar novamente.
E eu deixei.
Já estava escuro quando Mirtes se levantou.
Na porta, virou-se.
— Zora?
— Sim?
— Se existir outra vida, você acha que minha vó vai me reconhecer?
Engoli em seco.
Existem perguntas para as quais até minha língua perde a arrogância.
— Não sei, Mirtes.
Ela abaixou os olhos.
— Mas vou lhe dizer no que eu gosto de acreditar.
Ela esperou.
— Que um amor grande demais para caber numa vida talvez também seja grande demais para desaparecer com ela.
Mirtes sorriu chorando.
E foi embora.
Dessa vez fechou a porta devagar.
Fiquei sozinha na sala.
As velas tremiam.
Meu baralho continuava sobre a mesa.
E pensei naquilo que tantas religiões, filosofias, povos e seres humanos tentaram compreender desde que o primeiro de nós olhou para alguém que amava e percebeu que aquele corpo não respirava mais.
Talvez ninguém tenha conseguido responder completamente.
Talvez seja justamente por isso que continuamos perguntando.
Acendi uma vela.
Não para chamar espírito algum.
Não para obter resposta.
Apenas para lembrar uma mulher que eu sequer conheci, mas que havia criado aquela vizinha inconveniente que eu aprendera a amar.
E naquele instante compreendi uma coisa:
talvez a morte consiga interromper uma presença.
Mas ela enfrenta uma dificuldade enorme quando tenta acabar com uma história.
A frase de Zora
“Fé não é acreditar que a morte não dói. É desconfiar que nem a morte consegue dar conta de acabar com um grande amor.”
O que essa história deixa
Cada tradição espiritual procura compreender a morte com sua própria linguagem, seus ritos e seus mistérios. Nenhuma delas precisa ser usada para mandar alguém parar de sofrer.
O luto não é falta de fé.
Às vezes, é justamente o tamanho do amor procurando aprender a existir de outra maneira.
E talvez, diante da morte, não precisemos ter todas as respostas.
Às vezes basta sentar ao lado de quem ficou, segurar sua mão e dizer:
“Eu não sei o que existe depois. Mas sei que você não precisa atravessar isso sozinho.”
