
Mirtes entrou na minha casa sem bater.
Isso nunca é um bom sinal.
Quando Mirtes bate, é visita. Quando entra direto, é fofoca.
— Zora! Zora! Você soube do Betinho?
Eu estava tomando café.
— Qual Betinho?
— O filho do seu Agenor! Ele colocou o menino para fora de casa!
Pousei a xícara.
A fofoca tinha acabado.
— Por quê?
Mirtes se aproximou e baixou a voz, embora estivéssemos sozinhas.
— Porque descobriu que o Betinho é… Bi.
Fez uma pausa dramática.
— Bi o quê?
— É justamente isso que eu vim perguntar! Você que entende dessas coisas.
— Dessas coisas quais?
— Dessas coisas… diferentes.
Olhei para ela.
— Mirtes, eu leio tarô. Não sou catálogo de sexualidade.
— Mas você é sensitiva.
— E você é fofoqueira. Nenhuma das duas coisas substitui informação.
Ela ignorou.
— Eu sempre achei aquele menino meio estranho.
Pronto.
A tragédia humana normalmente começa depois dessa frase.
— Estranho como?
— Ah, Zora… aquele cabelo lindo, sempre tratado. Vivia na academia. Um corpão. Roupa sempre impecável. Calça agarradinha. Saía para dançar. Estudava demais…
— Terrível.
— Eu sabia que você ia entender.
— Estou falando de você, Mirtes.
Ela fez cara de ofendida.
— Mas pensa comigo! Ele estava sempre rodeado de garotas e garotos. Nunca namorava ninguém. Dizia que só ficava e que estava esperando encontrar a pessoa certa.
— E?
— Isso é coisa de homem?
Respirei.
Mirtes havia conseguido condensar uns duzentos anos de preconceito em aproximadamente quarenta segundos.
— Depende.
— Depende do quê?
— Do homem.
— Zora!
— Você perguntou.
Ela sentou-se.
— O pai dele também dizia. Gritava que o menino se arrumava demais, dançava demais, estudava demais…
— Estudava demais?
— Foi o que disseram.
— Essa é nova. Já conhecia expulsão por orientação sexual. Por excesso de estudo é a primeira.
Mirtes segurou o riso.
— Não brinca. O negócio foi feio.
— Justamente por isso estou brincando com o absurdo, não com Betinho.
Ela ficou quieta.
— Mas Zora… fala logo. Bi é o quê?
— Bissexual.
— Que significa?
— Que uma pessoa pode sentir atração afetiva ou sexual por mais de um gênero.
Mirtes arregalou os olhos.
— Então ele gosta de homem e de mulher?
— Pode gostar.
— Ao mesmo tempo?
— Mirtes, você gosta de pudim e de brigadeiro?
— Adoro os dois.
— Come os dois ao mesmo tempo?
— Claro que não.
— Resolvido.
Ela ficou alguns segundos olhando para mim.
— Mas ele vai ter que escolher.
— Escolher o quê?
— Se gosta de homem ou de mulher.
— Não.
— Como não?
— Porque bissexualidade não é uma sala de espera onde a pessoa fica até decidir em qual porta entrar.
Mirtes franziu a testa.
— Então se ele namorar uma mulher continua sendo bi?
— Sim.
— E se casar com um homem?
— Também.
— Mas aí ninguém vai saber.
— Ele vai.
— Complicado.
— Só fica complicado quando todo mundo resolve cuidar da sexualidade alheia.
Mirtes se remexeu na cadeira.
— Mas o pai dele disse que homem que é homem pega geral.
Olhei para ela.
— E depois reclamou que o filho ficava com muita gente?
Mirtes parou.
— É.
— Interessante.
— O quê?
— O regulamento.
— Que regulamento?
— O manual secreto da masculinidade. Estou tentando entender. Homem precisa pegar geral, mas dependendo de quem ele pega deixa de ser homem. Precisa cuidar do corpo, mas não pode cuidar demais. Precisa ser bem-sucedido, mas se estudar demais fica suspeito. Precisa se vestir bem, mas não pode se arrumar muito. Pode dançar, mas existe uma quantidade máxima de dança permitida.
Mirtes começou a rir.
— Para, Zora.
— Estou tentando aprender. Quantos minutos de dança um homem pode fazer antes de a masculinidade vencer?
— Você é impossível.
— Não. Impossível é ser homem seguindo esse regulamento.
Ela parou de rir.
E então veio aquilo que realmente importava.
— Mas o pai colocou mesmo o menino para fora, Zora.
Peguei minha xícara novamente.
O café estava frio.
— E onde ele está?
— Parece que na casa de um amigo.
— Tem dinheiro?
— Não sei.
— Está trabalhando?
— Acho que faz estágio.
— Está seguro?
— Também não sei.
— Então descobrimos uma coisa muito interessante sobre a nossa conversa.
— O quê?
— Você sabe com quem Betinho fica, como ele dança, como veste a calça, como penteia o cabelo e quantas vezes vai à academia. Mas não sabe se ele tem onde dormir hoje.
Mirtes baixou os olhos.
Silêncio.
É curioso como algumas fofocas ficam muito feias quando colocamos humanidade dentro delas.
— Nossa, Zora…
— Pois é.
— Será que eu fui preconceituosa?
— Foi.
— Assim, na lata?
— Você veio procurar Zoraide. Se quisesse mentira, tinha batido em outra porta.
Ela fez aquela cara de quem queria discutir, mas já sabia que perderia.
— Mas eu não tenho nada contra.
— Essa frase costuma chegar exatamente cinco segundos depois do preconceito.
— Eu só não entendia.
— Isso eu acredito. Não saber não é crime, Mirtes. O problema começa quando a gente transforma aquilo que não conhece em defeito do outro.
Ela ficou pensativa.
Depois olhou para a mesa.
— Você não vai tirar uma carta?
— Para quê?
— Para saber o futuro do Betinho.
Peguei o baralho.
Mirtes abriu um sorriso triunfante.
Embaralhei lentamente.
Ela se inclinou sobre a mesa.
— Vai sair o quê?
Coloquei o baralho de lado.
— Nenhuma.
— Zora!
— O futuro dele não depende de uma carta hoje.
— Depende do quê?
— De encontrar pessoas que não façam da identidade dele um julgamento. De conseguir estudar. Trabalhar. Ter segurança. Encontrar alguém quando quiser encontrar. E, principalmente, de entender que ser expulso da casa do pai não significa ter sido expulso da própria vida.
Mirtes ficou calada.
Levantei-me.
— Aonde você vai?
— Procurar uma vasilha.
— Para quê?
— Você vai levar comida para o Betinho.
— Eu?
— Você.
— Mas eu nem conheço direito o menino!
— Melhor ainda. Começa conhecendo.
— E eu vou falar o quê?
Entreguei a vasilha para ela.
— Nada sobre o cabelo, a academia, a calça, a dança ou quem ele beija.
— E falo sobre o quê?
— Pergunta se ele está bem.
Mirtes pegou a vasilha.
Foi até a porta, mas voltou.
— Zora?
— O quê?
— E se um dia ele encontrar a pessoa certa?
Sorri.
— Espero que seja alguém que esteja mais interessado no coração dele do que no manual do pai.
Ela abriu a porta.
— Você sabe que eu continuo achando que você lê as pessoas sem precisar das cartas.
— E eu continuo achando que você deveria bater antes de entrar.
— Amanhã eu bato.
— Mentira.
— É. Mentira.
E foi embora.
Fiquei olhando para o meu baralho sobre a mesa.
Naquele dia, o tarô realmente não precisava dizer nada.
Porque há perguntas que pertencem aos oráculos.
E há outras cuja resposta a humanidade já deveria ter aprendido há muito tempo:
um filho não deixa de ser filho porque ama diferente do que seus pais imaginaram.
E homem nenhum precisa provar que é homem.
Precisa apenas ter coragem para ser quem é.
O resto, minha gente, é fofoca.
E para isso já temos a Mirtes.
A frase de Zora
“Estranho não é Betinho amar homens e mulheres. Estranho é alguém amar o próprio filho até descobrir quem ele ama.”
O que essa história deixa
Talvez o problema nunca tenha sido Betinho ser bissexual, usar calça apertada, cuidar do cabelo, dançar ou esperar pela pessoa certa.
O problema foi todo mundo acreditar que existia um jeito correto de ele ser homem.
Preconceito muitas vezes começa assim: transformamos aquilo que não conhecemos em algo errado. E, quando percebemos, estamos julgando a vida de alguém que só estava tentando viver a própria verdade.
Antes de perguntar quem alguém ama,
talvez devêssemos perguntar se essa pessoa está sendo amada.

