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O diálogo

Um texto livre, livre mesmo, um sentimento de perda, de falta, de dúvida!

Escrito em 06.03.2024.

No labirinto de sua mente tumultuada, Luiza se viu diante de um dilema que parecia dilacerar sua alma.

A perda de um aluno, uma pessoa querida e potente que sucumbiu às vicissitudes da mente, desencadeou uma série de questionamentos e reflexões profundas em seu ser. 

Luiza, como professora, se achava muito dedicada, na maior parte do tempo pelo menos, e de certa forma apegada aos alunos, ou à validação destes quem sabe. 

Alguns mais, outros menos, confessava em seu íntimo. Esse, em especial, era um desses, de mais apego, mais afeto e mais ressonância. 

A conversa, digo, o diálogo, – porque, sim, tinha diferenças importantes para ela no contexto em questão – começou da seguinte maneira:

  • Por que alguns seres parecem sofrer mais que outros diante das intempéries da vida? 
  • Por que alguns dão ‘mais conta’ do que outros das coisas que lhe acontecem? 

As palavras utilizadas “… parecem sofrer…” foram utilizadas, pois ela não queria cair no lugar-comum das certezas da vida, além de deixar nítido para ela mesma, que se tratava de uma percepção dela, no tal de diálogo, e não uma verdade. 

Falando nela, verdade seja dita, ficou horas e dias refletindo após o ocorrido sobre a tal pergunta: 

Por que alguns seres parecem sofrer mais que outros diante das intempéries da vida? Por que alguns dão ‘mais conta’ do que outros das coisas que lhe acontecem? 

Talvez seja uma questão antiga, e até ancestral, que tem sido exaustivamente estudada pelas escolas de Filosofia e Psicologia – respondeu ele.  

Sim, mas também me parece que as respostas são tão variadas quanto vagas nesse sentido, porque se temos as respostas, não temos a solução – continuou divagando Luiza. 

Ao dizer isso, sentiu o peso do diálogo interno com o seu ego avariado. Então, o diálogo tornou-se melancólico e hermético entre ego e outra estrutura psíquica de Luiza.

– Algumas pessoas, parecem sentir demais, não acha? – perguntou em uma tentativa de compreender o que havia acontecido.   

– Sim, existe em alguns seres uma sensibilidade exagerada, na minha percepção – respondeu o ego em tom acusatório.

– E isso é ruim ou bom? 

– Não sei responder, só acho que é exagerada – já com o julgamento em punho, que lhe é peculiar.

– Pois eu não acho. Ter sensibilidade nesse mundo contemporâneo me parece um talento, ou uma dádiva. 

– Sim, mas causa um sofrimento a mais, ou não é sobre isso que estamos falando?  

Nesse sentido, acredito que não era sobre isso que estava falando, mas permitiu um silêncio na divergência de ideias, para tentar compreender, que algumas partes de si pensavam na sensibilidade como um tormento e outra parte como uma graça. 

Mas a realidade tem que ser soberana, e a perda recente retomava seu lugar naquele coração atormentado. Essa cisão, divisão, estava presente em quase todas as reflexões, que sempre eram muitas, e até lhe cansavam.

– Mas me diz uma coisa – desafiava ela o seu próprio ego. A vida é uma sequência de acontecimentos desde o nascimento até a morte, não é?

– Sim. 

– E os seres que decidem viver nesse planeta de alguma maneira escolhem estar aqui certo?

– Essa é minha crença atual – dizia, cheio de certeza, o ego

Não tinha convicção nenhuma, na verdade, confidenciava em seu íntimo, mas na cadência dos acontecimentos, parecia essa ser uma verdade sensata, coerente e até consoladora para o momento em questão. Foi catapultada desse pensamento, por nova intervenção, que pareceu pegar o ego de surpresa.

– Sendo assim, me parece mais prudente deixar as pessoas quietas com seus acontecimentos, experiências e escolhas, sejam elas quais forem.

– Isso não é possível – bradou o ego inconformado – como posso exercer todo o meu narciso de onipotência para querer cuidar do outro, para dizer o que é melhor o outro fazer da vida dele?

– Mas ora, isso não é um problema meu, é um problema seu.

– Estou diante de outro dilema, então. O que importa não é como as pessoas sentem a sua sensibilidade exagerada ou não. 

– Então qual é o problema? 

– É ter que nos encontrar com nossa insuficiência e impotência diante do Universo do outro, que é só dele – respondeu o ego, já quase que derrotado. 

– Sim, pouco importa como ele se sente, ou importa somente a ele!

Nesse momento, um choro incontrolado se instalou e as lágrimas rolaram, nada dramático, quase que taciturno, eu diria que foi o encontro com a verdade de que nada poderia ter sido feito, por mais egóicas que sejam essas ‘culpas’ que nos assolam, dia e noite, quando algo não sai como esperamos, ou desejamos. 

– Egoísta – disse o ego. 

– Não fale assim.

– Egoísta, sim, essa é sua sombra – afirmou ele novamente.

– Não mais uma sombra, meu caro. 

– Ainda assim, egoísta – disse o ego com mais ternura.

Aceitando aquela descoberta, permaneceu em silêncio interno por mais um dia, identificou isso como a elaboração do luto, pelo amigo? Também. Mas o luto pela idealização de uma pessoa que só existe em seus pensamentos, que sofre querendo mudar o mundo com suas aulas e práticas, mas que, no fundo, almeja uma mudança interna, um controle desse ego e dos apegos da vida terrena. Pensando assim, parece ser extremamente simples, mas trata-se de complexidade pura.

– Ficou chateada com isso? 

– Levou para o pessoal? Imatura. 

– Porque o silêncio, fale comigo! – disse o ego numa tentativa de bravura.  

– Não, pelo contrário, consegui me olhar mais um pouco, mais profundo e toda essa situação me fez pensar na finitude como um processo, que cada um tem o seu. Não levei para o pessoal não – disse ela, na mais pura verdade. 

Silêncio.

– Onde está? Não tem nada mais para me dizer? – insistiu ela. 

Silêncio. 

E, então, percebeu que o diálogo com o ego – sobre esse assunto – havia terminado, sua dor deu lugar a um sentimento de gratidão pelos encontros maravilhosos e profícuos com o amigo e olhando as fotos e mensagens antigas desejou que ele estivesse em um lugar melhor – acreditando ou não nessa possibilidade – desejou isso fortemente. 

Esse desejo veio de uma compreensão de que, à revelia de tudo, o processo era dele e que não tinha direito nenhum sobre isso, sobre suas escolhas, em cessar esse sofrimento. Sentiu paz em seu coração, apesar da falta e da saudade que sabia, ficariam por um bocado mais de tempo. 

Sou Luiza Castro, uma canceriana em constante evolução, enfermeira apaixonada e incansável estudiosa da complexidade da saúde mental humana. Com um doutorado em ciências da saúde e especialização em saúde mental, meu propósito vai além da simples troca de conhecimento: anseio ser uma força transformadora através da escrita. Minhas palavras são profundamente inspiradas por minha própria experiência e jornada, pois acredito que a verdadeira mágica reside nelas — capazes de curar, inspirar e conectar. Em cada texto, busco catalisar mudanças profundas, guiando aqueles que cruzam meu caminho em uma jornada de autodescoberta e empoderamento. Estou comprometida em criar um espaço acolhedor, onde a saúde mental não é apenas uma discussão, mas uma vivência poderosa que nos une e nos fortalece. Por meio da minha escrita, transformo histórias individuais em trilhas de esperança e renovação, pois sei que juntos podemos construir um futuro mais saudável e consciente.