Skip to content

Na terra do gelo reinam os vulcões

Aventuras de uma família que saiu do verão quente de Nova York para o país das sagas Vikings

Eu estava fazendo a mala para embarcar para Reykjavik, capital da Islândia, quando minha anfitriã me ligou de lá. 

Eu embarcaria no dia seguinte, 4 de Agosto, auge das férias de verão no hemisfério norte, numa viagem planejada há muito tempo. 

Achei estranho, pois estávamos nos comunicando por mensagens há semanas e a ligação ao vivo podia significar uma mudança de planos da parte dela, que cederia seu apartamento para nós em troca de uma estadia no Brasil no próximo verão.

“- Alô, Inês! It’s Svava. Olhe, tenho uma coisa a te dizer, mas quero que você fique calma.”

Depois dessa frase de sopetão eu já comecei a pensar que teria que desfazer minha mala e guardar tudo no armário outra vez.

“O que aconteceu?”

“- Ontem um vulcão entrou em erupção aqui. Tivemos também alguns pequenos tremores de terra nos últimos dias. Eu senti bastante os tremores e até acordei ontem de madrugada com um meio forte.”

Rapidamente pensei: num país desenvolvido feito a Islândia, e tão propenso a tremores e com tantos vulcões ativos, tenho certeza de que as construções são superseguras, o prédio não vai cair de jeito nenhum. Eu, viajante acostumada a aventuras e imprevistos, nem fiquei tão apreensiva ou assustada. Mas Svava continuou:

“- Não há motivo para ficar alarmada, só quero que vocês estejam preparados. Os cientistas estão monitorando a gravidade da erupção e nas próximas horas dirão se as viagens têm que ser interrompidas ou não. Fique de olho.”

Website de Notícias

Ela me passou um website de notícias islandesas em inglês para que eu monitorasse tudo de casa. Eu agradeci e desligamos. Meu voo seria dali a 24 horas. 

Será que eu e minha família teríamos que cancelar tudo e passar o resto do mês de agosto no calorão úmido e insuportável de Nova York? 

Será que a erupção seria catastrófica como a do vulcão Eyjafjallajokull em 2010, que cuspiu nuvens de cinza para a atmosfera, cancelando mais de cem mil voos entre a Europa e os Estados Unidos por vários dias?

Olhei para minha mala: jaquetas North Face impermeáveis que usamos no início do inverno aqui em Nova York. Calças compridas para longas caminhadas, meias quentes, botas de trekking. Lá fora, na rua, uns 36 graus. 

No verão islandês da semana seguinte, a temperatura não passaria de 11 graus Celsius. 

Portanto, primeira dica, principalmente para os brasileiros mais friorentos: se você não gosta de frio e vento na cara, não vá à Islândia. Por ser uma ilha perto do Ártico, o tempo varia muito e, num dia, a gente pode enfrentar chuviscos, sol e ventania, ou tempo nublado e queda de temperatura. E, eventualmente, uma erupçãozinha vulcânica para deixar a vida mais emocionante.

O veredito

Felizmente, naquela noite, o veredito sobre a erupção do vulcão Fagradalsfjall, na região de Reykjanes, mais ou menos entre o Aeroporto Keflavik e a capital, Reykjavik, era de que não seria grave e os voos e visitas à área não seriam interrompidos. 

Sem pensar duas vezes, embarcamos todos no dia seguinte para nossa primeira aventura islandesa.

A ideia seria fazer algumas viagens curtas desde Reykjavik nos primeiros dias, explorando o que é comumente chamado de “Golden Circle” – o círculo dourado. 

São vários parques nacionais com paisagens que vão de cachoeiras enormes, a cânions, gêiseres e trilhas. E, claro, com direito a um longo banho na famosa Lagoa Azul, uma piscina enorme de água vulcânica quente, o principal cartão postal turístico da Islândia. Dá para ir e voltar de Reykjavik no mesmo dia e para isso o apartamento de Svava, no centro, pertinho da avenida que beira o mar e da famosa escultura Sun Voyager (Jón Gunnar Árnason), seria perfeito. 

Planejávamos também dirigir na direção norte no primeiro dia e explorar trilhas em Akranes. Porém, mal chegamos e a erupção falou mais alto. 

Estamos aqui

Dos milhares de turistas que chegam à Islândia durante o verão no hemisfério norte, a grande maioria passa por Reykjaik. 

A cidade é segura, tranquila, cheia de cafés e com ciclovias por todos os lados. Uma coisa curiosa que notamos desde o primeiro dia: a ausência de pessoas passeando cachorros pelas ruas, coisa que existe em abundância em qualquer cidade do mundo. 

Descobrimos que os cachorros de estimação foram banidos totalmente na Islândia em 1924, por causa da proliferação de doenças encontradas nos cães que viviam pelas ruas. Hoje em dia não existe mais a proibição, mas para se ter um cachorro em casa deve-se seguir um protocolo de saúde bem rigoroso e ter a aprovação dos vizinhos. Por isso os pets parecem raros.

Acompanhando as erupções

Depois de passear pela cidade, sentindo a falta dos nossos amados cães e gatos pelas ruas, resolvemos acompanhar a boa porcentagem de turistas que resolveu conferir a erupção de perto naqueles dias. 

Basta dirigir até a entrada da trilha que dá acesso às proximidades da cratera (uns 40 minutos da capital), caminhar por mais ou menos 4 horas ida e volta, e conferir o espetáculo único. 

Afinal, quando é que você vai estar lá, do outro lado do mundo, quando um vulcão entra em erupção ali na sua frente? Claro que lá fomos nós, trocando a viagem para Akranes, no norte, por um fogaréu épico. 

A atividade vulcânica é uma parte fundamental da geografia islandesa. Por todas as estradas existem terrenos originários de lavas (e, claro, muitos vulcões a visitar), às vezes dando a impressão de que estamos em outro planeta. 

No verão, a terra vulcânica escura fica coberta de um musgo uniforme e bem verdinho, parece uma paisagem de veludo. Depois de dirigir por 40 minutos e acompanhar as hordas de visitantes que caminhavam, como nós, no terreno cheio de pedras e neblina da trilha, chegamos finalmente ao momento mais surpreendente. 

A cada pico na trilha a gente imagina que vai ver o vulcão em erupção, mas vemos só lava e fumaça. Mas de repente, ele surge, cuspindo fogo para o céu e a gente vê tão de perto que é difícil de acreditar. 

A coisa que mais impressiona é o barulho alto de explosão e o rio de lava gigantesco que vai se formando e escorrendo ao redor. 

Estávamos numa montanha vizinha ao vulcão, dava para ver de camarote tanto a erupção quando o rio de lava. Sem riscos. Mas depois de um tempo vai dando um calorão danado. Foi o único dia em que senti calor na Islândia.

Praias e Vulcões

Calor lembra praia e quem disse que não visitamos praias islandesas? Sim, as mais maravilhosas. Porém, nada a ver com caipirinhas, botecos, futevôlei e muito menos biquínis. 

De novo, entram os vulcões na construção das paisagens desse país tão único e espetacular. A Islândia possui uma das mais bonitas praias de areia preta do mundo, Reynisfjara, pertinho do vilarejo de Vik, um lugar onde você encontrará mercados e restaurantes (poucos) para descansar da viagem pela Rodovia 1, o Ring Road, uma rodovia bem asfaltada que percorre o país todo como um anel.  Desde Reyjavik são 190 quilômetros na direção Sul, passando por lindas cachoeiras no caminho (Gljufrabui vale uma parada). E esqueça os banhos, as cachoeiras e a temperatura são frias. Mas as paisagens são inesquecíveis. 

No caminho de Vik, fizemos três paradas em praias de areia preta (Dyrhólaey, Reynisfjara e Vik, todas bem próximas). 

As praias são pretas porque a areia é moída a partir de rocha vulcânica negra, formada quando a lava esfria e solidifica depois de uma erupção. 

No caso de Reynisfjara e região, o famoso vulcão Katla entrou em erupção séculos atrás e, quando a lava quente derretida colidiu com o mar gelado do Atlântico Norte, a rocha negra foi formada e depois sofreu erosão, se transformando na areia fina cintilante que você vê hoje. Aviso importante: mesmo que você seja um nadador corajoso que não se intimida com água gelada, nem pense em entrar no mar. 

A recomendação é inclusive para que você admire as ondas e correntes fortíssimas que quebram perto da praia a uns 100 metros de distância. No vilarejo de Vik, comemos uma pizza bem decente num lugar bem simples, a pizzaria Black Crust (que, claro, tem uma pizza com massa negra como as areias da praia). 

Lago glacial de Jökulsárlón

No dia seguinte, continuamos dirigindo na Rodovia 1 até o lago glacial de Jökulsárlón, dentro do maior parque nacional glacial da Europa, o Vatnajökull (eu sei, eu sei, os nomes islandeses não são fáceis. Eu até agora não consegui memorizar um sequer). Não importa o que você escolha fazer na Islândia, não deixe de ir a esse parque, todo em volta do pico glacial que lhe dá nome. 

O parque todo ocupa 8% do território da Islândia e dá para fazer desde uma trilha de uma hora para ver glaciares, como contratar uma companhia e guias para fazer trekking no gelo. 

Há também cavernas de gelo, cachoeiras, picos e a linda lagoa Jökulsárlón, de um azul intocável, com icebergs boiando no centro, focas e pássaros que vão e vêm. Dá para caminhar ao redor da lagoa por uma trilha de pedacinhos de gelo e areia negra e foi isso que fizemos, pois não havia tempo para fazer as caminhadas glaciares ou as trilhas mais complicadas. Mas a paisagem é tão única que não dá para perder: picos nevados, cachoeiras, glaciares que se estendem como gigantescas línguas brancas até pertinho da rodovia. E nesse dia fomos ainda abençoados com um céu azul de brigadeiro (e claro, os mesmo 10 ou11 graus de sempre, com ventania). 

De Jökulsárlón a Reykjavik são quase 5 horas de carro, portanto, se você voltar para a capital no mesmo dia, prepare-se para algumas paradas em vilarejos ou cachoeiras. 

A paisagem é estonteante, principalmente dentro do parque nacional. O ideal é encontrar uma pousada num dos vilarejos ao longo da rodovia ou numa cidadezinha próxima a uma das cachoeiras para quebrar a viagem. 

Lagoa Azul

Depois dessas maratona toda, nosso último dia foi coroado com uma visita à Lagoa Azul, a apenas 45 minutos de Reykjavik. Vale dizer que na Islândia há várias “piscinas públicas” de água quente vulcânica (dá para se refestelar pelo país todo). Mas a Lagoa Azul é grande e de um azul clarinho límpido que contrasta muito com a terra vulcânica ao redor. 

É um programão super turístico, mas divertidíssimo. Se puder, compre ao menos o pacote Premium, que dá direito a entrada sem fila, armário, roupão, toalha, acesso a três saunas e cachoeira, máscaras de beleza para usar durante seu banho de lagoa e um drink por pessoa no bar que fica dentro da piscina quente.  E sim, é preciso reservar com antecedência: https://www.bluelagoon.com/book/guests). 

Da erupção do primeiro dia à calma da lagoa de água quente da última noite antes de voltar para casa, nossa viagem à Islândia teve sempre como pano de fundo os vulcões. Eles são parte fundamental da paisagem insólita desse país nórdico. Ao invés de temidos e mistificados, devem ser entendidos e admirados como todas as forças da natureza, esquecidas em algumas partes do mundo, mas certamente reverenciadas na terra do gelo, o significado do nome Islândia.

Dicas da Inês:

Comida em Reykjavik: Não deixe de comer fish and chips, um clássico na cidade. A indústria pesqueira é a primeira no país, seguida hoje pela do turismo. O peixe não poderia deixar de ser da melhor qualidade. Fish and Chips, para quem não sabe, é uma comida simples, de rua, consistindo em um pedaço generoso de peixe frito empanado (em geral peixes nórdicos mais gordos e de carne branca) e uma porção de batatas fritas bem sequinhas. Come-se com molho tártaro, mas há quem prefira catchup ou um pouquinho de vinagre para acompanhar. 

Meus lugares preferidos para fish and chips: Reykjavik Fish (Tryggvagata 8, 101 – pertinho do teatro Harpa e do Old Harbor) e o famoso carrinho de rua Fish and Chips Vagninn (Hlésgata, 101, na mesma região, mais perto do Old Harbor).

Há quem viaje pela Islândia usando os ônibus de companhias de turismo e guias particulares para trilhas e glaciares. Nós alugamos carro e gostamos da flexibilidade de ir aonde e quando se quer. 

As estradas são boas no geral (e o país é superseguro), mas quanto mais você vai para as partes remotas do país, mais selvagens são os caminhos. Carro 4X4 é fundamental. E quando sair pelas estradas vá preparado porque a maioria das rodovias e trilhas fora da área de Reykjavik são muito remotas, há pouquíssimos restaurantes e nem muitos postos de gasolina. Abasteça quando tiver chance e sempre leve um farnel e água na mochila.