Skip to content

Irlanda sem clichês

Se você ainda é daqueles que, quando pensa em Irlanda, imagina um país rural e ultracatólico, onde se toma muita cerveja e uísque, e come-se só batata e repolho cozido, apague todas essas imagens. Você está no mínimo vinte anos atrasado. 

A Irlanda que eu conheço e frequento desde o final dos anos 90 é um país moderno, bem organizado, dinâmico e onde se come muito bem.

E lembre-se de uma distinção importante: aqui estamos falando da República da Irlanda, um país bilingue (gaélico e inglês) com raízes celtas e vikings, que deixou de ser colônia britânica há quase cem anos e hoje é uma nação independente e parte da União Europeia. 

A Irlanda do Norte, cuja capital é Belfast, onde até há poucas décadas havia um conflito entre católicos e protestantes, é parte do Reino Unido, assim como a Escócia, a Inglaterra e o País de Gales.

Comida

Já que eu mencionei a comida, então vamos começar por esse tema. 

Por ser um país pequeno e de agricultura não industrial, a qualidade dos alimentos na Irlanda é excepcional, principalmente os laticínios, a carne, legumes e as frutas de verão. 

Hoje em dia, inclusive, há um movimento forte que valoriza os ingredientes irlandeses e comidas que os utilizam de modo criativo. 

Nos anos 70, quando ninguém falava em sustentabilidade ou em comida direto da horta para a mesa, a chef Darina Allen criou o restaurante e escola de cozinha Ballymaloe (https://www.ballymaloe.ie/), hoje uma referência da culinária do país. 

A escola de cozinha, que forma aventureiros de fogão de fim de semana e também chefs profissionais, dependendo da duração e intensidade dos cursos, fica numa fazenda no condado de Cork onde tudo é cultivado de modo orgânico. Lá também tudo é reaproveitado ou reciclado e os animais são tratados com máximo respeito e carinho. 

Qualquer pessoa pode se inscrever nos cursos para amadores, que duram no mínimo três dias com hospedagem num dos chalés da fazenda. Porém, obviamente, os cursos exigem um bom domínio do inglês.

Turismo e meio ambiente

Apesar de ser um país tão pequeno, menor do que o estado de São Paulo, a Irlanda é bem organizada no turismo e mesmo as cidadezinhas mais remotas têm orientação sobre passeios, restaurantes locais charmosos e muita natureza. 

O único senão – dependendo do seu ponto de vista – é o tempo. 

Na Irlanda nunca faz calor, nem no verão (de junho a setembro). Os invernos, porém, não são muito rigorosos. Mas chove muito, o ano todo. No verão a temperatura raramente passa dos 25 graus Celsius durante o dia. 

Já no inverno quase nunca desce a zero e quase não há neve. No Oeste, o tempo é mais inclemente, com mais chuva e mais vento gelado, daqueles de doer a pele. Mas até nisso a Irlanda ganha pontos, pois a costa nessa região é uma das mais maravilhosas que já vi, e tudo continua muito selvagem, sem especulação imobiliária ou hordas de turistas no verão. 

Se o tempo fosse muito quente e ensolarado, duvido que a natureza ainda estaria lá tão intacta. 

Além da chuva, outra marca registrada da Irlanda sempre foi o catolicismo fervoroso e muitas vezes conservador. 

Mas, isso também parece estar cada vez ficando mais na história. Prova disso foram os recentes plebiscitos sobre o casamento gay e o aborto. Este último teve aprovação maciça de quase 70% da população no referendum de 2018, algo impensável no universo dos anos 50, aquele do filme “Em Nome de Deus” (The Magdalene Sisters, de 2001), onde moças grávidas e solteiras eram condenadas a ir para conventos ultra rígidos. 

De lá os bebês recém-nascidos iam direto para a adoção, com ou sem o consentimento dessas meninas que tinham a honra manchada pelo resto da vida. O casamento gay também foi referendado como lei em 2015 com mais de 60% de aprovação da população. 

O irlandês de hoje é membro da União Europeia, viaja o mundo, tem um pensamento político alinhado com o resto da Europa Ocidental e se preocupa com o meio ambiente.

Ecologia 

Falando em ecologia, outro fato interessante: há pouco mais de vinte anos (isso mesmo, vinte!), os irlandeses resolveram extinguir o uso de sacolas e embalagens plásticas no país. 

Todos os supermercados e lojas aderiram, a população acatou a regra de imediato e em alguns meses todos já estavam acostumados a levar sacolas reutilizáveis para as compras. 

As nojentas sacolas plásticas desapareceram da vista e não são encontradas por lá até hoje.

Clima

Se for viajar para a Irlanda prepare-se. 

Leve na bagagem alguns suéteres, uma capa de chuva, sacolas reutilizáveis e muita disposição, pois não faltam lugares interessantes. 

Se você é andarilho ou bom de bicicleta, há trilhas por todos os lugares, tudo normalmente marcado e bem sinalizado, terminando num vilarejo simpático onde um pub te espera com uma pint de Guiness, uma lareira e alguém sempre disposto a uma boa conversa. 

Os irlandeses adoram papear sobre todos os assuntos possíveis, principalmente depois de alguns drinques. 

Eles são super festeiros, adoram se divertir e, no geral, têm ótimo senso de humor. Mas, na minha opinião, essa lenda que já ouvi de que eles são os latinos do Norte da Europa não cola. 

Talvez sejam mais informais e afetivos do que outros povos de clima frio, mas daí para dar intimidade a estranhos e permitir perguntas pessoais e indiscretas é outra história bem diferente. 

Privacidade e discrição são conceitos bem arraigados na cultura do irlandês.

Jeitinho brasileiro lá também nem pensar. 

E na bagagem de todo viajante, qualquer que seja o destino, além dos euros, dólares e do passaporte carimbado, nunca deve mesmo faltar educação e bom senso.

Inês autora desse artigo publicou “Days of Bossa Nova” e nós da Comud recomendamos!

Days of Bossa Nova (English Edition) por [Ines Rodrigues]