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Crônica da Bruxa

O dia mais uma vez está nascendo no mato, mas não pense que é verdade que é tudo silêncio e tranquilidade. Afinal, isso aqui é igualzinho cidade grande, a diferença é aqui tem bicho e na cidade tem gente. Pera aí, eu ia dizer animal irracional e racional, mas hoje em dia já não tenho muita certeza disso. 

Para quem não me conhece, sou Ira, de Iracema mesmo! 

Muito prazer! 

Sou a bruxa do mato, aqui no interior de São Paulo mesmo.

Você não acredita?

Mas ainda existe mata virgem por aqui e, euzinha, moro aqui numa delas.

Por incrível que pareça, eu sei escrever e até tenho boas histórias para contar.

Na realidade, tenho ótimas histórias!

Já sei que devem estar perguntando: quem é essa tal de Ira?

Já me apelidaram de tudo: benzedeira, feiticeira, bruxa do mato; às vezes, até alguns nomes não muito bonitos me colocam, mas não ligo.

Como diz o ditado, o que vem de baixo não me atinge! 

Agora, tá uma moda de chamar todos nós de xamãs.

Acho um desrespeito aos verdadeiros xamãs!

Ridículo como as pessoas da cidade precisam de rótulos, apelidos, profissões e outras coisas parecidas com isso.

Adoro essa história de status. Para mim, isso aí é nome de revista pornô da década de 80, ou seria 70?

Eu sou uma pessoa comum, nasci na cidade grande, aprontei muito na adolescência e minha família, que tinha muito dinheiro, não sabia mais o que fazer comigo, então compraram essas terras e me mandaram para cá. Essa fazenda é enorme e já produziu muito café.

Quando vim para cá, descobri uma parte da fazenda que era pura mata, fiquei encantada. Como as terras eram minhas e aqui eu não tinha que aturar nada de tudo que eu já tinha vivido, tratei de mudar tudo. 

Faz 30 anos que estou aqui. 

Estudei muito as plantas, as matas, as flores, os chás, aprendi muito nos livros, mas meu melhor professor foi um velho índio que vivia aqui, Peri. Ele e um grupo de índios moravam nessa mata que ficava dentro da fazenda.

Com eles, eu me descobri humana.

A vida deles era tão mais simples e tão mais completa de sabedoria. 

Nenhuma universidade teria me ensinado mais que eles. Com o tempo, fui retirando o café e replantando árvores, passamos a produzir pouco, os colonos foram embora e passamos a viver em comunidade.

Me descobri líder dessa gente maravilhosa.

Se você estivesse aqui, olharia pela janela e veria um bocado de tons de verde, um cheiro bom de pão feito no forno de barro e um delicioso chá de hortelã no fogo.

Não pense que sou uma bruxa padrão.

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Tenho 52 anos e estou interona, corro, nado, caminho, rezo, trabalho e vivo em paz e harmonia.

Não pense que na sede daqui não tem eletricidade e computador. 

Temos tudo, mas temos uma cultura própria, uma mistura do meu passado de cidadã urbana com a doce vida do campo.

Sei que estamos perto de Finados e que o Halloween está aí, muita gente da cidade aqui perto acha que sou homenageada nesse dia…

Afinal, quando raramente apareço por lá, todos me olham como se eu fosse a bruxa do mato, como eu disse.

Talvez sejam meus lindos cabelos longos, minhas saias longas estilo hippie, ou essa minha fé nas alternativas de tratamentos terapêuticos tirados da mata.

Conheço muito ervas, frutas, plantas e aprendi muito sobre infusões, chás e unguentos. 

Não me importo em ser apontada nessa data.

Só não gosto de parecer algo ruim, por isso uso roupas coloridas e divertidas.

Se é para ser bruxa, pelo menos que seja uma bruxinha boa…

Resolvi escrever essa crônica para falar que duendes, bruxas, magos, fadas existem, mas talvez não usem as roupas e os acessórios que os desenhos da Disney criaram.

Nem digam que estou falando isso porque estou doidona, não preciso disso, só de imaginação e felicidade de viver.

Esses seres estão nas matas, florestas, livres, leves, felizes e só depende de você acreditar neles e vê-los!

Eles não saíram dos livros e dos filmes, os livros e filmes é que se basearam neles.

Vejo pessoas chamadas religiosas se benzerem quando me veem ou até blasfemar contra mim dizendo que eu e minha comunidade não somos coisa de Deus.

Será?

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Nós vivemos em harmonia, resolvemos todas nossas pendências em reuniões onde todos opinam, comemos comidas naturais, cuidamos da mata, respeitamos a ciência e acompanhamos tudo que está acontecendo no mundo. Produzimos muito alimento de qualidade sem ofender a mãe natureza, comercializamos respeitando todas as leis e normas, enfim, temos um conceito de cidadania e sociedade que poucos praticam. 

Acho que nós somos sim criações plenas de Deus, já estudei a bíblia, sem desvios de leitura e acho um livro maravilhoso, pena que os ensinamentos sejam tão deturpados, talvez pelo oportunismo humano, a ambição desmedida e a sede de poder de alguns.

Às vezes tenho dúvidas quem realmente são as bruxas…

Mais ainda, fico em dúvida sobre o que as pessoas chamam de bem ou mal.

Os povos índios possuem suas crenças, são tão puros, vejo serem apontados como eu sou, pois hoje somos o diferente, o que assusta.

Acho o máximo o tal de Halloween, uma festa importada e tão torta.

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Mas acho divertido, adoro a luz do fogo numa fogueira dividindo com a lua a beleza da luz na mata.

Nossas festas são tão mais leves, bebemos, comemos, dançamos e fazemos a vida tão linda! Na realidade, essas festas parecem nossas festas normais, pois somos felizes de forma pura.

Já ouviu os sons do samba de raiz, dos atabaques, das rodas, das cirandas, que delícia, soltas, livres…

Usou urucum e ervas para se embelezar, alfazema para se banhar, tecidos naturais para se cobrir…

Comeu fruta madura no pé, subir num pé de manga, catar amora, acerola e jabuticaba…

Nadou nu numa cachoeira, não para se expor aos outros, mas para se sentir livre?

Eu já fiz tudo isso e ainda faço.

Vivo respeito, amizade e fé de uma maneira tão pura… será mesmo que eu sou a bruxa má do mato?

Qualquer dia, experimente viver um pouco da vida real, pare de pensar como querem que pense e se sinta livre, como no dia que nasceu, sem medos, preconceitos, dores, culpas. 

Nesse dia, você vai ser um pouco como eu, a bruxa do mato, que tem profunda fé em Deus e se sente plena como ser humano.

Feliz Dia das Bruxas, o nosso dia! 

Dia Das Bruxas, Pop Arte