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Capitu tinha outra trança (Outubro Rosa)

Vovó dizia que ler era como aprender a respirar de novo,

Que a gente nasce sabendo puxar o ar, mas só descobre o resto quando entende que cada palavra também é um pulmão.

Eu ria, fingia que entendia, e ela abria o livro com a paciência de quem borda em silêncio.

A sala tinha cheiro de café e de tarde antiga; a luz pegava na poltrona como quem faz carinho, foi ali que ela me mostrou que Capitu não era a mesma para todo mundo.

“olha bem”, dizia, “a minha tem sardas que o autor não contou.

A sua pode ter um cabelo que muda com o vento.” e eu, menino, achava o máximo poder discordar sem briga, só com imaginação.

Quando eu errava uma palavra, vovó não corrigia na hora, ela deixava o erro descansar, como quem deixa o bolo crescer antes de abrir o forno.

“lê de novo, mas com o ouvido”, ensinava. E eu relia.

Às vezes, ela fechava os olhos e parecia ouvir o livro que eu lia.

“Tá vendo? agora você não tá só lendo, você tá viajando.” e a gente ia para países que nem sabiam da nossa existência, pegava carona com personagens, roubava um pôr do sol da página 83, escondia no bolso e depois devolvia.

Vovó não vai estar comigo na plateia quando eu me formar no teatro.

Eu vou olhar a cadeira vazia e, se o diretor não brigar, vou deixar um lenço xadrez sobre o encosto, igual ao dela, como se fosse possível reservar lugar para quem já aprendeu a ficar em todos os lugares ao mesmo tempo.

Ela que me disse, num sussurro que ainda me visita, que eu tinha voz de palco.

“não é só o som”, falou.

“é que você respira as palavras primeiro, depois fala.”

Foi numa dessas tardes que eu decidi que ia ser artista, não porque o mundo precisa de artistas (embora precise), mas porque eu precisei de alguém que me apontasse a janela quando todo mundo apontava a porta.

Vovó era essa janela.

Não deu tempo de contar a ela do primeiro beijo, que foi torto e perfeito como as coisas de verdade.

Nem de falar do cachorro que eu quase trouxe para casa, um vira-lata que me escolheu na rua, com um olho mel e outro quase verde, que correu atrás de mim até a esquina e ficou lá, parado, como se soubesse que eu não podia.

Vovó teria afagado o focinho dele e improvisado um nome bonito, desses que só ela inventava: travesseiro, talvez, porque ela dizia que os bichos entendem palavras macias.

No fim, eu aprendi que existem histórias que a gente inventa e histórias que acontecem com a gente, e as que doem mais, estranhamente, são as que juntam as duas coisas.

A história dela começou num lugar antes de mim, mas a parte que me cabe foi escrita a lápis e borracha: os dias que a gente riu sem motivo, o bolo que ela queimou e jurou que era assim mesmo, a vez em que fomos à biblioteca municipal e eu descobri que livros têm o mesmo silêncio das igrejas.

Depois veio esse cachorro de palavras tristes que lambe a porta e não entra: aprendi sobre ausência.

Às vezes, culpo o tempo, que é um relógio mal-educado. outras vezes, culpo a pressa dos adultos, esse hábito de colocar dor na última gaveta.

Mas a verdade, e eu aprendi com a vovó a preferir a verdade que espera doer, é que a gente não prestou atenção. ela disse que sentia um incômodo, depois um cansaço que não combinava com o corpo pequeno, uma sensação estranha na pele, um peso onde antes havia vento.

“é nada”, disseram. “é idade.” a gente acreditou no vazio das frases prontas.

Eu também.

Eu, que achava que palavras salvavam tudo, deixei que algumas palavras erradas fossem ditas alto demais.

No palco, quando eu atuar, vou carregar uma cena só dela: eu, sentado no chão, e vovó, com o livro aberto, dizendo que a liberdade é quando a gente consegue criar as imagens sozinho.

Não é que o mundo fique mais bonito; é que ele passa a caber dentro da gente.

E agora, no último parágrafo dessa minha história, parte final de um conto que é quando os segredos devem ser ditos, eu falo com você que me lê: toda mulher que ama alguém (e toda mulher ama alguém) precisa prestar atenção nos sinais do próprio corpo.

Caroço que aparece e não vai embora, mudança no formato do seio, pele que repuxa como casca de laranja, vermelhidão sem motivo, dor persistente, secreção pelo mamilo, inversão do mamilo, calor estranho, inchaço. não espera a agenda, nem um aniversário, nem as férias. procura um médico.

Faz o autoexame com frequência, realiza a mamografia quando indicada, conversa sobre ultrassom, pergunta, insiste, escuta o que o corpo diz baixinho. e, por favor, não esquece: homens também podem ter câncer de mama. por isso, se você é homem e notou algo diferente no peito, caroço, dor, mudança na pele, procure avaliação. eu queria ter entendido isso antes. talvez vovó tivesse assistido à minha estreia.

Talvez Capitu tivesse outra trança no palco, e ela teria rido do meu exagero.