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O universo de Álvaro de Campos

Textos de Fernando Pessoa

Hoje me enchi de coragem e resolvi construir um texto para levar a vocês a obra de um grande mestre: Fernando Pessoa.

Sei que é muita ousadia, mas ele me inspirou a ser ousado, acho fundamental levar a todos os públicos Comuds um pouquinho dessa obra. 

Para fazer esse texto meu primeiro desafio é desafiar você!

Muitos vão dizer que é antigo…

Outros vão dizer que é difícil…

Ainda vai aparecer aquele que vai apelar e dizer que é chato!

Não ouça ninguém, aceite meu desafio, pois nem tudo o que dizem ser difícil, antigo e chato é verdade! Às vezes só querem te limitar.

A literatura e a música, em todos os formatos, são perfeitas para todas as pessoas!!! Não se limite, se arrisque! Ou melhor, se jogue!

Amigos, essa minha coragem de trazer esses textos se baseou em ver sempre trechos de Fernando Pessoa na internet. 

Além disso, dois de seus textos ouvi na voz de Maria Bethania e fiquei completamente apaixonado. 

Um dos textos interpretados por Bethania fala que cartas de amor são ridículas… hoje em dia seria apenas, ler como e-mails de amor, são ridículos… mas o texto é muito real!

O outro é uma prece, essa prece é tão correta que eu diria: realmente atinge seus objetivos.

Como seus textos são densos fortes e muito politizados, resolvi recorrer à ajuda de uma das damas do teatro e TV, Marília Pera, para fazer a leitura para vocês. 

O texto de Marília Pera fala sobre a dor da perda de um filho, acho que representa muito bem a dor das mães das comunidades, que sofrem essa perda.

Como podem perceber, esse mestre das palavras atuou em quase todas as áreas da vida humana.  

Fernando constrói seus textos misturando razão e emoção com total domínio. Tenho certeza de que vocês vão ler os textos e alguns pedaços deles trarão a sua lembrança textos de stories ou feeds.

Fernando escreveu muito com o pseudônimo de Álvaro de Campos. Cuidado para não pensarem que errei quando transcrevi os textos.

Minha intenção aqui é mostrar como seus textos são atuais e verdadeiros. Cada um de nós sente sua dor, sua alegria, sua emoção…

Eu escolhi apenas 7 textos e espero que gostem das escolhas! 

1º. Texto – Só Há Duas maneiras de se Ter Razão 

“Quando o público soube que os estudantes de Lisboa, nos intervalos de dizer obscenidades às senhoras que passam, estavam empenhados em moralizar toda a gente, teve uma exclamação de impaciência. Sim — exactamente a exclamação que acaba de escapar ao leitor…

Ser novo é não ser velho. Ser velho é ter opiniões. Ser novo é não querer saber de opiniões para nada. Ser novo é deixar os outros ir em paz para o Diabo com as opiniões que têm, boas ou más — boas ou más, que a gente nunca sabe com quais é que vai para o Diabo.

Os moços da vida das escolas intrometem-se com os escritores que não passam pela mesma razão porque se intrometem com as senhoras que passam. Se não sabem a razão antes de lha dizer, também a não saberiam depois. Se a pudessem saber, não se intrometeriam nem com as senhoras nem com os escritores.

Bolas para a gente ter que aturar isto! Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. Estudem ciências, se estudam ciências; estudem artes, se estudam artes; estudem letras, se estudam letras. Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte.

Mas quanto ao resto, calem-se. Calem-se o mais silenciosamente possível.

Porque há só duas maneiras de se ter razão. Uma é calar-se, que é a que convém aos novos. A outra é contradizer-se, mas só alguém de mais idade a pode cometer.

Tudo mais é uma grande maçada para quem está presente por acaso. E a sociedade em que nascemos é o lugar onde mais por acaso estamos presentes.”

2º. Texto – Prece 

“Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está – (o teu templo) – eis o teu corpo.

Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.

Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.”

3º. Texto – Os Especialistas São Muitos e Felizes

“Um especialista é um homem que sabe qualquer coisa de uma coisa e nada de todas as coisas. De uma coisa não se pode saber senão qualquer coisa, porque o conhecimento humano é limitado. E, para perceber qualquer coisa seria preciso perceber todas as coisas, pois uma coisa é parte de todas as coisas. O especialista, pois, é um homem que não sabe nada e vive dessa ciência.

O especialista é útil apenas quando a sua especialidade é tão restrita que não tem importância. Pode haver bons especialistas de pregar pregos; não pode haver bons especialistas de construção de civilizações. Há muito bons cavadores e nenhum bom psiquiatra.

O especialista é um homem que tem a opinião dos outros, embora sobre um só assunto. O especialista é incapaz de iniciativa. Por isso os especialistas são muitos e felizes.”

4º. Texto – Uma Obediência Passiva 

“O homem, bobo da sua aspiração, sombra chinesa da sua ânsia inútil, segue, revoltado e ignóbil, servo das mesmas leis químicas, no rodar imperturbável da Terra, implacavelmente em torno a um astro amarelo, sem esperança, sem sossego, sem outro conforto que o abafo das suas ilusões da realidade e a realidade das suas ilusões. Governa estados, institui leis, levanta guerras; deixa de si memórias de batalhas, versos, estátuas e edifícios. A Terra esfriará sem que isso valha. Estranho a isso, estranho desde a nascença, o soI um dia, se alumiou, deixará de alumiar; se deu vida, dará a si a morte. Outros sistemas de astros e de satélites darão porventura novas humanidades; outras espécies de eternidades fingidas alimentarão almas de outra espécie; outras crenças passarão em corredores longínquos da realidade múltipla. Cristos outros subirão em vão a novas cruzes. Novas seitas secretas terão na mão os segredos da magia ou da Cabala. E essa magia será outra, e essa Cabala diferente. Só uma obediência passiva, sem revoltas nem sorrisos, tão escrava como a revolta, é o sistema espiritual adequado à exterioridade absoluta da nossa vida serva.

5º. Texto – A Melhor Maneira de Viajar é Sentir

  • Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
  • Sentir tudo de todas as maneiras.
  • Sentir tudo excessivamente,
  • Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
  • E toda a realidade é um excesso, uma violência,
  • Uma alucinação extraordinariamente nítida
  • Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
  • O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
  • Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.
  • Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
  • Quanto mais personalidade eu tiver,
  • Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
  • Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
  • Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
  • Estiver, sentir, viver, for,
  • Mais possuirei a existência total do universo,
  • Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
  • Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
  • Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
  • E fora d’Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.
  • Cada alma é uma escada para Deus,
  • Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
  • Cada alma é um rio correndo por margens de Externo
  • Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.
  • Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito,
  • Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos
  • Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho
  • E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!
  • Sursum corda! Na noite acordo, o silêncio é grande,
  • As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam
  • Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos
  • Que as vê como vagos vultos noturnos na noite negra.
  • Sursum corda! Acordo na noite e sinto-me diverso.
  • Todo o Mundo com a sua forma visível do costume
  • Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso,
  • Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça.
  • Sursum corda! ó Terra, jardim suspenso, berço
  • Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!
  • Mãe verde e florida todos os anos recente,
  • Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal,
  • Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adônis
  • Num rito anterior a todas as significações,
  • Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales!
  • Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões,
  • Grande voz acordando em cataratas e mares,
  • Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,
  • Em cio de vegetação e florescência rompendo
  • Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso
  • A tua própria vontade transtornadora e eterna!
  • Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,
  • Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones,
  • Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,
  • Que perturba as próprias estações e confunde
  • Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!
  • Sursum corda! Reparo para ti e todo eu sou um hino!
  • Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica intima
  • Volteia serpenteando, ficando como um anel
  • Nevoento, de sensações reminescidas e vagas,
  • Em torno ao teu vulto interno, túrgido e fervoroso.
  • Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente
  • Meu coração a ti aberto!
  • Como uma espada traspassando meu ser erguido e extático,
  • Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,
  • Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre,
  • Sou um monte confuso de forças cheias de infinito
  • Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,
  • A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une
  • E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim
  • Não passem de mim, nem quebrem meu ser, não partam meu corpo,
  • Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira
  • Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,
  • Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.
  • Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.
  • Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,
  • No vasto chão supremo que não está em cima nem embaixo
  • Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos
  • Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.
  • Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,
  • Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo
  • De chamas explosivas buscando Deus e queimando
  • A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
  • A minha inteligência limitadora e gelada.
  • Sou uma grande máquina movida por grandes correias
  • De que só vejo a parte que pega nos meus tambores,
  • O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis,
  • E nunca parece chegar ao tambor donde parte…
  • Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito
  • Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si,
  • Cruzando-se em todas as direções com outros volantes,
  • Que se entre penetram e misturam, porque isto não é no espaço
  • Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.
  • Dentro de mim estão presos e atados ao chão
  • Todos os movimentos que compõem o universo,
  • A fúria minuciosa e dos átomos,
  • A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,
  • A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam,
  • A chuva com pedras atiradas de catapultas
  • De enormes exércitos de anões escondidos no céu.
  • Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
  • De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh’alma.
  • Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
  • Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,
  • Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
  • Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
  • Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
  • Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,
  • Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!

6º. Texto – Todas as Cartas de Amor são Ridículas

  • “Todas as cartas de amor são 
  • Ridículas.
  • Não seriam cartas de amor se não fossem
  • Ridículas.
  • Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
  • Como as outras,
  • Ridículas.
  • As cartas de amor, se há amor,
  • Têm de ser
  • Ridículas.
  • Mas, afinal,
  • Só as criaturas que nunca escreveram
  • Cartas de amor
  • É que são
  • Ridículas.
  • Quem me dera no tempo em que escrevia
  • Sem dar por isso
  • Cartas de amor
  • Ridículas.
  • A verdade é que hoje
  • As minhas memórias
  • Dessas cartas de amor
  • É que são
  • Ridículas.
  • (Todas as palavras esdrúxulas, como os sentimentos esdrúxulos, são naturalmente Ridículas.)”

7º. Texto – O MENINO DA SUA MÃE

  • No plaino abandonado
  • Que a morna brisa aquece,
  • De balas traspassado
  • — Duas, de lado a lado —,
  • Jaz morto, e arrefece.
  • Raia-lhe a farda o sangue.
  • De braços estendidos,
  • Alvo, louro, exangue,
  • Fita com olhar langue
  • E cego os céus perdidos.
  • Tão jovem! que jovem era!
  • (Agora que idade tem?)
  • Filho único, a mãe lhe dera
  • Um nome e o mantivera:
  • «O menino da sua mãe».
  • Caiu-lhe da algibeira
  • A cigarreira breve.
  • Dera-lha a mãe. Está inteira
  • E boa a cigarreira.
  • Ele é que já não serve.
  • De outra algibeira, alada
  • Ponta a roçar o solo,
  • A brancura embainhada
  • De um lenço… Deu-lho a criada
  • Velha que o trouxe ao colo.
  • Lá longe, em casa, há a prece:
  • «Que volte cedo, e bem!»
  • (Malhas que o Império tece!)
  • Jaz morto, e apodrece,
  • O menino da sua mãe. universo barato.”
 Marília Pêra completaria 75 anos nesta terça; Miguel Falabella presta homenagem

Para finalizar, vou colocar o trecho do texto que me inspirou:

  • “Começo a conhecer-me. 
  • Não existo.
  • Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
  • Ou metade desse intervalo, porque também há vida…
  • Sou isso, enfim…
  • Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor.
  • Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.!”