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Lu Belém para além da literatura infantil

Uma autora que transforma histórias de família, povos originários e vozes femininas em literatura

Há escritores que inventam histórias.

E há escritores que também percebem as histórias que já estavam ali, na família, na terra, na memória de um povo, nas mulheres que vieram antes de nós, nas palavras que atravessaram gerações.

Lu Belém transita por esses dois lugares.

Se em seus livros infantis encontramos gatos resgatados, uma menina com seu guarda-chuva e uma bruxinha capaz de transformar medo em amizade, existe uma outra Lu que escreve para leitores adultos e volta seu olhar para temas como ancestralidade, preconceito, cultura popular, povos originários, feminino e pertencimento.

É essa autora que queremos apresentar agora.

A Saga: quando a história de uma família encontra a história de muitas

Em “A Saga”, Lu Belém escolhe uma das formas mais brasileiras de contar histórias: o cordel.

Inspirada na história de seus próprios avós, a autora nos leva ao Nordeste e fala de uma relação que precisou enfrentar preconceitos raciais e sociais para permanecer unida.

É uma história particular.

Mas poderia ser a história de muitas famílias brasileiras.

Quantos amores precisaram enfrentar a desaprovação de uma sociedade que insistia em determinar quem poderia amar quem?

Quantas famílias nasceram apesar das diferenças de classe?

Quantos casais enfrentaram o racismo, o julgamento e as convenções sociais?

Ao transformar a história dos avós em literatura, Lu faz algo importante: preserva uma memória familiar e, ao mesmo tempo, encontra nela uma memória coletiva.

O cordel torna-se especialmente significativo nessa construção.

Não é apenas a forma escolhida para contar a história. Ele também aproxima o leitor da cultura nordestina e de uma tradição na qual memória, oralidade, ritmo, humor, sofrimento e resistência tantas vezes caminham juntos.

Um “sertãobulário” para não deixar as palavras desaparecerem

E Lu Belém acrescenta ao livro uma ideia deliciosa: um “sertãobulário”.

Nele, o leitor pode encontrar e redescobrir palavras muito utilizadas no Nordeste.

Porque preservar uma cultura também é preservar sua maneira de falar.

Palavras carregam lugares.

Carregam sotaques, hábitos, brincadeiras, comidas, lembranças e modos particulares de enxergar o mundo.

Algumas desaparecem lentamente do nosso cotidiano. Outras continuam vivíssimas em determinadas regiões, embora pareçam desconhecidas para quem nasceu longe delas.

Ao criar seu “sertãobulário”, Lu faz mais do que explicar vocabulário.

Ela convida o leitor a escutar o Nordeste dentro das palavras.

Projeto Rudá: histórias que já existiam antes de nós

Essa relação com memória e ancestralidade aparece novamente na participação de Lu Belém no Projeto Rudá, da Comudsaber.

O projeto abre espaço para histórias relacionadas aos povos originários, procurando aproximar o leitor de narrativas, referências e saberes que fazem parte da formação cultural brasileira e que muitas vezes receberam pouco espaço naquilo que aprendemos ao longo da vida.

Lu participa do projeto com dois contos:

Pedras Sagradas de Itajuru

O próprio título já nos convida a mudar o olhar.

Uma pedra pode ser apenas uma pedra?

Ou pode guardar memória, significado, espiritualidade e a relação de um povo com determinado território?

Em “Pedras Sagradas de Itajuru”, Lu se aproxima de uma narrativa de origem indígena e nos lembra que a relação dos povos originários com a natureza não pode ser compreendida apenas pela ideia de posse.

A terra pode ser história.

A pedra pode ser memória.

O lugar pode ser sagrado.

E talvez nós, acostumados a transformar quase tudo em propriedade, tenhamos muito a reaprender sobre pertencimento.

As Guardiãs das Águas

Em “As Guardiãs das Águas”, encontramos novamente uma narrativa de origem indígena, agora aproximando o feminino de um dos elementos essenciais à existência: a água.

Água é nascimento.

É alimento.

caminho.

sobrevivência.

natureza.

É vida.

Quando uma história fala de guardiãs das águas, ela também nos permite pensar sobre nossa própria responsabilidade diante daquilo que recebemos da natureza.

Talvez a grande pergunta não seja apenas quem são essas guardiãs.

Talvez seja:

quem está guardando nossas águas hoje?

Entre Mulheres e Deusas: quando muitas vozes femininas se encontram

Há ainda outro território importante na produção de Lu Belém: o universo feminino.

Ao lado de Edneia Rodrigues, Lu é responsável pelos livros “Entre Mulheres e Deusas”, projeto que reúne histórias, experiências e diferentes olhares sobre o feminino.

E o título já diz muito.

Entre a mulher real e a deusa existe um espaço imenso.

Nele estão nossas mães, avós, filhas, amigas, profissionais, cuidadoras, sonhadoras, mulheres fortes e mulheres que também se permitem ser frágeis.

Mulheres que começam.

Que interrompem caminhos.

Que recomeçam.

Aquelas que podem cuidar.

Que precisam aprender a cuidar de si.

Falar de mulheres e deusas não precisa significar colocar mulheres em pedestais.

Talvez seja justamente o contrário.

Pode significar reconhecer que há algo extraordinário também nas mulheres absolutamente humanas — com suas histórias, contradições, dores, desejos, conquistas e transformações.

Afinal, o que une trabalhos aparentemente tão diferentes?

Um cordel sobre os avós.

Histórias inspiradas em narrativas indígenas.

Livros construídos em torno das experiências femininas.

À primeira vista, poderíamos enxergar projetos completamente diferentes.

Mas existe um fio ligando todos eles:memória.

A memória de uma família em A Saga.

A memória cultural e ancestral presente no Projeto Rudá.

As memórias e experiências femininas em Entre Mulheres e Deusas.

Lu Belém parece interessada por aquilo que não deveria desaparecer.

Histórias que precisam ser contadas para continuar existindo.

Palavras que precisam ser pronunciadas para não serem esquecidas.

Culturas que precisam ser respeitadas para não serem reduzidas a curiosidades.

Experiências femininas que precisam encontrar espaço para serem ouvidas.

Escrever também pode ser uma forma de guardar

Talvez essa seja uma das funções mais bonitas da literatura.

Um livro guarda coisas.

Guarda uma pessoa que já se foi.

a maneira como nossos avós falavam.

uma história que alguém contou.

uma tradição.

uma pergunta.

um povo dentro de uma narrativa.

Guarda aquilo que uma mulher viveu para que outra mulher, muitos anos depois, possa abrir uma página e pensar: “Eu também.”

Por isso, conhecer a produção de Lu Belém para adultos é conhecer outra dimensão de seu trabalho.

A autora que escreve para crianças acredita na imaginação.

A autora que escreve para adultos parece nos convidar a não esquecer.

Talvez as duas façam exatamente a mesma coisa.

Porque contar histórias para quem está começando a vida e preservar histórias de quem veio antes são duas maneiras de construir pontes entre gerações.

E enquanto uma história continuar sendo contada, alguma coisa de nós continuará existindo.