
Roteiro adaptado de documentário “Nos olhos de Capitu”
Essa publicação é uma adaptação do roteiro original do Documentário que rodei sobre Capitu do livro Dom Casmurro de Machado de Assis.
Sugiro que assista o documentário, acho que você vai se surpreender.
Link do vídeo no youtube:
Infância dos Personagens
No livro, o período da infância de Bentinho e Capitu mostra o grande carinho existente entre as crianças, a pureza.
Eles não se importavam com o que os outros falavam.
Ignorando a tudo e a todos.
Pois a todos causava muita estranheza uma menina que brincava e estava tão próxima a um menino, comportamento totalmente fora dos padrões da época.
A personagem principal era uma mulher muito a frente de seu tempo, não se importava com comentários e maledicências.
“Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem.”
Como uma, das várias frases que se fazem presentes no livro, já é possível enxergar o abismo que se encontra a figura de Capitu.
A pergunta que a ronda e a imagem que a persegue ficam na cabeça do leitor e deixam o gosto do querer mais, de uma explicação para tal história.
Como a narrativa do texto se encontra em primeira pessoa, as dúvidas se formam na sua mente e ficam lá, até o final do livro.
Porém, tudo isso pela visão de Dom Casmurro!
Mas qual seria visão de Capitu?
Sentimentos
Bentinho, o personagem principal, era mimado, muito amado pela família.
Essa relação familiar impacta sua relação com Capitu.
Ele estima muito Capitu.
Amor?
Paixão?
Ilusão?
O livro é focado na relação de Bentinho e Capitu, num período da história do Brasil específica.
Nesse período, o “homem” era soberano sobre todas as coisas e temos Capitu uma mulher forte, que impacta muito o personagem masculino, fazendo com que ele viva quase uma autossabotagem em relação aos seus sentimentos.
“Abane a cabeça, leitor; faça todos os gestos de incredulidade.
Chegue a deitar fora este livro, se o tédio já o não obrigou a isso antes tudo é possível.
Mas, se o não fez antes e só agora, fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma página, sem crer por isso na veracidade do autor.
Todavia, não há nada mais exato.
Foi assim mesmo que Capitu falou, com tais palavras e maneiras.
Falou do primeiro filho, como se fosse a primeira boneca.
Os olhos de Capitu
Acho bom trazer para esse texto a definição feita pelo personagem José Dias sobre Capitu, em especial de seus olhos:
“olhos de cigana oblíqua e dissimulada.”
Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada eu sabia, e queria ver se podiam chamar assim.
“Capitu deixou-se fitar e examinar.
Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas.
A demora da contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios.
O romance possui uma tônica na desconfiança, nas dúvidas e nos medos do personagem Bentinho em relação a Capitu.
Parte pela criação familiar e parte na importância que o personagem dá aos comentários feitos na fase adulta.
Olhos de ressaca?
Dois trechos fortes que merecem ser citados:
“Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu.
Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. “
“Vá, de ressaca. É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.”
Esses olhos tão fortes, esse olhar, traduzem a maturidade dos personagens, a liberdade de Capitu e os ciúmes de Bentinho.
Afinal, aquele jeito de moleca, aquela liberdade, tomam forma de mulher.
Bentinho como adulto se torna ciumento e tem medo de perder!
A imaginação
“A imaginação foi a minha companheira de existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar, as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas correndo.”
O final do livro mostra como uma pessoa boa, Bentinho, pode enlouquecer por amor. Mas tudo pode ser visto como um caminho escolhido pelos personagens.
Bentinho se vê só, Capitu foi embora com seu filho, a criação do filho vai seguir a liberdade da mãe e ele ficou amargurado pelas dúvidas e pela solidão.
Por outro lado, Capitu, se liberta, vai para Europa e mesmo terminando só, seguiu com o seu jeito de ser, sua liberdade. Numa época tão machista, ela seguiu com seus valores e encontrou no filho o respaldo para viver.
Conclusão
A leitura de Dom Casmurro não é uma leitura simples.
Faz você pensar…
Faz a gente querer encontrar respostas sobre coisas certas e erradas.
Portanto o que fica claro é que tudo depende do olhar do leitor e de como você quer entendê-lo.
Cada pessoa pode ler o livro de uma forma diferente, por isso ele é um livro atemporal.
É o tipo da leitura que sempre estará aberta para novas interpretações.
Você já leu?
Viveu essa experiência?
Sugiro que leia!
