
— Renato, preciso da sua ajuda.
— Quando você começa assim, Cosmo, já sei que vem história.
— E vem. Um amigo meu resolveu pedir alguém em casamento.
Renato sorriu.
— Até aí, tudo bem. Espero que ele saiba o que está fazendo.
— Sabe. Ou pelo menos acha que sabe. O problema é que ele resolveu fazer o pedido durante um piquenique.
— Agora ficou interessante.
— E quer que seja perfeito.
Renato fez aquela cara de quem já estava organizando mentalmente garrafas, taças e harmonizações.
— Primeiro erro: querer que seja perfeito.
— Como assim?
— Se ele passar o piquenique inteiro preocupado se a toalha está esticada, se o queijo está na temperatura certa e se a taça está posicionada para a fotografia, vai esquecer justamente de olhar para a pessoa que está na frente dele.
— Concordo. Então vamos trocar “perfeito” por “inesquecível”.
— Aí melhorou.
E foi assim que começou nossa missão.
Não organizaríamos apenas um piquenique.
Criaríamos três possibilidades de cenário, três cestas, três vinhos e três maneiras diferentes de chegar à mesma pergunta.
Aquela pergunta.
Antes do vinho, precisamos pensar no casal
— Primeira pergunta — disse Renato. — Como são os dois?
— Românticos.
— Isso não ajuda em nada.
— Por quê?
— Porque existe o romântico clássico, o romântico divertido, o romântico sofisticado, o romântico que gosta de natureza, o que prefere luxo…
— Está bem. Então vamos criar três opções. Assim nosso amigo escolhe aquela que mais se parece com os dois.
Renato concordou.
— Mas existe uma regra.
— Lá vem o sommelier com as regras…
— Não é regra de vinho. É regra de pedido de casamento: o piquenique precisa contar alguma coisa sobre o casal.
E ele tinha razão.
A toalha pode ser linda. A cesta pode ser sofisticada. O vinho pode ser maravilhoso.
Mas, se nada ali tiver a cara dos dois, teremos apenas uma bela produção.
E não uma lembrança.
Cesta 1 — O romance que borbulha
— Vamos começar pela celebração — sugeriu Renato. — Espumante Rosé.
— Gostei. Tem cor, tem borbulha, tem festa…
— E tem frescor. Para um pedido de casamento ao ar livre, funciona muito bem.
Então começamos a montar a primeira cesta.
Uma toalha clara, confortável e grande o suficiente para os dois. Almofadas pequenas. Guardanapos de tecido. Duas taças protegidas dentro da cesta. Flores simples, sem transformar o parque numa decoração de casamento antecipada.
E comida?
Renato começou pelas frutas.
— Morangos.
— Claro.
— Framboesas, se encontrarmos boas. Uvas também funcionam muito bem.
A cesta foi crescendo.
Espumante Rosé
Para acompanhar:
- morangos e frutas vermelhas;
- uvas frescas;
- queijo Brie;
- pequenos canapés;
- pão artesanal ou croissants;
- geleia delicada de frutas vermelhas;
- macarons ou pequenos doces de frutas.
— Essa cesta é para qual casal? — perguntei.
— Para aquele casal que ri junto. Que gosta de celebrar. Que não precisa transformar romantismo em solenidade.
— Então o pedido pode acontecer durante o brinde.
Renato levantou uma sobrancelha.
— Só não coloque a aliança dentro da taça.
— Eu ia sugerir isso.
— Por isso estou aqui.
Rimos.
E realmente não seria necessário nenhum truque.
Duas taças.
Um espumante rosé.
Talvez algumas palavras que tenham significado para os dois.
E então a pergunta.
“Quer continuar brindando a vida comigo?”
Depois disso, talvez nem o vinho seja lembrado em detalhes.
Mas o som daquela garrafa sendo aberta poderá acompanhá-los pelo resto da vida.
Cesta 2 — Um amor leve, solar e sem cerimônia
— Agora quero uma completamente diferente — falei.
— Então vamos de Rosé seco.
A segunda cesta nasceu para um final de tarde.
Nada excessivamente produzido.
Uma toalha colorida, uma cesta de palha bonita, flores do campo e talvez uma pequena caixa de som — usada com volume suficiente apenas para os dois.
— E o que colocamos para comer?
— Aqui podemos brincar mais — explicou Renato. — O rosé seco é fresco, versátil e combina muito bem com uma cesta leve.
Entraram:
Rosé seco
Para acompanhar:
- morangos;
- melão;
- pêssegos ou nectarinas;
- uvas;
- sanduíches leves;
- queijos suaves;
- bruschettas;
- salada caprese em pequenos espetinhos;
- castanhas;
- uma torta de frutas para dividir.
— Essa cesta me parece menos “pedido oficial de casamento” — comentei.
— Exatamente. E talvez esse seja o charme.
É a cesta para aquele casal que construiu o amor na conversa, nas viagens, nos finais de tarde, nas coisas aparentemente pequenas.
Talvez eles cheguem ao parque de mãos dadas.
Tirem os sapatos.
Comam alguma coisa.
Conversem.
Lembrem de histórias.
E quando o céu começar a mudar de cor, uma taça de rosé pode acompanhar uma pergunta simples.
Sem discurso decorado.
Nem pensar em plateia.
Sem alguém escondido atrás da árvore filmando tudo, a menos, claro, que isso faça sentido para eles.
— E qual seria a frase? — perguntei.
Renato pensou.
— Não precisa ter frase.
— Renato! É um pedido de casamento!
— Justamente. Se ele souber por que quer casar com aquela pessoa, as palavras aparecem.
Ponto para o sommelier.
Cesta 3 — Para um amor que gosta de ficar
A terceira cesta precisava ser diferente.
Mais íntima.
Mais profunda.
Talvez para um fim de tarde que avançasse lentamente em direção à noite.
— Pinot Noir — disse Renato.
— Tinto em piquenique?
— Por que não? Um Pinot Noir pode ser delicado, elegante, ter taninos suaves e acompanhar muito bem esse tipo de encontro.
Essa cesta ganhou outra personalidade.
Uma toalha em tom mais sóbrio. Almofadas. Duas taças. Uma manta leve, caso o final da tarde esfriasse.
E uma seleção um pouco mais intensa de sabores.
Pinot Noir
Para acompanhar:
- cerejas;
- morangos;
- uvas;
- queijos de sabor delicado a médio;
- cogumelos em uma pequena torta salgada;
- quiche;
- pães artesanais;
- charcutaria delicada;
- chocolate amargo ou meio amargo para o final.
— Essa é minha favorita — confessei.
— Eu sabia.
— Por quê?
— Porque você já transformou o piquenique numa conversa sobre a vida.
Talvez.
Mas aquela terceira cesta realmente parecia pedir tempo.
Tempo para abrir a garrafa.
Para conversar.
Tempo para lembrar de como os dois se conheceram.
Para falar das dificuldades que já atravessaram.
Tempo para imaginar o que ainda querem viver juntos.
E talvez seja justamente aí que esteja a essência de um pedido de casamento.
Não perguntar apenas:
“Você quer casar comigo?”
Mas dizer, de alguma maneira:
“Depois de tudo o que já vivemos, ainda quero viver o que falta com você.”
E qual das três é a cesta perfeita?
Quando terminamos nossas três propostas, olhamos para elas.
Espumante Rosé.
Rosé seco.
Pinot Noir.
Três vinhos.
Três cestas.
Três atmosferas completamente diferentes.
— Então qual delas recomendamos? — perguntei.
Renato respondeu sem hesitar:
— Aquela que tiver mais a cara dos dois.
E talvez essa seja a principal dica deste conto.
Não existe vinho capaz de fabricar romantismo.
Muito menos existe cesta que transforme uma relação.
Não há paisagem que substitua sentimento.
O vinho, a toalha, as frutas, os queijos, as flores e a cesta apenas ajudam a construir o cenário.
Quem transforma aquele cenário em memória são as pessoas.
Um último cuidado antes do grande dia
Ainda fizemos uma pequena lista para nosso amigo.
A garrafa precisa chegar na temperatura adequada. As taças devem estar bem protegidas. Os alimentos precisam ser acondicionados corretamente, especialmente queijos, frios e outros produtos perecíveis. Água não pode faltar.
E, principalmente, nada de dirigir depois de beber.
— Esquecemos alguma coisa? — perguntei.
Renato pensou alguns segundos.
— A aliança.
— Renato!
— Você pediu para conferir tudo.
Tudo pronto.
- Toalha.
- Cesta.
- Comida.
- Vinho.
- Taças.
- Água.
- Aliança.
Mas faltava o ingrediente mais importante.
— Qual? — perguntei.
— Coragem.
Dessa vez concordamos sem discutir.
Porque há milhares de vinhos no mundo e centenas de maneiras de montar um piquenique.
Mas, naquele dia, haverá apenas uma pergunta que realmente importa.
E esperamos que a resposta seja…
Sim.
As três cestas de Cosmo & Renato
Para celebrar — Espumante Rosé
Frutas vermelhas, uvas, Brie, pães, canapés, geleia e pequenos doces.
Cesta para um romance leve — Rosé seco
Melão, pêssego, morangos, sanduíches leves, queijos suaves, caprese, castanhas e torta de frutas.
Algo especial para um encontro mais íntimo — Pinot Noir
Cerejas, morangos, queijos, torta de cogumelos, quiche, pães, charcutaria delicada e chocolate meio amargo.
No final, nossa recomendação para o amigo foi muito simples:
Escolha o vinho pensando na cesta.
Não esqueça e escolha a cesta pensando na pessoa.
E faça o pedido pensando nos dois.
Porque o melhor piquenique não será aquele que ficar mais bonito na fotografia.
Será aquele que, muitos anos depois, ainda fizer os dois sorrirem quando alguém perguntar:
“E como foi mesmo que vocês ficaram noivos?”
Por Cosmo Fuzaro um contador de histórias e Renato Spedo um Sommelier que gosta de viver a vida!
