
Sem bater.
— Zora! Você não sabe quem eu encontrei na padaria!
— Um homem bonito, rico, solteiro e apaixonado por você?
— Não!
— Então perdeu uma excelente oportunidade.
— Encontrei a dona Célia, que me contou que…
— Mirtes, antes que você comece, preciso lhe contar uma coisa.
Ela parou.
Olhou para mim.
Depois para a xícara de café que eu segurava.
— Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu.
— Coisa boa?
Sorri.
— Uma das melhores coisas que poderiam acontecer.
— Arrumou namorado?
— Não.
— Ganhou dinheiro?
— Não.
— Então não estou entendendo esse entusiasmo todo.
— Encontrei minha professora da escola primária.
Mirtes ficou imóvel.
— Sua professora?
— Minha professora Isaura.
E sorri novamente.
Um sorriso daqueles que nascem muito antes de chegar ao rosto.
Isaura, a mulher que enxergava além dos olhos
— Mirtes, você já encontrou alguém depois de tantos anos e, por alguns segundos, voltou a ser criança?
— Já. Encontrei um ex-namorado e voltei a ser uma idiota.
— Estou tentando contar uma história bonita!
— Desculpa. Continue.
Fomos sentar do lado de fora.
— Eu estava andando pela rua quando vi uma senhora. Os cabelos brancos, o andar mais lento, mas havia alguma coisa naquele rosto que o tempo não conseguiu modificar.
— O quê?
— O olhar.
— Você reconheceu sua professora pelo olhar?
— Reconheci.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
— A professora Isaura tinha uma capacidade extraordinária, Mirtes. Ela olhava para uma criança e parecia compreender aquilo que a criança ainda não sabia explicar.
— Como você com as cartas?
— Muito melhor. Ela não precisava de cartas.
Mirtes sorriu.
— Então era sensitiva!
— Era educadora. E das grandes.
Contei que, na sala de aula de Isaura, nenhuma criança era apenas uma nota, um número na chamada ou um boletim.
Cada aluno era um universo.
Havia os que aprendiam depressa.
Os que precisavam de mais tempo.
Também haviam os que falavam demais.
Os que quase não falavam.
Os que chegavam felizes.
E aqueles que traziam uma tristeza tão grande que mal cabia dentro da mochila.
Isaura percebia.
Não porque adivinhasse pensamentos, mas porque prestava atenção.
— Lembro de uma menina que passou dias sem conversar com ninguém — contei.
— E a professora fez o quê?
— Não a obrigou a falar. Um dia, pediu que a turma desenhasse aquilo que mais gostaria de encontrar quando chegasse em casa.
— E a menina?
— Desenhou uma mesa. Uma cadeira. E uma mulher sentada.
— Só isso?
— Só.
Isaura se aproximou, perguntou sobre o desenho e ouviu a resposta sem interromper.
Depois procurou compreender o que estava acontecendo com aquela criança.
— E o que era?
— Eu não soube de tudo. E hoje acho bonito não ter sabido. Isaura respeitava a intimidade dos alunos. Mas lembro que, aos poucos, aquela menina voltou a sorrir.
Mirtes ficou pensativa.
— Ela percebeu pelo desenho.
— Percebeu que havia algo que merecia atenção. E, em vez de tirar conclusões apressadas, escutou.
Quando uma folha em branco se transforma em liberdade
— Mas sabe o que mais me encantava na professora Isaura?
— O quê?
— Ela nos dava liberdade para imaginar.
Contei que Isaura incentivava desenhos, redações, pequenas histórias e perguntas que nem sempre tinham respostas simples.
Uma vez, pediu que desenhássemos uma árvore.
Alguns fizeram troncos marrons e folhas verdes.
Outros desenharam árvores carregadas de frutas.
Eu fiz uma árvore azul.
— Azul? — Mirtes perguntou.
— Azul.
— E ela não corrigiu?
— Perguntou por quê.
— E você respondeu?
— Que aquela árvore estava triste porque ninguém conversava com ela.
Mirtes sorriu.
— Você já era dramática quando criança!
— Eu prefiro dizer que era artisticamente sofisticada.
— Claro.
— Isaura olhou para o desenho e disse: “Então talvez seja hora de alguém escutar essa árvore.”
Parei por um instante.
— Mirtes, ela poderia ter dito que árvores não são azuis. Poderia ter me mandado apagar e começar novamente. Mas fez uma coisa muito maior.
— O quê?
— Levou minha imaginação a sério.
Depois daquele dia, comecei a inventar histórias para meus desenhos.
Árvores que conversavam.
Casas que tinham saudade.
Pássaros que não queriam voar porque gostavam demais do lugar onde haviam nascido.
Isaura lia tudo.
Às vezes corrigia uma palavra.
Às vezes sugeria um caminho.
Mas nunca destruía a ideia.
— Ela ensinava a escrever?
— Ensinava. Mas também ensinava que nossas ideias mereciam existir.
Olhei para Mirtes.
— Uma professora pode corrigir uma palavra sem apagar a voz de uma criança. Isaura sabia fazer isso.
O reencontro que atravessou décadas
— E o que você disse quando encontrou Isaura? — Mirtes perguntou.
Sorri.
— Primeiro, quase nada.
— Você? Sem falar?
— Milagre reconhecido pelo Vaticano.
Mirtes gargalhou.
— Depois perguntei: “Professora Isaura?”
Ela me olhou com cuidado.
Sorriu.
E perguntou meu nome.
Quando respondi, segurou minhas mãos.
Conversamos sobre a escola, os anos que passaram e os caminhos que seguimos.
Contei que escrevo, que amo as artes, a música, os livros e que ainda encontro felicidade em criar histórias.
Ela ficou contente.
— E você agradeceu?
— Agradeci.
Minha voz falhou um pouco.
— Disse que parte da pessoa que me tornei nasceu naquela sala de aula.
Mirtes ficou em silêncio.
— E ela?
— Sorriu e disse que era maravilhoso saber que eu continuava criando.
Olhei para minhas mãos.
— Mirtes, sabe o que mais me emocionou? Eu passei tantos anos sem vê-la. Mas nunca deixei de carregar alguma coisa daquela mulher comigo.
Sergio, o professor que fez os escritores voltarem à vida
Mirtes puxou a cadeira para mais perto.
— Zora, eu também tive professores assim.
— Conte.
— Dois. Um professor e uma professora. Já no ensino superior.
Ela sorriu.
— O primeiro foi Sergio. Professor de Literatura.
— Você gosta de literatura?
— Gosto de poesia, Zora!
— Então existe uma romântica escondida debaixo dessa fofoqueira.
— Escondida, não. Apenas seletiva.
Rimos.
— Sergio não entrava na sala simplesmente para explicar um poema — continuou Mirtes. — Ele fazia a gente conhecer o poeta.
— Como assim?
— Contava onde o escritor tinha nascido, o mundo em que viveu, suas paixões, seus conflitos, as perdas, os acontecimentos históricos. Depois abria o livro.
Mirtes se levantou, imitando o professor.
— “Meus caros, antes de perguntar o que esse autor escreveu, precisamos perguntar que mundo ele estava tentando compreender!”
Bati palmas.
— Gostei do Sergio!
— Você teria amado as aulas dele!
Ela continuou.
Sergio falava de Machado de Assis e das contradições da sociedade brasileira.
De Fernando Pessoa e das muitas vozes que cabem dentro de um único ser humano.
Mas de Cecília Meireles falava da delicadeza com que a poesia consegue tocar aquilo que parece impossível de dizer.
De Carlos Drummond de Andrade, suas inquietações, sua ironia e sua maneira tão humana de olhar para a existência.
— E sabe o que ele fazia, Zora?
— O quê?
— Mostrava que os escritores não eram estátuas de bronze colocadas em praças para os pombos fazerem suas necessidades.
Caí na gargalhada.
— Mirtes!
— É verdade! Ele dizia que eram pessoas. Que amavam, sofriam, tinham medo, se contradiziam e tentavam compreender o mundo por meio das palavras.
Ela voltou a sentar.
— Antes de Sergio, eu achava que poesia era uma coisa bonita que a gente precisava decorar.
— E depois?
— Descobri que poesia era uma coisa bonita que a gente precisava sentir.
Fez uma pausa.
— E, às vezes, nem bonita era. Às vezes incomodava, feria, denunciava, gritava.
Olhei para ela com admiração.
— Mirtes, você está me surpreendendo.
— Eu sou muito mais do que você imagina.
— Sei. Principalmente quando não está investigando a vida dos vizinhos.
— Ninguém é perfeito, Zora!
Eunice Linda, a professora que ensinava a pensar
— Mas teve outra pessoa — continuou Mirtes. — A professora Eunice Linda.
— Eunice Linda?
— Nome composto. E combinava perfeitamente com ela.
— Era bonita?
— Era apaixonada.
— Por alguém?
— Pela História!
Mirtes sorriu com uma ternura que raramente mostrava.
— Zora, aquela mulher entrava na sala de aula e parecia abrir uma janela para o mundo inteiro.
E começou a contar.
Eunice Linda ensinava História.
Mas não transformava o passado numa coleção de datas, reis, presidentes e batalhas.
Ela perguntava quem havia escrito os relatos.
Quem tinha poder para contar sua versão.
Quem tinha sido silenciado.
O que acontecia com as pessoas comuns enquanto os grandes personagens apareciam nos livros.
— Quando falava do Brasil colonial, não ficava apenas nos governadores e nas riquezas — explicou Mirtes. — Falava dos povos indígenas, da invasão de seus territórios, da escravização dos africanos, das resistências e das culturas que ajudaram a formar o país.
— E os alunos?
— Ninguém piscava!
— Nem você?
— Eu menos ainda!
Mirtes se inclinou para a frente.
— Quando falava das guerras mundiais, não se limitava aos mapas. Falava das famílias, dos deslocamentos, das vidas interrompidas, das decisões políticas e das consequências para as gerações seguintes.
— E quando falava de política?
— Aí era ainda melhor.
— Por quê?
— Porque ela não dizia em quem deveríamos acreditar. Ensinava a procurar evidências, comparar versões, entender interesses e questionar discursos.
Mirtes ficou séria.
— Uma vez, alguém perguntou qual era a versão verdadeira de determinado acontecimento.
— E ela respondeu?
— Que a História exige investigação. Que não basta gostar de uma versão para que ela seja verdadeira. E que nem todas as versões têm o mesmo respaldo nos documentos e nas evidências.
Sorri.
— Sábia professora.
— Muito.
— E o que você aprendeu com ela?
Mirtes me olhou.
— Aprendi que pensar por conta própria não é acreditar em qualquer coisa. É aprender a distinguir aquilo que sabemos daquilo que apenas queremos acreditar.
Fiquei alguns segundos sem falar.
Depois me levantei.
— Mirtes, venha cá.
— O quê?
— Deixe-me ver sua testa.
— Para quê?
— Estou procurando o lugar onde você esconde toda essa inteligência quando chega aqui com suas fofocas.
Ela me deu um tapa no braço.
E rimos como duas adolescentes.
Três professores, três maneiras de transformar uma vida
O café havia acabado.
A tarde começava a desaparecer entre os prédios que cercavam nossa pequena vila, aquele refúgio colorido perdido na selva de pedra de São Paulo.
Mirtes olhou para minhas cartas.
— Zora, você acha que os professores sabem o quanto mudam nossas vidas?
Pensei em Isaura.
Em Sergio.
Em Eunice Linda.
— Acho que alguns sabem. Mas muitos jamais terão a dimensão do que fizeram.
— Por quê?
— Porque o resultado do trabalho de um professor nem sempre aparece na prova da semana seguinte.
— Onde aparece?
— Na vida.
Fui até a estante e peguei um dos meus cadernos antigos.
— Isaura me ensinou a criar sem medo de errar.
Mirtes completou:
— Sergio me ensinou que as palavras carregam vidas inteiras.
Continuei:
— Eunice Linda ensinou você a investigar o mundo antes de aceitar aquilo que lhe dizem.
— E isso mudou minha maneira de viver, Zora.
— Como?
Mirtes pensou.
— Hoje, quando vejo uma notícia, procuro entender de onde veio. Quando escuto alguém defendendo uma ideia, tento descobrir o que está por trás dela. Quando preciso tomar uma decisão, não quero simplesmente repetir o que alguém me mandou pensar.
Sorri.
— Isso tem um nome.
— Qual?
— Liberdade intelectual.
Ela ficou quieta.
— E sabe o que é mais bonito? — acrescentei. — Um grande educador não precisa fabricar alunos que pensem exatamente como ele.
— Precisa fazer o quê?
— Ensinar seus alunos a pensar, inclusive quando chegarem a conclusões diferentes das suas.
O verdadeiro tamanho de um professor
Mirtes olhou para a rua.
— Engraçado, Zora. A gente fala tanto de pessoas importantes. Empresários, políticos, artistas, cientistas…
— E todos eles, em algum momento, precisaram aprender alguma coisa com alguém.
— Exatamente!
Ela ficou pensativa.
— Você já imaginou quantas pessoas passaram pela sala de aula da professora Isaura?
— Muitas.
— E quantas passaram pelas aulas de Sergio e Eunice Linda?
— Muitas outras.
— Agora imagina quantas vidas eles tocaram.
Pensei.
Uma professora ensina uma criança.
Aquela criança cresce.
Torna-se mãe, pai, profissional, artista, cientista, empreendedor, cidadão.
Ensina outras pessoas.
Compartilha ideias.
Faz escolhas.
Transforma pequenos pedaços do mundo.
E, talvez, muitos anos depois, nem se lembre exatamente de onde nasceu determinada maneira de pensar.
Mas ela nasceu em algum lugar.
Talvez numa redação incentivada.
Numa pergunta acolhida.
Num livro apresentado com paixão.
Numa aula de História que mostrou que o mundo era muito maior do que aquilo que aparecia na televisão.
— Mirtes, um professor não ensina apenas para o presente.
— Ensina para o futuro?
— Para futuros que talvez nem consiga imaginar.
Ela sorriu.
— Então ensinar é uma espécie de imortalidade?
Olhei para ela.
— Talvez uma das mais bonitas que existem.
A última lição
Mirtes se levantou.
Pegou a bolsa.
Caminhou até a porta.
Depois voltou.
— Zora?
— Sim?
— Você ainda tem contato com Isaura?
— Agora tenho.
— Então liga para ela.
— Para quê?
— Para agradecer de novo.
Sorri.
— Já agradeci.
— Agradece mais uma vez.
Olhei para Mirtes.
— E você? Sabe onde estão Sergio e Eunice Linda?
Ela ficou quieta.
— Não sei.
— Então procure.
— Para quê?
— Para fazer exatamente aquilo que acabou de me aconselhar.
Mirtes sorriu.
— Você acha que eles vão se lembrar de mim?
— Talvez sim. Talvez não.
— E se não lembrarem?
— Você se lembra deles. Isso já é motivo suficiente.
Ela ficou parada por alguns segundos.
Depois pegou o celular.
— Vou procurar.
— Ótimo.
— Mas, Zora…
— O quê?
— E se eu encontrar o Sergio e ele perguntar se ainda leio poesia?
— Você diz a verdade.
— Que leio pouco?
— Que ainda se emociona quando lê.
Ela sorriu.
— E se Eunice Linda perguntar se aprendi a pensar por conta própria?
Olhei para ela.
— Diga que sim.
— Mesmo eu vindo aqui perguntar tudo para você?
— Principalmente porque você aprendeu a perguntar.
Mirtes abriu um sorriso enorme.
E, pela primeira vez naquela tarde, fiquei emocionada com aquela mulher que costumava entrar em minha casa trazendo as notícias mais absurdas da vila.
Ela caminhou até a porta.
Antes de sair, virou-se.
— Zora, sabe de uma coisa?
— O quê?
— A professora Isaura ensinou você a desenhar árvores azuis.
— Ensinou.
— Sergio me ensinou a amar poesia.
— Sim.
— Eunice Linda me ensinou a questionar o mundo.
— Exatamente.
Mirtes respirou fundo.
— E você me ensinou que eu posso continuar aprendendo, mesmo depois de velha.
Arregalei os olhos.
— Depois de velha? Mirtes, você tem trinta e oito anos!
— Quase quarenta, segundo você!
— Retiro tudo. Sua formação ainda precisa de muitos ajustes.
Ela caiu na gargalhada.
E saiu pela vila.
Dessa vez, porém, não foi atrás de uma fofoca.
Foi atrás de dois professores.
Fiquei olhando a porta aberta.
Depois voltei à mesa.
Peguei meu baralho.
Pensei em quantas pessoas procuram nas cartas respostas sobre seu destino.
E em quantas respostas já receberam, sem perceber, de alguém que um dia segurou um giz, abriu um livro ou se sentou ao lado delas para dizer:
“Você consegue. Vamos tentar de novo.”
Naquela tarde, não precisei tirar nenhuma carta.
Porque compreendi que algumas das pessoas mais importantes de nossas vidas não aparecem nos grandes acontecimentos.
Aparecem nas pequenas salas de aula.
E permanecem conosco muito depois que a última aula termina.
A frase de Zora
“Um grande professor não ensina apenas o que está nos livros. Ele desperta aquilo que existe dentro de nós e que, sem sua presença, talvez jamais tivéssemos coragem de descobrir.”
O que essa história deixa
Isaura ensinou uma criança a imaginar. Sergio mostrou que a literatura é feita de vidas, sentimentos e humanidade. Eunice Linda ensinou que conhecer a História é também aprender a questionar o presente.
Três educadores. Três caminhos. Uma mesma grandeza: não entregaram apenas conhecimento; ajudaram a formar pessoas capazes de criar, sentir, compreender e decidir.
A verdadeira força da educação não está em produzir pessoas que repetem respostas, mas em formar seres humanos capazes de fazer perguntas, respeitar diferenças e transformar a realidade.
E talvez o maior reconhecimento que possamos oferecer a um professor seja procurá-lo, mesmo depois de muitos anos, e dizer:
“Você talvez não se lembre de mim. Mas existe muito de você na pessoa que me tornei.”
Porque uma aula termina quando toca o sinal. Mas uma verdadeira educação continua por toda a vida.
