
Em um mundo em que a Inteligência Artificial responde quase instantaneamente, talvez uma das nossas maiores necessidades seja reaprender a escutar, compreender e criar com propósito.
Estamos aprendendo a perguntar. Mas será que sabemos escutar?
Vivemos uma época fascinante.
Podemos fazer uma pergunta e receber uma resposta em segundos.
Podemos solicitar um texto, uma imagem, um roteiro, um plano de negócios ou até o protótipo de um aplicativo.
As possibilidades parecem crescer a cada dia.
Mas existe uma questão que me acompanha há muitos anos:
Será que nossa capacidade de compreender está evoluindo na mesma velocidade que nossa capacidade de produzir respostas?
Essa reflexão me faz lembrar de Rubem Alves e de seu belíssimo pensamento sobre a escutatória.
Em um mundo que valoriza tanto a capacidade de falar, argumentar e convencer, ele nos convida a reconhecer a importância de escutar.
E escutar é muito diferente de simplesmente ouvir.
Ouvir pode ser um ato quase automático.
Escutar exige atenção, interesse e disposição para compreender.
A tecnologia pode acelerar respostas. Mas não substitui a escuta humana
Imagine uma empresa que recebe dezenas de reclamações sobre seu atendimento.
Um sistema de Inteligência Artificial pode organizar essas mensagens, identificar palavras recorrentes e produzir um resumo dos principais problemas.
Isso é extremamente útil.
Mas será que o resumo consegue revelar toda a frustração de um cliente que se sentiu desrespeitado?
Será que identifica, com segurança, todas as dificuldades de um colaborador que não consegue executar corretamente determinada atividade?
A tecnologia pode ajudar a identificar padrões.
Mas compreender pessoas exige algo mais.
Exige presença, sensibilidade, contexto e disposição para ouvir aquilo que talvez não gostaríamos de escutar.
Em minha trajetória profissional, aprendi que muitos problemas persistem não porque faltam informações, mas porque as pessoas responsáveis pelas decisões não dedicaram tempo suficiente para compreender a realidade.
A armadilha de querer responder antes de entender
Quantas vezes participamos de reuniões em que alguém começa a explicar uma dificuldade e outra pessoa já apresenta uma solução?
O problema mal foi descrito.
As causas ainda não foram investigadas.
As pessoas envolvidas não tiveram oportunidade de falar.
Mas a resposta já está pronta.
Com a Inteligência Artificial, corremos o risco de reproduzir esse comportamento em velocidade ainda maior.
A máquina responde rapidamente.
Nós nos impressionamos com a organização do texto.
E seguimos adiante sem perguntar se a resposta realmente corresponde à necessidade.
Por isso, gosto de começar qualquer projeto compreendendo o cenário, o demandante e os objetivos.
Antes de
- desenvolver um aplicativo, precisamos conversar com quem irá utilizá-lo.
- propor uma campanha, precisamos compreender o público.
- automatizar um processo, precisamos descobrir por que ele existe e se realmente funciona.
Uma resposta tecnicamente correta pode ser completamente inútil quando não corresponde ao problema verdadeiro.
A criatividade também precisa de liberdade
Existe outro aprendizado que considero fundamental: não devemos acreditar que uma solução é única ou eterna.
O mundo muda.
As pessoas mudam.
Os negócios mudam.
E aquilo que funcionou ontem pode não funcionar amanhã.
Sempre gostei de utilizar brainstormings para estimular a criação de alternativas.
Nesse processo, aprendemos a permitir que ideias surjam antes de julgá-las.
Às vezes, uma sugestão aparentemente absurda abre caminho para algo extraordinário.
A Inteligência Artificial pode ampliar essa capacidade de experimentar.
Podemos pedir alternativas, comparar cenários, imaginar soluções e testar hipóteses.
Mas precisamos preservar nossa disposição de questionar.
Não devemos aceitar uma resposta apenas porque foi apresentada com segurança.
Também não devemos rejeitar uma ideia simplesmente porque é diferente daquilo que conhecemos.
A criatividade precisa de liberdade.
A decisão precisa de responsabilidade.
E se utilizássemos a IA para construir projetos que continuam evoluindo?
Uma das possibilidades que mais me interessam é a criação de projetos de trabalho com Inteligência Artificial.
Em vez de utilizar a ferramenta apenas para perguntas isoladas, podemos organizar informações, documentos, orientações e objetivos relacionados a determinado assunto.
Imagine um empreendedor que cria um projeto para acompanhar seu planejamento estratégico.
Ele registra os objetivos da empresa, as características dos clientes, os indicadores disponíveis e as iniciativas que pretende desenvolver.
Periodicamente, revisita esse projeto para avaliar resultados, comparar alternativas e atualizar decisões.
A tecnologia pode ajudar a manter o trabalho organizado e facilitar novas análises.
Mas existe uma condição importante: os dados precisam estar atualizados, as respostas devem ser verificadas e as decisões relevantes continuam exigindo supervisão humana.
A IA não deve transformar nosso planejamento em algo automático e irrefletido.
Deve nos ajudar a aprender continuamente.
Seja você mesmo diante da máquina
Existe um princípio que considero indispensável.
Quando utilizamos a Inteligência Artificial, precisamos ser claros e verdadeiros sobre nossas necessidades.
Se apresentamos um problema diferente do real, podemos receber uma solução adequada a uma realidade que não existe.
Se escondemos limitações importantes, a IA poderá sugerir ações impossíveis de executar.
Não precisamos impressionar a máquina. Precisamos utilizar a ferramenta para compreender melhor aquilo que desejamos realizar.
Isso não significa expor informações privadas ou confidenciais.
Significa apresentar honestamente as condições relevantes para a tarefa.
Uma solução construída sobre uma realidade inventada pode parecer brilhante, mas dificilmente servirá à nossa vida.
Apaixone-se pelo projeto, não pela ferramenta
Ao longo da minha vida, participei de atividades muito diferentes.
Trabalhei com planejamento, administração, finanças, indicadores, tecnologia, comunicação e desenvolvimento de negócios.
E percebi que os projetos mais significativos eram aqueles nos quais conseguia reconhecer um propósito verdadeiro.
Não basta dominar ferramentas.
Precisamos saber por que desejamos utilizá-las.
A Inteligência Artificial pode ajudar alguém a escrever um livro, criar uma empresa, desenvolver um aplicativo ou produzir um vídeo.
Mas a pergunta mais importante continua sendo humana:
Por que quero realizar esse projeto?
A tecnologia pode apoiar a execução.
Pode apresentar alternativas.
Pode ajudar a organizar informações e identificar dificuldades.
Mas não deve substituir nossa responsabilidade de escolher aquilo que faz sentido construir.
E paixão, naturalmente, não significa ausência de planejamento.
Um projeto também exige disciplina, recursos, conhecimento, avaliação e capacidade de corrigir caminhos.
A paixão nos mobiliza. A gestão nos ajuda a transformar essa energia em resultados.
O futuro que desejo construir
Não quero um mundo em que as pessoas deixem de pensar porque as máquinas produzem respostas.
Quero um mundo em que a tecnologia nos permita pensar melhor.
Não quero que deixemos de criar porque os sistemas conseguem gerar conteúdos.
Quero que possamos experimentar ideias que antes pareciam impossíveis.
Não quero que a velocidade das ferramentas nos faça perder a capacidade de escutar.
Quero que tenhamos mais tempo para compreender pessoas, compartilhar conhecimento e construir relações significativas.
Depois de mais de quarenta anos convivendo com a evolução tecnológica, continuo acreditando na força do encontro entre conhecimento, experiência, criatividade e humanidade.
A Inteligência Artificial pode ampliar nossas capacidades. Mas cabe a nós decidir que mundo queremos construir com elas.
Vamos conversar sobre isso?
No dia 20 de outubro de 2026, às 20h, conduzirei o workshop “A Inteligência Artificial não é o futuro, é o agora”, promovido pela RNB Cursos.
Será um encontro online e participativo, pelo Google Meet, no qual compartilharei oito princípios que desenvolvi ao longo de mais de quatro décadas convivendo com máquinas, pessoas, ideias e transformações.
Não será uma aula técnica. Será uma oportunidade de refletir, aprender e descobrir maneiras de utilizar a IA como parceira em nossas atividades.
Os inscritos receberão como presente o e-book “A tecnologia evolui. E nós? — IA, Vivências e Experiências”, com o conteúdo da palestra e um anexo prático sobre conceitos, ferramentas, prompts e projetos de Inteligência Artificial.
A inscrição inclui certificado.
Inscrições: https://pag.ae/82ezyg64n
Informações: (21) 97199-8709
Espero vocês!
