
De Freddie Mercury a Elton John, de Cássia Eller a Gilberto Gil, o festival tornou possível algo que vai muito além de assistir a um show: encontrar ao vivo artistas que fizeram parte da história de nossas vidas.
Em 1985, realizar no Brasil um festival daquela dimensão parecia quase uma loucura.
O país vivia um momento de transformação, saía de um longo período de ditadura e dava novos passos em direção à democracia. Foi justamente naquele cenário que nasceu o Rock in Rio.
E nasceu enorme.
A primeira Cidade do Rock ocupou 250 mil metros quadrados, recebeu 1,38 milhão de pessoas em dez dias e colocou no mesmo evento 15 atrações nacionais e 16 internacionais. O palco, com 80 metros de boca de cena, era considerado o maior do mundo naquele momento.
Mas talvez o número mais importante não estivesse no tamanho do palco.
Estava naquilo que aquele palco dizia: O Brasil consegue colocar seu público diante de alguns dos maiores artistas do planeta.
E então Freddie Mercury perguntou: “vocês conhecem esta música?”
Quem viveu 1985 provavelmente sabe do que estou falando.
Queen no palco.
Freddie Mercury diante daquela multidão.
E milhares de brasileiros transformando uma canção em um enorme coro coletivo.
O próprio Rock in Rio considera a apresentação de Queen em 1985 um dos momentos mais memoráveis de sua história.
Mas naquele primeiro festival tivemos muito mais.
Vieram AC/DC, Iron Maiden, Ozzy Osbourne, Scorpions, Rod Stewart, Yes, James Taylor, George Benson, Nina Hagen, The B-52’s e Al Jarreau, entre outros.
E havia Brasil naquele palco.
Ney Matogrosso foi o primeiro artista a se apresentar na história do festival.
Também estavam ali nomes como Gilberto Gil, Elba Ramalho, Ivan Lins, Alceu Valença, Lulu Santos, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Kid Abelha, Blitz e Pepeu Gomes.
Isso é muito importante.
O Rock in Rio nunca foi apenas uma janela para vermos o mundo.
Também se tornou uma enorme janela para o mundo olhar para a música brasileira.
Quantos mestres passaram por aqui?
Seria impossível fazer uma lista completa.
E talvez seja justamente essa impossibilidade que revele a dimensão do festival.
Ao longo das diferentes edições brasileiras, passaram pelos palcos nomes que atravessaram gerações.
Imagine quantos sonhos existem apenas nessa relação.
Para algumas pessoas, assistir a esses artistas significou conhecer o ídolo da adolescência.
Para outras, foi levar um filho para conhecer uma banda que ouviam juntos.
E para outras ainda, significou algo delicioso: voltar a ter 16 anos durante duas horas, mesmo que o documento diga 40, 50, 60 ou 70.
É por isso que gosto de dizer que grandes festivais são feitos para jovens de todas as idades.
Eu mesmo só consegui ir aos 50 anos. Mas realizei meu sonho.
Alguns parecem ter endereço no Rock in Rio
Há artistas cuja relação com o festival ultrapassou uma única apresentação.
Iron Maiden tornou-se um dos símbolos dessa relação entre o público brasileiro e o heavy metal.
Guns N’ Roses protagonizou apresentações históricas desde 1991.
Red Hot Chili Peppers marcou especialmente a edição de 2001, o próprio festival recorda aquela apresentação entre seus grandes momentos históricos.
Entre os brasileiros, alguns nomes praticamente fazem parte da família Rock in Rio.
Ivete Sangalo construiu uma relação impressionante com a marca, incluindo apresentações em diferentes países e edições.
Capital Inicial, Paralamas do Sucesso e Sepultura também atravessaram diferentes momentos do festival.
E isso mostra outra transformação importante.
O festival que nasceu chamado Rock in Rio tornou-se, com o passar dos anos, muito maior musicalmente do que a palavra “rock”.
E ainda bem
Porque o Brasil também é assim.
Somos rock.
- Mas somos samba.
- MPB.
- Funk.
- Forró.
- Sertanejo.
- Rap.
- Trap.
- Pagode.
- Axé.
- Eletrônica.
- Bossa nova.
- Música amazônica.
E inúmeras misturas que talvez nem precisem receber um nome.
Em 2024, na celebração dos 40 anos, o festival realizou pela primeira vez um dia inteiro com line-up 100% brasileiro, reunindo diferentes gêneros e gerações. Foram 730 mil pessoas na Cidade do Rock durante os sete dias daquela edição.
E em 2026 essa diversidade continua.
Neste sábado, por exemplo, o Palco Mundo reúne Maroon 5, Demi Lovato, J Balvin e Pedro Sampaio; no Sunset aparecem Mumford & Sons, João Gomes & Orquestra Brasileira e Gilsons convidando Daniela Mercury e Olodum, entre outros encontros.
Isso é fantástico.
Um festival internacional realizado no Brasil não precisa diminuir nossa cultura para receber a cultura do mundo.
Cabe todo mundo no palco.
Em 2026, uma cena diz muito sobre tudo isso
Nesta edição, tivemos Elton John e Gilberto Gil no mesmo dia do Palco Mundo, em 7 de setembro.
Pare um instante e pense nessa combinação.
Elton John nasceu em 1947.
Gilberto Gil, em 1942.
Dois homens que atravessaram décadas de transformações sociais, culturais, tecnológicas e musicais.
Dois gigantes.
Dois repertórios que acompanharam milhões de vidas.
E milhares de jovens diante deles.
Alguns jovens de 18,outros de 30, outros de 50 e muitos outros de 70.
É exatamente disso que estou falando.
Música consegue fazer aquilo que poucas coisas conseguem: colocar gerações diferentes sentindo alguma coisa juntas.
E o Brasil também mostra que sabe receber
Existe ainda outra dimensão que não podemos ignorar.
Um evento desse tamanho mostra ao mundo nossa capacidade de receber grandes acontecimentos.
- É hotelaria.
- Restaurantes.
- Transporte.
- Segurança.
- Tecnologia.
- Limpeza.
- Produção.
- Montagem.
- Iluminação.
- Som.
- Alimentação.
- Turismo.
- Comunicação.
Centenas de fornecedores e milhares de profissionais trabalhando para que, durante algumas horas, o público simplesmente olhe para o palco e pense que tudo aconteceu naturalmente.
Grandes espetáculos são construídos por uma enorme quantidade de pessoas que quase nunca aparecem no palco.
A história oficial do festival contabiliza milhões de espectadores e centenas de milhares de empregos gerados ao longo de sua trajetória internacional.
E existe ainda algo difícil de colocar numa planilha.
A hospitalidade brasileira. O estrangeiro que chega encontra um país que canta junto, dança, conversa, acolhe.
Que transforma plateia em parte do espetáculo.
Aliás, já em 1985 aconteceu algo simbólico: segundo a história oficial do festival, foi ali que, pela primeira vez em um grande show, a iluminação da plateia passou a fazê-la participar visualmente do espetáculo.
Talvez não pudesse ter acontecido em lugar mais apropriado.
Porque brasileiro dificilmente aceita ser apenas espectador.
O festival também exportou o Brasil
Existe outra conquista extraordinária.
O Rock in Rio deixou de ser apenas um evento realizado no Brasil.
Virou uma marca brasileira que atravessou fronteiras.
Em 2004 chegou a Lisboa. Depois vieram outras experiências internacionais, incluindo Madrid e Las Vegas.
Isso também é cultura brasileira exportada.
Uma ideia que nasceu no Rio de Janeiro mostrou que poderia viajar pelo mundo.
Quando discutimos inovação brasileira, empreendedorismo e capacidade de realização, talvez devêssemos lembrar mais disso.
Roberto Medina não importou um festival. Criou um.
Mas, para mim, ainda existe algo maior
Podemos falar de
- Economia.
- Turismo.
- Empregos.
- Imagem internacional.
- Infraestrutura.
- Marcas.
- Patrocínios.
- Tecnologia.
Tudo isso importa.
Mas quero terminar falando daquela pessoa no meio da multidão.
Ela esperou 20, 30 ou talvez 40 anos para ver aquele artista.
Conhece cada música.
Lembra onde estava quando ouviu determinado disco.
Uma canção lembra o primeiro amor.
Outra lembra os amigos.
Outra lembra alguém que já não está mais aqui.
As luzes se apagam.
O artista entra.
E, por algumas horas, aquela pessoa não está apenas assistindo a um show.
Está encontrando uma parte da própria vida.
Foi assim com Freddie Mercury.
Foi assim com Prince.
Com Cássia Eller.
Com George Michael.
Com Tina Turner.
Com David Bowie.
Com tantos que já partiram.
E será assim com muitos outros.
É por isso que precisamos valorizar eventos dessa dimensão.
Não apenas porque movimentam dinheiro.
Não apenas porque trazem turistas.
Não apenas porque mostram ao mundo que sabemos realizar grandes eventos.
Mas porque cultura também é memória.
E memória também constrói um país.
Amanhã outra multidão entrará na Cidade do Rock.
Alguns estarão conhecendo seu primeiro grande festival.
Outros provavelmente dirão:
— Eu estava lá em 1985.
E talvez um adolescente olhe sem acreditar.
É lindo pensar nisso.
Quarenta e um anos depois, continuam lado a lado.
Porque talvez essa seja uma das maiores realizações do Rock in Rio: ele não trouxe apenas grandes artistas para o Brasil. Trouxe gerações inteiras para perto umas das outras.
E enquanto houver alguém esperando as luzes se apagarem para finalmente encontrar seu ídolo, haverá ali muito mais do que um festival.
Haverá um sonho prestes a subir ao palco.
Conheça a história oficial do Rock in Rio
Veja a programação oficial do Rock in Rio 2026

