
Quando pensamos na alimentação do futuro, nossa imaginação costuma correr para laboratórios, novas tecnologias, alimentos desenvolvidos industrialmente e soluções capazes de responder ao crescimento da população e às mudanças ambientais.
Mas existe outra possibilidade.
Talvez uma parte importante da alimentação do futuro não precise ser inventada.
Talvez precise ser redescoberta.
Ela pode estar em uma folha que cresce espontaneamente no quintal, numa planta que aprendemos a chamar de “mato”, numa flor que nunca imaginamos colocar no prato ou em espécies que fizeram parte da alimentação de nossos antepassados e que, aos poucos, desapareceram da nossa rotina.
É nesse universo que encontramos as PANCs — Plantas Alimentícias Não Convencionais.
E falar sobre elas é falar de alimentação, biodiversidade, cultura, sustentabilidade, saúde e, principalmente, de oportunidades para o futuro.
Quando começamos a comer cada vez menos variedades
Ao longo do desenvolvimento das sociedades urbanas, nossa alimentação tornou-se extremamente prática.
Encontramos praticamente os mesmos produtos nos supermercados, independentemente da cidade onde estamos. Criamos cadeias de produção eficientes, desenvolvemos técnicas de conservação e conseguimos transportar alimentos por enormes distâncias.
Tudo isso representou avanços importantes.
Mas também fomos diminuindo nossa intimidade com a diversidade de plantas que podem fazer parte da alimentação humana.
Muitas espécies conhecidas e consumidas regionalmente deixaram de aparecer nos pratos. Outras continuaram existindo nos quintais, terrenos, pequenas propriedades e comunidades, mas passaram a ser ignoradas como alimentos.
É interessante perceber como nossos olhos foram sendo treinados.
Reconhecemos imediatamente uma alface.
Mas podemos passar ao lado de uma planta com potencial alimentício e enxergá-la simplesmente como mato.
Por isso, quando falamos em PANCs, não estamos necessariamente falando de plantas raras ou recém-descobertas.
Estamos falando também de conhecimento perdido, esquecido ou pouco difundido.
E recuperá-lo pode ser extremamente importante.
O futuro pode exigir mais diversidade
As próximas décadas provavelmente nos obrigarão a pensar de maneira diferente sobre a produção e o consumo de alimentos.
Mudanças climáticas, crescimento das cidades, necessidade de redução de desperdícios, preservação da biodiversidade, segurança alimentar e busca por sistemas produtivos mais sustentáveis deverão ocupar cada vez mais espaço nas discussões sobre alimentação.
Nesse cenário, ampliar nosso conhecimento sobre espécies alimentícias pode representar uma enorme oportunidade.
As PANCs podem contribuir para diversificar a alimentação e estimular o cultivo local e comunitário.
Mais do que simplesmente perguntar: “O que podemos plantar?”
podemos começar a perguntar: “Quantas possibilidades alimentares existem ao nosso redor que ainda não aprendemos a reconhecer?”
Essa mudança de olhar é poderosa.
Uma planta pode alimentar. Mas o conhecimento também alimenta.
Existe algo particularmente bonito quando uma pessoa aprende que determinada planta pode ser utilizada na alimentação.
Ela passa a enxergar aquele espaço de maneira diferente.
A horta deixa de ser apenas um lugar de produção.
Transforma-se em sala de aula.
O canteiro vira laboratório.
A pessoa que conhece determinada planta passa seu conhecimento para outra. O conhecimento popular encontra a universidade. A experiência de quem planta encontra a pesquisa de quem estuda. Nutrição, enfermagem, farmácia, medicina, biologia, psicologia, educação e outras áreas podem conversar.
E aquilo que parecia apenas uma folha ganha significado.
É justamente aqui que vejo uma das maiores oportunidades das PANCs para o futuro: elas podem aproximar ciência, comunidade e saber tradicional.
Mas essa aproximação precisa acontecer com responsabilidade.
Nem tudo que é natural é automaticamente seguro para consumo. É fundamental identificar corretamente as espécies, conhecer quais partes são comestíveis, formas adequadas de preparo, possíveis restrições e condições seguras de cultivo.
Por isso, a universidade tem um papel extraordinário nesse processo.
Não apenas cultivando.
Mas pesquisando, validando, ensinando e compartilhando conhecimento.
Da horta para a comunidade
Imagine o potencial de uma horta comunitária capaz de oferecer oficinas para ensinar pessoas a reconhecer, cultivar e preparar diferentes espécies.
E se tivessemos estudantes participando desse processo.
Imagine profissionais da saúde discutindo alimentação e prevenção.
E pesquisadores avaliando possibilidades de cultivo e utilização.
Imagine ainda receitas sendo recuperadas junto às famílias e comunidades.
Ou crianças descobrindo que comida não nasce numa embalagem.
Imagine pessoas idosas compartilhando conhecimentos que aprenderam com seus pais e avós.
Nesse momento, deixamos de falar apenas de agricultura.
Passamos a falar de cultura, educação, saúde e pertencimento.
E talvez seja justamente essa integração que precisaremos recuperar nas cidades do futuro.
Do alimento ao cuidado
Quando iniciamos o projeto no HU-USP, nossa intenção era aproveitar uma área existente para criar uma horta comunitária, incentivar uma alimentação saudável e produzir alimentos de baixo custo, incluindo as PANCs.
Mas o projeto começou a crescer conceitualmente.
Com a participação do farmacêutico Belmiro surgiu uma nova provocação: por que não incluir também plantas medicinais?
Começamos então a construir uma ideia ainda maior, aproximando horta comunitária, PANCs e Farmácia Viva.
O que inicialmente poderia parecer apenas o aproveitamento de um espaço tornou-se uma oportunidade de integração entre trabalhadores, alunos, professores e comunidade.
O canteiro começou a adquirir outro significado.
Uma oportunidade para a saúde do futuro
Como profissional de enfermagem, acredito profundamente no cuidado.
E cuidar não deveria começar apenas quando alguém adoece.
Precisamos fortalecer uma cultura de promoção da saúde, educação, alimentação equilibrada, prevenção e conhecimento.
Isso não significa substituir a medicina, medicamentos ou tratamentos cientificamente indicados por plantas ou alimentos.
Significa compreender que saúde é muito maior do que tratar uma doença instalada.
Alimentação, ambiente, relações humanas, atividade física, condições sociais, educação e acesso à informação também fazem parte dessa construção.
Uma horta dentro de um ambiente universitário e hospitalar pode ser um espaço privilegiado para discutir exatamente isso.
As PANCs também podem gerar novas oportunidades
Existe ainda uma dimensão que merece nossa atenção.
Quanto mais aprendermos sobre biodiversidade alimentar, mais possibilidades poderão surgir.
- Novos produtos.
- Novas receitas.
- Pequenos produtores especializados.
- Gastronomia baseada em ingredientes regionais.
- Hortas urbanas.
- Projetos comunitários.
- Educação alimentar.
- Pesquisa acadêmica.
- Programas de sustentabilidade.
- Empreendedorismo social.
- Preservação de espécies e conhecimentos tradicionais.
Talvez alguns alimentos hoje considerados pouco conhecidos passem a ocupar restaurantes, feiras, escolas, projetos sociais e mesas familiares.
O que hoje é chamado de “não convencional” pode deixar de ser tão não convencional assim.
E essa mudança começa pelo conhecimento.
Talvez o futuro seja uma volta inteligente ao passado
Durante muito tempo, associamos evolução a abandonar práticas antigas e substituí-las por soluções modernas.
Hoje começamos a compreender que essa lógica nem sempre funciona.
Existem conhecimentos antigos extraordinariamente valiosos.
O desafio não é simplesmente voltar ao passado.
É recuperar aquilo que havia de bom nele e permitir que a ciência, a pesquisa e o conhecimento contemporâneo nos ajudem a utilizá-lo melhor.
Nossos antepassados observavam a natureza porque dependiam dela.
Nós desenvolvemos tecnologias incríveis, mas talvez tenhamos perdido parte dessa capacidade de observar.
Por isso gosto de pensar que o futuro da alimentação poderá ser uma espécie de reencontro.
Tecnologia de um lado. Sabedoria ancestral do outro. Ciência fazendo a ponte entre as duas.
E é por isso que acredito tanto no Quintal HU
Quando olho para o projeto da Horta do HU-USP, não vejo simplesmente canteiros.
Vejo possibilidades.
O projeto nasceu do desejo de recuperar um espaço e aproximar pessoas. Passou pela horta comunitária, incorporou PANCs e plantas medicinais, aproximou-se da proposta de Farmácia Viva e ganhou força com a participação de funcionários, professores e estudantes.
Isso demonstra algo muito importante: um pequeno pedaço de terra pode se transformar em um enorme território de conhecimento.
O Quintal HU pode ensinar a plantar, mas pode também ensinar a pesquisar.
Pode produzir alimentos, mas pode produzir conhecimento.
Assim como pode preservar plantas, mas pode preservar memórias.
Aproximar universidade e comunidade.
Estimular sustentabilidade, saúde e prevenção.
Formar estudantes mais atentos à realidade que existe além das salas de aula.
E pode mostrar que um hospital universitário também pode ser um lugar onde se discute saúde antes mesmo da doença chegar.
Por isso, talvez a pergunta que deu origem a toda essa história — “Uma horta comunitária ou um canteiro laboratório?” — já tenha encontrado sua resposta.
Pode ser os dois.
E pode ser ainda muito mais.
O Quintal HU-USP representa a possibilidade de transformar terra em alimento, alimento em conhecimento, conhecimento em cuidado e cuidado em comunidade.
Em um mundo preocupado em descobrir como será a alimentação do futuro, talvez projetos como este estejam silenciosamente plantando algumas das respostas.
E isso torna cada muda, cada aluno envolvido, cada oficina, cada pesquisa e cada pessoa que coloca as mãos naquela terra parte de algo muito maior.
Porque algumas das grandes ideias para o futuro não começam em uma tela ou em um laboratório sofisticado. Algumas começam quando alguém olha para um pequeno canteiro e percebe tudo o que ainda pode nascer dali.

