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Crônica do tempo que me falta

24 horas é pouco num dia…

Hoje, pela manhã, olhei atentamente para as cortinas do quarto da minha filha mais velha (sou mãe de 3), algumas manchas me chamaram a atenção. 

Senti um desânimo tomando conta dos meus pensamentos, as cortinas estavam sujas, muito sujas. 

Parei um momento para refletir quando foi a última vez que elas foram lavadas com água e sabão, porque lavada com água da chuva não seria justo considerar, não é mesmo? 

Enfim, não consegui me lembrar e perdida nos meus pensamentos, fiquei alguns instantes analisando tudo o que eu achava que precisava fazer: organizar armários, preparar aulas, fazer faxinas mais pesadas na casa, corrigir textos, ler livros, escrever artigos…, mas falta tempo!    

Então, sem tempo para devaneios, me sentei no computador para tentar fazer algo em pleno feriado, sou professora e isso tem acontecido com frequência (trabalhos em finais de semana, feriados, reuniões fora do horário de expediente etc.). 

Isso tem acontecido periodicamente porque a pandemia trouxe a possibilidade do trabalho remoto, mas também trouxe uma percepção de tempo, um tanto quanto estranha. 

A impressão que tenho é que estamos trabalhando o tempo todo, todo o tempo estamos a produzir algo, seja nos afazeres domésticos ou no trabalho. 

A mente sempre ocupada com algo que precisamos fazer, precisamos entregar, precisamos…precisamos. 

Bem, após uns 15 minutos de trabalho, começou o caos: crianças chorando e com comportamentos desafiadores, marido enlouquecido e eu sem um mínimo de concentração para responder um e-mail sequer. 

Lembro-me de ter olhado para minha lista de tarefas (gigantesca, diga-se de passagem), olhei para o computador…para a lista de tarefas…e novamente para o computador e neste momento um dos meus filhos entrou e disse aos berros:

– Mamãe eu quero ir embora! (os dois menores estavam brigando).

– Filho, a mamãe tem que trabalhar, espera só mais um pouquinho que eu já termino aqui. 

Quem tem filhos sabe que as coisas não funcionam assim, e realmente não funcionou. Eu sabia que ele não queria ir embora no sentido literal da frase, mas algo na frase dele me fez pensar. 

Foi então, que tomada por uma consciência das minhas circunstâncias, sem pensar muito, apenas olhando para a minha realidade imediata, me coloquei em pé…me levantei e deixei meus instintos como guia. 

Peguei alguns potes de tinta, pincéis, folhas e arrumei um pequeno ateliê no chão da minha sala. Sentei no chão, próxima da mais velha que adora um toque, e fazendo carinho nela liguei uma música. 

Toda essa operação não durou mais do que 10 minutos e então era possível no meio das cores e música sentir a paz! Sim, no meio do amarelo, azul, verde, rosa e vermelho era possível sentir a música e a tranquilidade.     

Mais do que a paz genuína a impressão que eu tive naquele momento é que as coisas estavam exatamente no seu lugar: crianças mais novas brincando, a mais velha interagindo, tintas não controladas, a música envolvendo o ambiente. Risos no lugar de choros, inspiração no lugar de impaciência, cooperação no lugar de competição e alegria. 

O tempo então foi passando, ou melhor, acontecendo, ânimos foram se acalmando…e sim, tudo estava no seu lugar: eu, o ambiente, as crianças, até o marido que neste momento foi para a cozinha preparar o jantar e o tempo, sim, o tempo estava no seu lugar também, pelo menos, era essa a impressão que eu tinha.  

Depois do banho nos três, por causa das tintas descontroladas, mais música, gritos e risos se misturavam e tudo estava mais calmo. 

Logo o dia terminou, colocamos as crianças na cama e ainda sobrou tempo para organizar e-mails, corrigir um texto e verificar a agenda do próximo dia. 

Não foi dessa vez que sobrou tempo para as cortinas, mas…foi então que percebi e pensei sobre o tempo que não tenho e esse pensamento me levou reflexões que se perduram até hoje. 

Eu não tenho o tempo que eu quero, porém tenho o tempo que eu preciso, o tempo que sou insubstituível, o tempo que em os meus precisam de mim e de certa forma eu preciso deles. 

Foram as escolhas de vida que eu fiz que trouxeram para essa dimensão do tempo que tenho hoje, ou, se preferir, do tempo que não tenho! 

Esse dia e a magia dele ficarão marcados para sempre em meu coração, pois me ensinou que quando nos levantamos e servimos a nossa circunstância, ou seja, a nossa realidade… coisas extraordinárias acontecem! 

Olhe para o tempo que te falta e preencha essa falta com suas circunstâncias, amor, música e um pouco de tinta. 

Vai por mim, é M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O! 

Ah, e a cortina, sei lá, talvez na próxima chuva ela melhore, pois tenho certeza que ela não precisa tanto de mim como os meus filhos!!!