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A partir da biblioterapia

LER pode ser a solução

Aqui em minha casa, minha vida, o inclassificável 2020, não foi sempre caos.

Em 2020, acompanhei pelo Instagram da Carla Souza, especialista no tema, uma jornada sobre biblioterapia, em sua página @dosesdebiblioterapia

Em meio a uma semana totalmente atípica no sul do país, onde moramos, com uma sequência de vendavais destruidores que acarretaram dias seguidos sem água, energia elétrica e sinal de internet.

Ainda assim, ela deu conta de honrar a programação proposta em sua página, e trouxe ao público um conteúdo muito rico, com tantas referências, vindas dos livros, mas também das próprias relações vivas, ativas, de modos de olhar, de quem fala com autoridade sobre essa atividade.

A biblioterapia, ainda não tão conhecida entre nós, aos poucos vai se disseminando. 

Isso em termos acadêmicos: pois, como Carla bem frisou, não é de hoje que as histórias permeiam a vida humana. 

Vão muito além de estar em livros, no cinema, no teatro; e até do vínculo à forma escrita.

As histórias permeiam o próprio dinamismo humano de viver e se relacionar, seja com os outros, com o meio ambiente ou consigo mesmo.

Então, considerando “biblioterapia” como uma atividade onde se cuida do ser utilizando a literatura como ferramenta, focando a atenção no efeito desse processo, diga-se, valorizando o que a leitura causa na pessoa ouvinte.

Pode-se dizer que, embora seja uma “área relativamente nova” no universo acadêmico, ao mesmo tempo talvez também seja uma prática tão antiga quanto a própria vida humana, de forma espontânea e descompromissada quanto as nomenclaturas teóricas.

Ao final da semana, que contou com várias entrevistas cheias de compartilhamentos de experiências riquíssimas dentro dessa prática, Carla presenteou o público com uma rápida prática de biblioterapia. 

Para isso, utilizou um trecho da crônica

“Para quem será?”, de Rubem Alves:

Cada pessoa tem um tesouro que é único, só seu. No meu tesouro há uma quantidade enorme de coisas absolutamente inúteis, que não têm nenhum valor de mercado. Livros usados, alguns, os que mais amo, já caindo aos pedaços (…). Quadros. (…) Livros de poesia, literatura, arte, jardins. Um peso de papel de vidro verde-claro. Fotografias. Cartas. Memórias. Parece estranho, mas o fato é que memórias são também objetos que acumulamos. Estão guardadas no nosso tesouro. Há umas memórias das quais me livraria com prazer. (…) Mas há as memórias que amo. Curioso: nenhuma delas é sobre acontecimentos importantes. São memórias-brinquedo: fico brincando com elas. E isso me faz feliz. (…) uma infinidade de cenas, como se fossem fotografias, que ficaram gravadas na minha memória.

Feita a leitura, ela convidou seu público a dividir, ao vivo, algumas de suas melhores memórias-brinquedo. 

Eu não acompanhei essa dinâmica ao vivo, e sim dois dias depois, acessando o conteúdo que ficou salvo.

E até assim, na reprise, essa experiência foi como um portal levando a riquezas feitas dos tesouros que só cabem a mim. 

Minha melhor memória-brinquedo, sem nenhuma dúvida, é feita todinha de palavras: pegava uma folha de caderno pequeno e tinha de preenchê-la, a lápis, do começo da primeira linha até o fim da última linha, com uma só frase. 

Era sempre uma oração interrogativa. 

Começava com “Você sabia que” e, até o momento redentor de fechar com a cereja do bolo, digo, com o ponto de interrogação, a brincadeira tinha tempo de sobra para resultar num sequenciamento de palavras inteiramente sem-pé-nem-cabeça, o que me divertia horrores. 

Isso lá pelos sete anos de vida em que eu descobria juntar ao próprio gosto as palavras escritas.

Quando a sessão de biblioterapia da Carla terminou, na minha sala muito pequena lentamente abri os olhos e revi meu entorno, para lá de conhecido…

Sorrindo de espanto, muito mais para o lado infinito de dentro, senti cada item que pequeno compunha aquele tudo ali ao redor, estante, livros, cadeiras, sendo imensamente uma outra coisa, a princípio um pouco sem nome…

E se essa experiência foi a gota d’água para me estimular a colocar em prática um desejo que o ano de 2020 já vinha me trazendo, de ler livros inteiros, por telefone, por WhatsApp, para ouvintes individuais, é porque primeiro ela fez um milagre em mim mesma…

Descobri que pensar na leitura de literatura focando “simplesmente” no que ela causa em quem lê ou ouve, em que emoções desperta, era uma atividade completamente nova para mim…

Sempre rodeada de livros, humildemente me obriguei a perceber, em choque: eu sempre havia focado cada leitura da vida na clássica pergunta: 

“o que o autor quis dizer?”.

Grosso modo, a sessão de biblioterapia da Carla Souza me libertou de ser uma leitora angustiada com insaciável curiosidade de repórter investigativa.

E essa libertação segue crescendo, porque virou uma metáfora para a vida também do lado de fora dos livros.

Recomendo fortemente.

Mas aviso do perigo: pode ser um processo irreversível.