
A partir da necessidade do ser humano em se relacionar, surgiu a dança. Desenvolvida através da observação dos fenômenos da natureza e comportamento dos animais. Assim, surgiram diferentes formas de expressão, linguagem, arte e cultura. A dança era utilizada em rituais de passagem, celebrações religiosas e fúnebres.
Como tudo começou
Nos primórdios, as reuniões aconteciam ao redor da fogueira.
O círculo simboliza a eternidade, representação microcósmica do universo, a circunferência dos planetas, a rotação do Sol e o ventre de onde surge a vida.
Alguns povos que mantêm sua crença no invisível, utilizam a dança como linguagem, um pedido de oração.
Trata-se de uma conexão consigo, com o outro e com a natureza.
No cristianismo, as danças foram incorporadas em atividades sagradas, batizados e casamentos.
As danças gregas mais antigas eram utilizadas para invocação dos deuses.
Quem popularizou a Dança Circular foi Bernhard Wosien, nascido na antiga Prússia do Leste, hoje Polônia. Era desenhista, pintor, pedagogo de dança e um grande bailarino de palco.
Quando mais velho, ele observou ao redor e percebeu o quanto de simbolismo era retratado nas danças tradicionais de roda, dos povos e das vilas. Era o sagrado de cada povo manifestado através da dança.
Em 1960, Bernhard Wosien encontra um grupo de Danças em Findhorm, Escócia. Lá, encontrou o que procurava, pessoas que possuíam interesses comuns, estabelecer valores humanos na vida pessoal e coletiva.
Em 1976, foi convidado para conhecer a comunidade de Findhorn e ensinou pela primeira vez as danças tradicionais e danças de roda. A partir dali, criou danças contemporâneas com o simbólico cristão advindo da infância.
O sonho dele era divulgar a dança circular para que todos os povos tivessem acesso indistintamente. Foi uma grande referência no Brasil e no mundo, sendo considerado o pai da Danças Circulares.
“Para mim, a dança é uma mensagem poética do mundo divino”. (Wosien, 1985)
Dança circular no Brasil
No Brasil, Carlos Solano foi o primeiro instrutor de dança circular. Em 1984, foi a Findhorn para iniciar a prática. Em 1986, em Belo Horizonte reunia amigos para dançar. Posteriormente assumiu outros trabalhos.
Com decorrer do tempo, vemos esta fusão de brasileiros e estrangeiros na popularização da Dança Circular no Brasil. É reconhecida e utilizada pelo SUS como uma Prática Integrativa Complementar (PIC), que contribui no tratamento de questões emocionais.
A cultura brasileira possui influência direta dos povos indígenas. As danças sempre foram utilizadas em rituais sagrados e celebrações. Para se relacionarem com a natureza, com seus antepassados, com espíritos da floresta e com sua ancestralidade.
As danças de roda e cantigas influenciaram o folclore.
A Dança Circular no Brasil é uma mescla das danças dos povos de todo o Mundo. Beneficia a saúde física, desenvolve coordenação motora, equilíbrio, lateralidade, memória, disposição. É um momento de alegria e de conexão.
O ato de estar de mãos dadas oportuniza a doação de energia e afetividade.
A dança em círculo promove o encontro entre pessoas com o mesmo propósito. O ato de dar as mãos é a transmissão de energia.
A mão direita espalmada para cima doa um pouco de si. A mão esquerda espalmada para baixo recebe do outro. A coreografia é partilhada naquele momento sem necessidade de ensaio prévio com os participantes. Só há o propósito de partilha e cooperação.
A Dança Circular não requer que o integrante da roda seja bailarino ou bailarina. O que nos une é apenas o desejo de dançar, sentir música e dar os passos que moverão o corpo, a mente e o espírito.
Meditação, Atenção, respiração
A dança é proposta como meditação, atenção a cada passo, respiração e movimento do seu corpo e do outro.
Desde criança, a dança me fazia sentir livre, inteira e feliz. As danças de roda e as cantigas eram pura magia para meu coração de menina. Minha árvore genealógica diz que tenho uma avó paterna negra, um avô paterno italiano, que fugiu da guerra e uma trisavó materna que era indígena, lamentavelmente “pega pelo laço”.
Na infância, não entendia. Mas, hoje, sei que foi sequestrada e o resto vocês imaginam…
Pergunto-me de onde nasceu este amor pela dança?
Preferencialmente, pela dança circular?
Este DNA vive em mim, indireta e diretamente. Suponho que minha trisavó fazia parte de uma comunidade indígena e que ali tinha sua família, costumes e rituais. Daí, vem minha descendência.
Quando mergulho em mim, questiono de onde nasceu a minha necessidade de dançar esse tipo de expressão?
Retorno a minha árvore genealógica. Minha trisavó era indígena e venho com este impulso, esta linguagem, um movimento que me faz sentir viva.
Quando danço, sinto uma conexão com a vida, com a Espiritualidade. A paz e a completude permeiam meu corpo e apenas “sou”. Percebo a conexão com o divino através da dança, posso sentir o chão que minha trisavó pisou, dançou, tentou se libertar das garras do homem branco que a “enlaçou”.
Talvez, minha dança seja o movimento dela em mim para romper este laço.
Hoje, me permito dançar a vida. Honrar a vida dela, que se move em mim, me faz dançar e transcender. Aqui e agora.
Observação COMUD:
Na Comudsaber, recebemos um texto anterior que citava o grupo Cirandar de Pirassununga, interior de São Paulo, cuja figura abaixo serve de exemplo para tudo que Patrícia nos ensinou:
