
O meu caminho foi atravessado por livros que cuidaram de mim. Vivi um processo de depressão aos 19 anos. Estava próxima à formatura, mas em uma área que não era a minha vocação. Eu me sentia mergulhada em dúvidas e frustrações.
Cursava a faculdade de Direito. Um dia, lembrei de um livro que minha avó, já falecida, sempre lia para mim na infância, “O Pequeno príncipe”. Lembrei do conforto que aquele livro me trazia e as memórias que despertava.
Abri uma velha gaveta onde o havia guardado. Assim que o abri o livro em uma página aleatória, vi a imagem da rosa que estava presa em uma redoma. Ela dizia ao Pequeno Príncipe que não precisava daquela proteção, porque tinha espinhos.
Imediatamente, aquela imagem e aquele texto falaram comigo. Eu pude me ouvir. Sentei, respirei fundo. Continuei a olhar as outras páginas e percebi que várias frases do livro estavam sublinhadas, como: “Para ser uma borboleta, é preciso passar pelo caminho das larvas”.
Últimas lições
Naquele momento, eu entendi a força da palavra. As últimas lições da minha avó atravessaram a morte, desafiaram o tempo e estavam ali em minhas mãos. Nunca mais deixei a palavra nem ela me deixou. É parte de mim e do que tenho a repartir, o que transborda. Só pude me reinventar, porque meus amigos de papel me fizeram rio que corre.
Escolhi fazer da palavra a ponte que sobrepõe os muros da paisagem e ser muitas, depois de cada um que passa pela ponte e deixa aquilo que não sei. Anos depois, quando fiz a minha formação em Biblioterapia com Cristiana Seixas, entendi que a incompletude é a nossa única constância na vida. A chegada não importa, mas o caminho que percorremos é a verdadeira vista que vale a pena.
Passei a querer ser outra a cada leitura e dividir isso com pessoas diversas. Caminho por entre frases, minhas e do outro. Tudo que elas tocam é o que passo a enxergar. Sempre vazia e pronta para ser preenchida pelas cores dos diferentes prismas das filosofias da existência…
Cada pessoa é um livro vivo a ser lido. A partir do que nos falta e existe no outro, evoluímos e espalhamos sementes.
Hoje, sou eterna aprendiz da Biblioterapia. Já vivi essa experiência do cuidado com o ser em duas escolas municipais de Nova Friburgo, com turmas do 6º ano do Ensino Fundamental II ao 1º. ano do Ensino Médio. Atualmente, ofereço duas rodas semanais só de mulheres, o MOV, Mulheres em Movimento, uma roda feminina, espaço seguro de escuta, voz e expressão.
A cada roda, tudo que não sei me diz que, ainda verde, não desejo madurar, só frutificar.
Parafraseando Paulo Freire com a ideia da “Pedagogogia da Autonomia”, sem o outro eu não existo, o outro não me dá completude, mas incompletude, busca. Somos seres inacabados e o sentido é caminhar.
De Volta Ao Começo
Gonzaguinha
- “E o menino com o brilho do sol
- Na menina dos olhos
- Sorri e estende a mão
- Entregando o seu coração
- E eu entrego o meu coração
- E eu entro na roda
- E canto as antigas cantigas
- De amigo irmão
- As canções de amanhecer
- Lumiar e escuridão
- E é como se eu despertasse de um sonho
- Que não me deixou viver
- E a vida explodisse em meu peito
- Com as cores que eu não sonhei
- E é como se eu descobrisse que a força
- Esteve o tempo todo em mim
- E é como se então de repente eu chegasse
- Ao fundo do fim
- De volta ao começo
- Ao fundo do fim”
O círculo de biblioterapia é um lugar para sermos inventores das nossas realidades andarilhas.
Desaprendemos as nossas certezas. Viramos criança que não sabe e espera descobrir com a alegria inaugural de ver pela primeira vez.
Aline de Moraes
Professora, contadora de histórias, escritora, psicopedagoga e eterna aprendiz da Biblioterapia
