
A biblioterapia é a prática da leitura e contemplação de uma curadoria de textos com um repertório sensível, capaz de promover uma aprendizagem do olhar.
Olhamos muito para fora, para o que está à margem de nós ou no entorno.
A origem dessa terapia do cuidado com o ser é muito antiga, secular!
No Egito, Ramsés II tinha, na frente do frontispício, da sua biblioteca a inscrição “Remédios para a alma”.
Na Grécia antiga e na índia, a leitura era indicada como tratamento médico.
Nos Estados Unidos e na América, ler foi utilizado como recurso de recuperação de doentes desde o século XIX.
Por que “Biblioterapia”?
O nome “Biblioterapia”só foi utilizado a partir do século XX. De acordo com o filósofo Marc-Allain Ouaknin, a origem do termo vem do Grego “ therapia”, que pode ser interpretado como “velar pelo próprio ser”.
No Brasil, em 1975, o primeiro artigo publicado sobre o assunto foi o da professora e bibliotecária Ângela Maria Lima Ratton, considerado um marco histórico. Porém, desde 2001, a prática se popularizou com a professora Clarice Caldin, que esclarece:
“A biblioterapia constitui-se numa atividade interdisciplinar, podendo ser desenvolvida em parceria com a Literatura, a Biblioteconomia, a Educação, a Medicina, a Psicologia, e a Enfermagem”.
O projeto de Lei no .4.186-A, de 2012, a ser aprovado, dispõe sobre o uso da Biblioterapia como terapia integrativa em hospitais públicos, contratados, conveniados e cadastrados do Sistema de Saúde, SUS.
Expoentes
Os expoentes da Biblioterapia no Brasil são:
- Clarice Caldin;
- Carla Sousa;
- Cristiana Seixas;
- Dante Gallian
Todos são autores de diversos livros sobre a Biblioterapia e também responsáveis por diversos cursos de formação de biblioterapeutas ou como prefiro pensar “eternos aprendizes da biblioterapia”, porque a cada roda, a cada leitura, a cada contato, somos outros.
Cristiana Seixas, dentre outras formações, é Psicóloga, biblioterapeuta, Mestre em Educação e Especialista em Arteterapia. Ela também oferece cursos de biblioterapia há mais de dez anos. Possui uma página repleta de informações no youtube, é o canal “Biblioterapia”. Também nutre a nossa escuta atenta com uma página no Instagram, onde partilha leituras maravilhosas.
Vale a pena assistir a um TEDx, gravado na UNIRIO, onde Cris Seixas explica o que é biblioterapia.
Mas qual é o ponto de partida da Biblioterapia?
A escuta é a grande responsável por todo esse processo.
Nós ouvimos a nossa própria voz e a do outro, através de um olhar atento que se deixa inundar pelas percepções, longe do automatismo e das verborragias que fazem parte do mundo contemporâneo.
É como diz Rubem Alves, no poema “Escutatória”.
“Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.”
Fernando Pessoa conhecia a experiência… E, se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras… No lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos”
Depois de ouvirmos a nossa voz, buscarmos a nós mesmos e fluímos, é possível transbordar.
A escrita, o desenho e as artesanias são muito bem-vindos na biblioterapia. Mas não é preciso ser escritor ou desenhista, basta colocar no papel a tradução daquilo que foi despertado dentro de você, o que deseja dar voz e expressar. Se não desejar partilhar, o silêncio deve ser respeitado, assim como todas as múltiplas leituras partilhadas em roda. Não há gabaritos, só convites ao livre pensar, a liberdade de estar.
Como isso acontece?
Todo livro é uma janela para o mundo externo e interno.
Existem dois tipos de biblioterapia:
Biblioterapia Clínica,
Praticada por profissionais das áreas clínicas e a Biblioterapia de Fruição, praticada por profissionais das áreas da Educação e do cuidado. Como professora de Literatura, contadora de histórias, escritora e especialista em Literatura Infantojuvenil, psicopedagoga e eterna aprendiz da biblioterapia, pratico a Biblioterapia de Fruição.
Biblioterapia de fruição
É um círculo com trechos de textos diversos, pré-selecionados pelo biblioterapeuta.
As obras lidas variam entre crônicas, contos, poemas, músicas, literatura infantojuvenil e até textos de linguagem não- verbal, como obras de arte.
Os livros podem estar dispostos em cima de um pano artesanal, que representa a Arte ou apenas arrumados de maneira lúdica, com elementos que alimentam o olhar e e depertem a emoção e o brincante.
Os remédios literários são dispostos de maneira circular, porque a nossa vida é cíclica, porque a reflexão é cíclica, porque os processos de autocura acontecem em ciclos.
Biblioterapia é vida
No embrulhar da vida, fazemos uma mistura de sentimentos. Dificilmente percebemos uma emoção ou pensamento dissonante, alguma dor menina, algum muro interno, alguma água estagnada. Nem sequer entendermos que, por vezes, cortamos as próprias asas.
A biblioterapia é uma grande lente de aumento da nossa leitura de mundo, através do autocuidado que uma leitura é capaz de oferecer.
Em círculo, cada integrante da roda pode escolher um livro para ler, trazer um texto de sua preferência para a partilha ou o biblioterapeuta pode escolher um fragmento de determinada obra, ler para todos ou revezar as leituras entre o grupo.
Nesta proposta da prática, não há a exigência de que o profissional seja de alguma área clínica.
Trata-se de uma roda de leitura, com o objetivo de promover a escuta, a contemplação e a reflexão.
Com esse conceito em mente, fica fácil deduzir que tal tipo de biblioterapia possa ser praticado em escolas, bibliotecas, espaços educativos e de leitura, grupos de pessoas das mais diferentes faixas etárias e com necessidades terapêuticas diferentes.
É um convite a todos para pensarmos sobre aquilo que engessa o nosso florescimento, para sentir o amor que nos move à evolução, para desenvolver a calma da água ou o fogo criador. Somos inspirados pelas leituras polissêmicas, cheias de significados, repletas de verossimilhança com os nossos momentos da vida, assim como folhas que vão mudando de cor em cada estação do tempo.
É como ensina o poeta Bartholomeu Campos de Queiroz no livro “Flora”:
- “É preciso prezar a coragem das sementes
- Apodrecer
- Para inaugurar o fruto”
Cada leitura partilhada lança sementes no nosso jardim interno, gera perguntas, busca o que apodreceu e encoraja o fruto. É esse exercício do sensível que nos permite sentir o vento bater nas asas e ser águias que voam mais alto.
Aline de Moraes
Professora, contadora de histórias, escritora, psicopedagoga e eterna aprendiz da Biblioterapia.
