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Páscoa

Esse artigo retorna hoje, sem mudanças ou retoques, porque há palavras que não pedem revisão, apenas reencontro.

Escrito pelo Padre Carlos há algum tempo, ele carrega uma beleza tão sensível e verdadeira que merece ser revivida nesta semana tão especial.

Se você já leu, permita-se sentir novamente…
Se ainda não leu, talvez este seja o momento certo.

Há textos que não passam.
Eles apenas esperam o instante certo para tocar o coração.

Gratidão, Padre Carlos, por nos lembrar do que realmente importa.

Morrer para viver

A maior festa do cristianismo encontra suas raízes na Páscoa dos judeus, um evento central da história e da fé de Israel, que celebra o Êxodo (em hebraico Pesach= saída/passagem) da escravidão do Egito para a liberdade. 

Essa festa judaica foi incorporada pelas religiões cristãs, mas com uma mudança importante e novo significado, a partir da morte e ressurreição de Jesus. 

A Páscoa para Jesus Cristo foi a passagem da morte através da cruz para a vida na glória pela ressurreição. 

Então, para os seguidores de Jesus, a Páscoa passou a ser a comemoração da passagem da morte do pecado para a vida nova com Cristo, junto com Cristo Ressuscitado – esse é o cerne da fé cristã!  

Ressurreição, indemonstrável e impensável 

Historicamente não se põe em dúvida que Jesus tenha morrido, e morrido numa cruz. Já o evento da ressurreição não é demonstrável, embora seja fartamente atestado pelos discípulos de Jesus, que o viram vivo após sua morte. 

Também, esse fato é um acontecimento impensável na história, pois ressurreição é voltar à vida e, de ninguém se diz ter voltado à vida após a morte, exceto Jesus. 

Além disso, o contexto, no qual Jesus vivia, não era favorável a essa ideia. 

Para os romanos a ressurreição era um absurdo e, os judeus eram divididos sobre o assunto; os Fariseus afirmavam a possibilidade, enquanto os do partido dos Saduceus se opunham à ideia. 

Assim, os inimigos de Jesus, quando o ouviam dizer que a morte não teria poder sobre ele, procuram silenciá-lo ou mesmo eliminá-lo, e, de fato, depois o condenaram à morte de cruz, considerando blasfêmia, a sua posição. 

Após a sepultura do corpo de Jesus, algumas mulheres, que foram visitar o túmulo, o encontraram vazio. Nem elas, nem os discípulos, pensavam que ele havia “ressuscitado(Jo 20: 6). 

Mas se depararam, diante de si, com Jesus vivo, o reconhecem como o conheceram:

Ele realmente ressuscitou!” (Lucas 24:34). 

A ressurreição não é uma invenção das mulheres ou uma projeção da consciência dos discípulos, muito menos um engano da parte deles para fazer parecer que Jesus tenha voltado à vida

Ao que tudo indica, Jesus também não reencarnara em outro elemento da natureza, era ele mesmo, aquele mesmo que os discípulos conheceram, acompanharam pela Palestina, ouviram ensinar e viram aliviar as misérias dos que vinham a ele.

Apareceu em seu corpo de antes, marcado pelos sinais da morte (mãos e lado), mas modificado e glorioso como, de maneira variada e unânime, dizem os Evangelhos (Mt 28; Mc 16; Lc 24; Jo 20-21).

Jesus não apenas apareceu redivivo, mas escapara do poder da morte -‘a morte não tem mais poder sobre ele’ (Rom 6, 9).

Mesmo ignorando os limites de tempo e espaço (entrando na casa onde estavam de portas trancadas, caminhando na praia, no jardim etc.), Jesus era reconhecível em uma humanidade transfigurada, o que causou certa dificuldade, mas os discípulos, diante de uma evidência de que Jesus era realmente Filho de Deus, como dizia, creram nele! 

A ressurreição não é representável, mas vital e crível 

Imaginar a ressurreição, supõe uma reviravolta nas leis da natureza e escapa da nossa percepção, pois se trata de um evento transcendente e de fé. 

Aliás, acreditar em Cristo ressuscitado, não é apenas uma questão de fé, mas uma questão de vida e de esperança, pois sua ressurreição é a promessa de que nós também seremos ressuscitados (1Coríntios 15, 20-28)

Jesus, ao ser reconhecível em uma humanidade transfigurada, possibilitou aos discípulos acreditarem nele, e saírem sem medo a pregar ao mundo todo e às gerações futuras, que Cristo ‘Ressuscitou realmente!’ 

E não só pela palavra, mas também na disposição dos apóstolos e das primeiras testemunhas oculares da Ressurreição, em enfrentarem o risco de vida e o derramamento de sangue por ele. 

É por isso que a ressurreição é o cerne da fé cristã, inclusive a ponto de afirmarem que «Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa fé»(1 Cor 15,14). 

O evento da fé cristã representa uma revolução na história da humanidade, vem até chamada de “Boa Noticia” (conforme o significado da palavra grega “Evangelho”) que os discípulos testemunham com seus ensinamentos, escritos e sobretudo, com a sua vida doada até a morte.

“FELIZ PÁSCOA,

CRISTO VERDADEIRAMENTE RESSUSCITOU!”

Um anúncio prodigioso, feliz, da vida que vence a morte, é feito solenemente nas igrejas na noite da Páscoa todos os anos, pretendendo nos revelar sobre o nosso destino e orientar nossas consciências individuais a um verdadeiro e novo conceito da existência humana. 

A festa solene da Páscoa faz referência à nossa participação no seu mistério de morte e ressurreição de Jesus, Se Cristo ressuscitou, os que crerem nele também com ele ressuscitação.

Por isso o convite do cristianismo, nessa época, é de ‘fazermos Páscoa’, isto é, morrer ao pecado que embrutece e abraçar a beleza da vida que se renova, tornar jovem o que é velho, fazer novas todas as coisas, se libertar de tudo o que nos traz infelicidade e atrasa a vida e, na certeza de que o sofrimento e a morte não têm a última palavra sobre a nossa vida.

O desejo de ‘Feliz Páscoa”, que na Igreja vale por cinquenta dias e é renovado a cada domingo (“Páscoa Semanal dos cristãos”), não deve ser calado nunca.

Nós não deixamos isso acontecer nem na pandemia, que limitava nossas manifestações presenciais em ambiente comunitário, pois os cristãos continuam acreditando que todos nós, mortos e sepultados com Cristo, com Ele ressuscitaremos para uma vida nova que produz frutos de bondade, solidariedade, compaixão, amor união e paz.

Assim, o desejo verdadeiro de “Feliz Páscoa” 

é, também, anúncio de alegria e de esperança, 

que promete vida plena e comunhão 

com Deus para todos nós.

Padre religioso, trabalha na paróquia São João Batista do Brás.