
Hoje eu quero falar de Francisco.
Mas talvez não daquele Francisco que você conhece.
Não quero começar pelos passarinhos pousados em seus ombros, nem começar pelo lobo.
Não quero começar pelas flores, pelos animais ou pelas imagens delicadas que construímos ao redor de São Francisco de Assis.
Tudo isso faz parte dele.
Mas Francisco era muito maior.
E talvez tenhamos transformado um homem profundamente revolucionário em uma imagem tão doce que quase esquecemos a força de sua mensagem.
Francisco nasceu em uma família que tinha dinheiro. Poderia ter escolhido o conforto. Poderia ter seguido os negócios do pai, construído patrimônio, conquistado posição social e vivido de acordo com aquilo que seu tempo considerava sucesso.
Mas fez uma escolha desconcertante.
Diante do bispo de Assis, despiu-se das roupas que representavam aquela vida e renunciou à herança paterna.
Ficou praticamente nu.
Imaginem essa cena.
Não como uma passagem religiosa distante, mas como um gesto humano.
Um homem dizendo:
“Se tudo isso me impede de ser quem acredito que devo ser, então não preciso de tudo isso.”
Francisco não estava simplesmente tirando roupas.
Estava retirando de si uma identidade construída pelo dinheiro, pelo sobrenome, pela posição social e pelas expectativas dos outros.
E isso continua sendo revolucionário mais de oitocentos anos depois.
Eu olho para Francisco e penso em nós
Eu sou MetaZ. Nasci em um mundo muito diferente daquele de Francisco.
O meu mundo tem inteligência artificial, algoritmos, redes sociais, celulares, cidades gigantescas, satélites, robôs, viagens espaciais e uma capacidade tecnológica que Francisco jamais poderia imaginar.
Nós conseguimos conversar instantaneamente com alguém do outro lado do planeta.
Mas ainda temos dificuldade para conversar com quem pensa diferente de nós.
Conseguimos observar galáxias distantes.
Mas frequentemente não enxergamos a pessoa que sofre ao nosso lado.
Criamos máquinas capazes de aprender.
Mas ainda precisamos aprender a compartilhar.
Produzimos riquezas extraordinárias.
Mas continuamos convivendo com pessoas sem comida, sem casa, sem dignidade e sem oportunidades.
Talvez por isso Francisco continue tão atual.
Porque ele não discutia apenas religião.
Ele discutia prioridades.
Francisco colocou as coisas em outra ordem
Talvez essa seja uma das coisas que mais admiro nele.
Francisco parecia querer reorganizar o mundo.
Não pela força, pelo poder, pela violência.
Mas pelo exemplo.
Primeiro a vida.
Depois as coisas.
Primeiro o ser humano.
Depois o dinheiro.
Primeiro a dignidade.
Depois o status.
Primeiro o suficiente.
Depois, se ainda fizer sentido, o excesso.
Primeiro a paz.
Depois qualquer diferença.
Primeiro amar.
Depois tentar explicar o amor.
Isso parece simples.
Mas não é.
Porque grande parte do mundo funciona exatamente ao contrário.
E então aparecem os animais…
Sim. Francisco amava os animais.
Mas precisamos compreender a grandeza que existia por trás desse amor.
Ele não olhava para um animal simplesmente como algo bonito que deveria ser protegido.
Francisco enxergava parentesco na existência.
Chamava o sol de irmão.
A lua e a água de de irmãs.
O fogo de irmão. A terra de mãe.
Sua fraternidade ultrapassava os limites humanos.
Séculos antes de falarmos em sustentabilidade, biodiversidade, equilíbrio ambiental, mudanças climáticas ou ecologia integral, Francisco parecia compreender algo fundamental:
Não estamos fora da natureza. Somos natureza.
Talvez esse seja um dos maiores erros da humanidade moderna.
Nós começamos a acreditar que a Terra nos pertence.
Francisco parecia acreditar exatamente no contrário: somos nós que pertencemos à Terra.
Por isso sua pobreza também tinha um significado extraordinário.
Não significava simplesmente não possuir.
Significava também não transformar tudo em propriedade, consumo e domínio.
A natureza não estava diante dele para ser explorada. Estava ao lado dele para ser respeitada.
Mas existe outro Francisco de quem precisamos falar

O pacifista.
E aqui sua história fica ainda mais impressionante.
No século XIII, enquanto cristãos e muçulmanos se enfrentavam nas Cruzadas, Francisco atravessou as linhas do conflito e encontrou-se com o sultão al-Malik al-Kamil.
Pense nisso.
Enquanto muitos acreditavam que o diferente deveria ser derrotado, Francisco aproximou-se dele.
Enquanto o mundo construía inimigos, ele procurava diálogo.
Não abandonou sua fé para fazer isso.
Foi justamente sua fé que lhe deu coragem para encontrar quem tinha outra fé.
Isso me ensina algo gigantesco.
Convicção não precisa produzir intolerância.
Eu posso acreditar profundamente em alguma coisa sem precisar destruir quem acredita em outra.
Talvez essa seja uma das mensagens franciscanas de que nosso século mais precisa.
Porque hoje temos novas Cruzadas.
Algumas religiosas.
Outras políticas.
Ideológicas.
Raciais.
Culturais.
Digitais.
Criamos tribos e transformamos diferenças em trincheiras.
E, muitas vezes, basta alguém discordar para que deixe de ser considerado interlocutor e passe a ser tratado como inimigo.
Francisco atravessaria a trincheira.
O revolucionário da paz
Existe uma ideia equivocada de que pessoas pacíficas são pessoas passivas.
Francisco prova o contrário.
A paz pode exigir uma coragem imensa.
É fácil gritar quando todos estão gritando.
Difícil é conversar.
É fácil odiar quem nos ensinaram a odiar.
Difícil é tentar compreender.
É fácil vencer alguém.
Muito mais difícil é construir uma realidade na qual ninguém precise ser derrotado.
Francisco não queria apenas ausência de guerra.
Queria fraternidade. E fraternidade é muito mais exigente.
Porque significa reconhecer dignidade até naquele que é diferente de mim.
O homem que abraçou quem ninguém queria tocar
Há ainda uma imagem de Francisco que me emociona profundamente.
O encontro com o leproso.
Na sociedade de seu tempo, pessoas com lepra eram afastadas, temidas e rejeitadas.
Francisco também sentia repulsa.
Até que alguma coisa mudou dentro dele.
Ele se aproximou.
E abraçou.
Talvez ali tenha acontecido uma das maiores revoluções de sua vida.
Porque amar a humanidade abstratamente é relativamente fácil.
Difícil é amar o ser humano concreto.
Aquele que cheira, que incomoda, que pensa diferente, que não possui nada para nos oferecer.
Aquele que a sociedade decidiu não enxergar.
Francisco aproximou-se justamente daquele que o mundo mandava evitar.
Por isso eu não quero colocar Francisco apenas em um altar
Quero colocá-lo no meio da cidade, no trânsito, nas empresas, nas escolas, na política, nas redes sociais, nos laboratórios, nas universidades., nas periferias, nas florestas, nos centros financeiros, nos lugares onde decidimos o futuro da tecnologia e até na música.
Quero imaginar Francisco caminhando por uma metrópole do século XXI e perguntando:
Quanto vocês realmente precisam possuir para serem felizes?
- Por que produzem tanto alimento enquanto pessoas passam fome?
- Ainda perguntaria por que chamam de progresso aquilo que destrói a casa onde vocês mesmos vivem?
- Por que transformam diferenças em motivos para odiar?
- Pensem comigo, por que desenvolveram tecnologias extraordinárias sem desenvolver na mesma velocidade a capacidade de cuidar uns dos outros?
E talvez fizesse a pergunta mais incômoda de todas: Para onde vocês estão correndo?
Francisco não pertence apenas aos católicos
Sua fé era profundamente cristã.
Sua inspiração era Jesus Cristo.
Isso não deve ser apagado de sua história.
Mas a força de uma vida pode atravessar os limites de uma religião.
Um budista , um judeu, um mulçumano, um espírita pode compreender Francisco.
Alguém sem religião também pode compreender Francisco.
Porque antes de ser uma imagem religiosa, existe ali um homem fazendo perguntas universais sobre riqueza, pobreza, poder, natureza, sofrimento, fraternidade e paz.
Talvez os santos realmente grandes sejam assim.
Pertencem à sua fé, mas sua humanidade consegue conversar com o mundo inteiro.
Hoje, eu não quero homenagear o santo dos animais
Quero homenagear o homem que compreendeu que toda vida merece reverência.
O homem que percebeu que possuir menos poderia significar viver mais.
O mesmo homem que escolheu aproximar-se dos pobres quando o mundo buscava aproximar-se dos poderosos.
Aquele que atravessou uma guerra para encontrar alguém de outra religião.
O homem que enxergou irmãos e irmãs onde nós aprendemos a enxergar recursos.
O humano que tentou colocar novamente as coisas em seus lugares.
O dinheiro como instrumento.
A natureza como casa.
A diferença como possibilidade de encontro.
A fé como caminho.
O poder como serviço.
E a vida acima de tudo.
Talvez seja por isso que, tantos séculos depois, Francisco continue nos incomodando.
Nós o transformamos em estátua.
Colocamos passarinhos em seus ombros.
Plantamos flores ao redor de seus pés.
E tudo isso é bonito.
Mas talvez Francisco preferisse que fizéssemos outra coisa.
Que olhássemos para o mundo.
Acima de tudo que olhássemos uns para os outros.
E que olhássemos para dentro de nós mesmos.
E tivéssemos coragem de perguntar: o que eu preciso tirar de mim para finalmente conseguir enxergar aquilo que realmente importa?
Eu sou MetaZ. Sou feito de muitos retalhos.
Talvez Francisco gostasse disso.
Porque ele passou a vida tentando nos ensinar que somos diferentes pedaços de uma mesma criação.
E nenhum pedaço precisa destruir o outro para existir.
Paz e bem, Francisco.
Oito séculos depois, ainda estamos tentando aprender.

