
Outro dia vi uma frase divertida em uma caneca:
“Se fosse só matar um leão por dia, estava fácil. O problema é que também precisamos ignorar antas, engolir sapos e desviar das cobras.”
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Sorri. Depois pensei que essa talvez seja uma das melhores definições da vida de um empreendedor.
Claro, antes de tudo, uma ressalva importante: os animais são extraordinários. As antas são fundamentais para nossas florestas, as cobras mantêm o equilíbrio dos ecossistemas, os sapos são indicadores da saúde ambiental e os leões são símbolos de força e organização. Aqui, eles aparecem apenas como metáforas de situações que encontramos todos os dias.
O interessante é que o sucesso de um empreendedor não depende apenas da sua capacidade técnica. Depende, principalmente, de reconhecer rapidamente com que tipo de situação está lidando.
O Leão – Os grandes desafios
O leão representa aquele problema que não pode ser adiado.
Pode ser uma crise financeira, a perda de um grande cliente, uma mudança no mercado, uma decisão difícil ou um concorrente muito forte.
O curioso é que os “leões” costumam ser os problemas mais fáceis de identificar. Eles aparecem na nossa frente e deixam claro que precisam ser enfrentados.
A pior decisão é fingir que eles não existem.
Os leões nos ensinam coragem, liderança e capacidade de decisão.
Pergunta importante:
Você enfrenta seus leões ou fica esperando que eles desapareçam sozinhos?
A Anta – Quem não quer aprender
A anta representa aquelas pessoas que simplesmente não desejam compreender.
Não é falta de inteligência. É resistência.
São pessoas que ignoram dados, recusam argumentos, não aceitam mudanças e transformam qualquer conversa em um desgaste emocional.
Todo empreendedor já perdeu horas tentando convencer alguém que não queria ser convencido.
O aprendizado aqui é simples:
Nem toda batalha merece ser travada.
Tempo também é patrimônio.
Às vezes, a melhor estratégia não é convencer.
É seguir em frente.
O Sapo – O desconforto inevitável
Todo empreendedor engole sapos.
Demitir alguém. Assumir um erro. Pedir desculpas.
Conversar com um cliente insatisfeito.
Pagar uma conta inesperada.
Resolver problemas que ninguém gostaria de resolver.
Os sapos representam tudo aquilo que gera desconforto, mas faz parte da responsabilidade.
Quanto mais tempo adiamos um sapo, maior ele parece ficar.
Maturidade empresarial também é aceitar que algumas tarefas nunca serão agradáveis.
Mas continuam sendo necessárias.
A Cobra – A inteligência sem ética
Talvez seja a metáfora mais perigosa.
A cobra representa pessoas manipuladoras.
Quem faz fofoca para dividir equipes, cria armadilhas, promete o que não vai cumprir e usa a mentira como ferramenta de negócios.
O erro mais comum é querer derrotar uma cobra usando confronto direto.
Normalmente isso só aumenta o conflito.
Na maioria das vezes, o melhor caminho é manter distância, registrar fatos, fortalecer processos e proteger a equipe.
Nem toda vitória precisa acontecer dentro da arena.
Algumas acontecem simplesmente porque você escolheu não entrar nela.
O Camaleão – Quem muda conforme o interesse
Existe ainda outro personagem bastante comum.
O camaleão corporativo.
É aquela pessoa que muda completamente de opinião dependendo de quem está na sala.
Concorda com todos. Nunca assume posição.
Hoje apoia um projeto. Amanhã diz que sempre foi contra.
Não é flexibilidade. É ausência de princípios.
Empresas sólidas precisam de adaptação, mas também precisam de coerência.
O Pavão – A vaidade acima dos resultados
O pavão gosta de aparecer.
Ele quer reconhecimento antes da entrega.
Fala mais do que faz. Valoriza cargos, títulos e status.
Nas organizações, a vaidade costuma consumir mais energia do que produzir resultados.
Empresas crescem quando o foco deixa de ser o ego e passa a ser o propósito.
A Coruja – A sabedoria
Felizmente nem tudo é problema.
Também existem corujas. São aquelas pessoas que observam antes de falar.
Estudam antes de decidir. Escutam antes de responder.
Transformam experiência em conhecimento.
Toda empresa precisa de mais corujas.
O Beija-flor – Quem faz acontecer
Enquanto muitos discutem, criticam ou competem, o beija-flor simplesmente trabalha.
Leva ideias. Conecta pessoas. Poliniza oportunidades.
Produz valor quase sem fazer barulho.
São aquelas pessoas que deixam todos os ambientes melhores do que encontraram.
A Formiga – O poder da constância
Enquanto muitos esperam o momento perfeito, a formiga simplesmente começa.
Ela não reclama do tamanho do trabalho. Divide tarefas, trabalha em equipe, planeja o futuro e entende que grandes construções acontecem um grão de cada vez.
No mundo empresarial, admiramos histórias de sucesso e esquecemos dos milhares de pequenos passos que as construíram.
Empresas sólidas não nascem de um único grande negócio.
Nascem da disciplina diária, dos processos bem feitos, da organização e da capacidade de continuar, mesmo quando ninguém está aplaudindo.
A formiga nos lembra que consistência costuma vencer talento quando o talento desiste.
O Golfinho – Inteligência com alegria
Existe um animal que parece nunca esquecer que viver também deve ser prazeroso.
O golfinho. Extremamente inteligente, comunicativo, colaborativo e curioso, ele resolve problemas brincando, trabalha em grupo, protege os seus e demonstra que cooperação pode ser muito mais eficiente do que competição.
No ambiente corporativo, algumas equipes se tornam tão pesadas que esquecem um detalhe importante: pessoas felizes costumam criar soluções melhores.
Empresas precisam de metas.
Mas também precisam de sorrisos.
Precisam de resultados.
Mas também de relações saudáveis.
O golfinho nos lembra que alta performance e bom humor não são opostos.
Na verdade, costumam andar juntos.
O verdadeiro desafio
Talvez a maior competência de um empreendedor não seja vender, negociar ou liderar.
Talvez seja aprender a identificar rapidamente qual animal está à sua frente.
Porque não se enfrenta um leão como se enfrenta uma cobra.
Não se convence uma anta usando força.
Não se evita um sapo.
E não vale a pena perder tempo tentando ensinar ética para quem escolheu viver como cobra.
Empreender é desenvolver discernimento.
É saber onde investir energia, quando agir, quando esperar e quando simplesmente seguir outro caminho.
No final, não vencem os mais fortes.
Vencem aqueles que aprendem a conviver com o zoológico da vida sem perder a própria humanidade.
Conclusão – Bem-vindo ao zoológico corporativo!
Depois de alguns anos empreendendo, cheguei a uma conclusão.
O problema nunca foi o leão, nem a cobra, nem a anta e muito menos o sapo.
O verdadeiro desafio é descobrir que, em alguns dias, nós mesmos somos um deles.
Tem segunda-feira em que acordamos como leões, prontos para conquistar o mercado.
Na terça, viramos formigas, resolvendo centenas de pequenas tarefas.
Quarta, precisamos da sabedoria da coruja para tomar decisões difíceis.
Quinta, tentamos ser golfinhos para manter a equipe motivada.
Na sexta, inevitavelmente, aparece um sapo para engolirmos antes do fim do expediente.
E, convenhamos… às vezes até desfilamos como pavões quando um projeto dá muito certo.
O segredo não é eliminar os animais. É aprender com eles.
Aliás, desconfie daquela empresa onde todos dizem ser leões.
Sem formigas ela não cresce, assim como sem corujas ela não aprende e sem golfinhos ela perde a alegria.
E se só houver pavões… provavelmente não sobra ninguém trabalhando.
Talvez empreender seja exatamente isso.
Entrar todos os dias em um enorme zoológico corporativo, respirar fundo e pensar:
“Hoje… tomara que eu encontre mais golfinhos e formigas do que cobras. E, se aparecer um leão… que eu tenha coragem. Se aparecer uma anta… que eu tenha paciência. Se aparecer um sapo… que eu tenha maturidade. E, acima de tudo, que eu nunca deixe de ser humano.”
Porque, no fim das contas, a melhor espécie para construir empresas continua sendo aquela que sabe aprender, cooperar, respeitar e evoluir.
Essa espécie ainda se chama ser humano.
