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Influência Musical Indígena

É preciso que nós nos reconheçamos indígenas, não apenas os que estão no contexto das aldeias ou os que possuem o fenótipo clássico. 

Se somos mestiços ou se fazemos parte de um povo formado inicialmente por indígenas, essa identidade também em nós deve estar presente. 

A partir dessa ideia, torna-se mais fácil enxergarmos a contribuição indígena para nossa sociedade e, aqui, trago a contribuição musical. 

No sentido de nos reconhecermos como indígenas, cito as palavras do professor Carlos Luiz Enrique Ruiz Ferreira:

 “Em primeiro lugar, embora tenhamos tido avanços significativos nos currículos escolares, é preciso dizer que, por um lado, ainda é preciso avançar muito para descontruir a ideia de que os povos indígenas estão e são “distantes” de nós. Desmistificar a ideia que se trata meramente de “outros”. 

Se desde uma perspectiva são “outros”, “alteridade”, ao mesmo tempo também são “eu-mesmo”, “nós”. Ou seja: carregamos em nosso sangue, DNA, cultura, os povos originários. 

Nesse sentido, há uma grande reforma a se operar na Educação, não apenas curricular, mas na formação de professores, produção de material didático, dentre outros.

A questão é, para citar Roberto Gambini (“O espelho índio: a formação da alma brasileira”), que precisamos, de uma vez por todas, de parar de negar nossa Mãe e, portanto, nossa alma e ancestralidade. 

Esse é um processo de “descolonialidade” dos mais significativos: pois o índio não é um “outro”, é minha própria mãe e, desde logo, sou “eu”. Esse olhar para o espelho, sem negarmos nossa mãe ancestral gerará uma verdadeira revolução individual e coletiva, com impactos promissores para o devir-Brasil.” 

Há um tempo venho pensando sobre algo que me gerou uma certa inquietação. 

Pouco se ouve falar a respeito da influência indígena na música brasileira, a não ser quando se trata de algum estilo bem folclórico, como por exemplo, o caboclinho. 

Texto “O samba indígena”

Tive acesso a um texto cujo título é “O samba indígena”, de autoria de Fábio Gomes. Fiquei curioso. O texto é bem interessante. 

Resumindo de uma forma simples, o autor sugere o nascimento mais rudimentar do samba entre os Kariris do nordeste brasileiro. 

Fala disso também o grande Gilberto Gil no documentário “os guardiões do samba”, que tive a oportunidade de ver no canal curta. 

Depois teve contribuições dos jesuítas e, por fim, dos africanos, até porque sem eles o samba não teria chegado aonde chegou. 

É importante ressaltar que Fábio Gomes não diz que o samba é puramente indígena, mas que pode ter recebido sua primeira contribuição de uma cultura geograficamente originária do Brasil.

Citando em seu trabalho outros autores, Fábio nos traz o seguinte parágrafo:

BRANDÔNIO – Nenhuma outra mais que a levantar o primeiro a voz, e dizer o pássaro está sobre a folha, ou a folha sobre a água, ou outras coisas semelhantes, e com isto vão continuando sempre, dizendo uns e respondendo outros, porto todo o espaço que lhes dura a borracheira, servindo as mulheres de tiple, por alevantarem a voz mais delgada. ”  

Essa é uma característica presente na música brasileira, como o samba de partido alto e o forró, que é o canto e/ou o improviso de um solista e a repetição de um tema por um coro. 

O coro é praticado por várias etnias. Muitos Guaranis o fazem desde cedo: 

Outra curiosidade mencionada no texto de Fábio Gomes é um samba da Portela. Segue:

“Ainda era possível, portanto, improvisar como nas antigas aldeias no desfile de 1942, quando a origem indígena do samba foi proclamada com todas as letras na Praça Onze. Nesse ano, a Portela sagrou-se bicampeã cantando o samba de Alvaiade “A Vida do Samba”: “Samba foi uma festa dos índios /Nós o aperfeiçoamos mais /É uma realidade /Quando ele desce do morro /Para viver na cidade. /Samba, tu és muito conhecido/No mundo inteiro /Samba, orgulho dos brasileiros /Foste ao estrangeiro /E alcançaste grande sucesso /Muito nos orgulha o teu progresso.

No Youtube há uma versão dessa canção: 

Fora isso, menciona-se o fato de eles dançarem fazendo os maiores trejeitos e gatimanhos, como diz o antigo manuscrito, o que pode nos sugerir uma dança diferenciada. 

Encontram-se várias outras informações a respeito do tema, tornando-se interessante a leitura desse texto: 

http://docplayer.com.br/3662291-O-samba-indigena-por-fabio-gomes.html

Samba de coco

No seguinte vídeo, podemos ver que o povo Fulni-ô de Pernambuco tem como tradição um gênero musical chamado por eles mesmos de samba de coco: 

Eu mesmo já estive duas vezes em apresentações do coco Fulni-ô, quando alguns dessa etnia estiveram em Fortaleza. O chacoalhar dos maracás nos remete ao samba. 

Com isso, tento mostrar algo atual com a sugestão trazida acima no que diz respeito ao possível nascimento do samba dentro das culturas antigas nordestinas. 

Embora o coco seja muitas vezes chamado de samba de coco, podemos separar estas duas nomenclaturas em dois gêneros musicais: o samba e o coco. 

E entrando agora no coco, como expressão cultural nordestina, já que este pertence à grande família do forró (devido a sua célula rítmica), deduzimos a provável existência de influência indígena também na música nordestina. No parágrafo seguinte apresento a explicação. 

Ouvi num documentário sobre brincantes, chamado Tarja Branca transmitido pelo canal curta, onde a profissional de dança entrevistada, Andrea Jabor, falava o assunto. Segue abaixo transcrição oficial disponível na internet.

“A primeira coisa que vem à cabeça é que o samba é reza. E você vai para uma via que não é racional, não é uma via de entendimento, é uma via de entrega… 

Aquilo te leva. Quando você vê, você foi… você foi. E isso é uma entrega que a gente, na verdade, eu acho que anseia para ter na vida. 

Só o fato de dançar o samba de coco – que é isso que vou mostrar para vocês rapidamente para não ficar uma coisa maluca. 

Ele vai para frente e para trás. Por que ele tem a matriz indígena? Porque ele é homolateral, ele joga para um lado e para o outro. O índio tem muito essa coisa aqui… Um, dois, um dois… Ele trabalha assim.

O samba carioca, por exemplo, ele é todo cruzado, 

atravessado no “S”. Parece que cai uma ficha coisa assim, sei lá… de uma ancestralidade, de um lugar que te organiza de dentro para fora, né?

Então o exercício de fazer os passos… Samba de coco estou dando como um exemplo…

Pega essa menina para dançar

No coco eu quero ver ela girar

Que tem essa levada, essa brincadeira, essa coisa… me trouxe uma experiência, uma vivência corporal em que eu me entendi diferente.”

Nossa ancestralidade

Como é importante nossa ancestralidade…

A título de uma curiosidade adicional, compartilho aqui uma outra canção de uma cultura amazônica cuja levada lembra um baião: 

Refletindo agora sobre o xote, um subgênero (como o baião, o xaxado, o arrasta pé ou quadrilha) da grande festa e estilo musical forró, observa-se que a maneira de dançar também possui essa jogada lateral, “dois (passos) pra lá, dois pra cá”. 

Ainda sobre o xote, dia 15 de abril de 2021 foi transmitida uma live por André Marques, pianista do grupo do grande Hermeto Pascoal, durante a qual ele esclareceu que a levada do xote pode ter uma subdivisão ternária, como um 3 dentro do 2 (dentro do compasso binário). 

Escutei um chacoalhar de maracá semelhante a esse 3 que pode ser tocado pela zabumba no xote no seguinte vídeo (a partir de depois de 30 segundos do início, durante aproximadamente 10 segundos), também podendo ser visto nas quadrilha acelerada: 

https://www.instagram.com/tv/COT8j-zlGrh/?igshid=skquj1kmumyj

É interessante notar que essa sensação existe no partido alto. O violonista e guitarrista Nelson Faria explica esse fenômeno de um acompanhamento 6/8 feito por quiálteras em cima de um compasso 2/4.  A partir do sétimo minuto do vídeo, ele fala justamente disso: 

Nelson menciona um efeito afro causado por essa levada. Ao mesmo tempo e além da batida do maracá acima mencionada, a peça “bailado indígena” da pianista cearense Branca Bilhar está escrita em 6/8: 

https://acervo.casadochoro.com.br/files/uploads/scores/score_1972.pdf .  

Percebe-se que as duas culturas (generalizando, porque essas duas englobam inúmeras) guardam uma semelhança nesse caso.

Um outro acompanhamento para o xote que pode ser realizado pela mão esquerda do sanfoneiro ou do pianista é o “baixo e acorde, baixo e acorde”, o qual dá também a sensação do passinho “para lá e para cá”. 

A partir do sexto minuto do vídeo, o professor explica essa levada:  

Apenas para trazer uma curiosidade que observei, compartilho uma peça que possui melodia quebrada (síncope). 

Não é exatamente uma música brasileira, mas achei interessante trazer aqui. Toda a região da cordilheira dos Andes tem bastante influência ameríndia. Segue o exemplo: 

A primeira parte após a introdução apresenta a célula rítmica conhecida como célula brasileira (semicolcheia, colcheia e semicolcheia). 

Através do Instagram, troquei algumas palavras com André Mehmari (um dos maiores músicos da atualidade) a respeito do tema. 

Ele havia publicado um excerto de uma apresentação de uma orquestra, em que aparece falando rapidamente sobre a música indígena. Quando vi, estabeleci contato com ele. 

Na nossa troca de mensagens, falei do meu incômodo e da probabilidade de haver um forte sentimento indígena na nossa arte, ao que ele respondeu: “Verdade. 

O tema nordestino Caicó é completamente indígena. 

O uso de pentatônicas e hemíolas também. Um longo assunto.” 

Aqui o endereço da nossa conversa: 

https://www.instagram.com/p/CBG6JFBHMIQ/?igshid+195xuw9o6uiqw

Observação:

Segundo wikipedia: “denominam-se escalas pentatônicas, em música, ao conjunto de todas as escalas formadas por cinco notas ou tons. As mais usadas são as pentatônicas maiores e menores, que podem ser ouvidas em estilos musicais como o blues, o rock e a música popular e a hemíola é um termo da musicologia que descreve um padrão rítmico onde dois compassos ternários são articulados como se houvesse três compassos binários”.

E aqui, o endereço do espetáculo agora mencionado, do qual participa Marlui Miranda, referência para André no assunto:  

Escalas pentatônicas, dito de uma forma bem simples, são escalas com cinco notas. Hemíolas, segundo definição da página Wikipedia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Hem%C3%ADola) :  

“Hemíola (grego ἡμιόλιος, hemiolios, “contendo um e meio”) é um termo da musicologia que descreve um padrão rítmico onde dois compassos ternários são articulados como se houvesse três compassos binários.”  

De uma certa forma, isso se assemelha à levada “tercinada” da zabumba no xote ou à levada do partido alto. 

É inegável que a antiga efervescência cultural no Nordeste também tenha gerado as bandas cabaçais ou bandas de pífano, que são muito presentes na região do Cariri. 

Flautas rústicas e muitas vezes os trejeitos em suas apresentações me fazem pensar nessa ligação. Lembrando-nos das “marmotas” na dança dos antigos Cariris, deixo aqui um vídeo que ilustra bem essa prática: 

A dança do marimbondo, na apresentação dos irmãos Aniceto e Marimbanda no Theatro José de Alencar, em Fortaleza, Ceará.

Como são ricas as várias culturas espalhadas nesse Brasil! 

Em 2019, vi uma apresentação do grupo Mawaca no IFCE, do qual participam Djuena Tikuna, Gabriel Levy e outros músicos. A língua Tikuna é tonal (uma mesma palavra dita com entonação diferente, tem outro significado). 

Não sei se isso está relacionado, o fato é que na música de Djuena, há sons/notas diferentes das doze notas a que estamos habituados, como ocorre em alguns estilos da música oriental. 

São micro tons, sons presentes dentro do intervalo de meio tom. O Gabriel pediu para ela cantar determinado trecho de uma canção e mostrou que a nota cantada parecia um Lá bemol, mas não era exatamente. E como ficou bonito aquele som da apresentação com sanfona!

Outra característica bem possível de provir dos nossos primeiros antepassados está relacionada à sonoridade. Um instrumento muito comum na nossa música é a flauta, que toca melodias principais no choro e faz arranjos no forró e no samba. Temos várias gravações assim…

Curiosamente, um som parecido a um de maracá soa no fim do clássico xote numa sala de reboco. Essa sonoridade, que também feita por reco-reco, é bem comum na cumbia e na chicha, gêneros sul-americanos.

Agora, pensando em influência melódica, compartilho essa música de Danit cuja melodia inicial lembra um pouco o caminho de algumas melodias brasileiras: 

Ela repete uma frase, faz algo parecido logo após (no caso aqui, abaixo/mais grave), em seguida refaz o primeiro caminho para cair no descanso/repouso. Isso me lembra o baião “Juazeiro” de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira e os refrãos dos sambas “Com a perna no mundo” e “Pequena memória para um tempo sem memória (A legião dos esquecidos) de Gonzaguinha:

Usando essa mesma melodia inicial como exemplo, observa-se também a repetição de notas consecutivas. O “toque duplo” é bastante usado na música nordestina. A terceira parte de forró Brasil, por exemplo, apresenta tal característica melódica: 

Como curiosidade, mostro um forró que recebe uma pequena influência linguística:

O nome da peça é “Forró do xenhenhem”. A última palavra do título vem do tupi e poderíamos traduzir como “minha fala”, “tenho fala” ou “sou falante”. E pelo contexto da letra da música, a ideia está coerente. 

Aquele jeito de cantar, algo como “lará laiá, ô lelê” etc., tão presente no samba, é bem utilizado pelos Kariri-xocó. 

É evidente o intercâmbio cultural ocorrido na cultura brasileira e, portanto, na música. Somos uma mistura e cada matriz étnica deu sua contribuição. 

A seguinte música exemplifica claramente tal mestiçagem musical na Colômbia, que é como o Brasil em sua formação popular:

Com as ideias apresentadas aqui, divulgo prováveis contribuições de nossos povos indígenas em nossa cultura. 

Escrevi um pequeno texto sobre possíveis influências da arte indígena na música brasileira.