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Minha mestra, minha amiga, minha arte…

Aos 7 anos eu já estudava piano, depois violão, flauta doce… minha arte me fazia feliz. 

Um dia, chegou na minha escola uma professora especial.

Minha Mestra Maria de Lourdes

Dona Maria de Lourdes ensinava educação artística. 

Mais que isso, ela era desafiadora, fosse na música ou nas artes plásticas; ela promovia a liberdade de escolha, de acordo com nossos talentos! 

Com esse espírito, ela resolveu criar um coral. 

Caramba, ali descobri a arte! Ali, naquelas aulas! 

Mal começaram os testes e eu já estava na fila.

Agora eu era do coral, aquele grupo de pessoas obstinadas pela arte. Tive que vencer a timidez e, às vezes, também tocava piano nos ensaios e em algumas apresentações. 

Certa vez fomos tocar na Câmara Municipal de São Paulo. Após muitos ensaios, chegou o dia, mas como a apresentação era no 3º. andar e não tinha elevador, eu coloquei aquele teclado nas costas e subi para tocar e acompanhar o coral. Naquela época não era teclado, chamávamos de órgão e era pesado, mas o amor à arte era muito maior. Mais que diversão, era emoção pura!

Nessa fase eu queria as melhores emoções que a vida apresentava, éramos jovens.

A ópera

Nosso coro foi convidado para participar da ópera Tosca de Puccini.

Meu primeiro contato com a ópera, o canto chamado lírico era diferente. 

Como era forte! 

O Teatro Municipal de São Paulo era lindo demais e nós, com 12 ou 13 anos de idade, podíamos correr pelos corredores quando não estávamos ensaiando, uma aventura!

Lembro sempre do meu encontro com um piano de calda, ele estava no alto de uma escadaria, acho que ia ter alguma apresentação, aquele instrumento me fez sonhar! Como era lindo! 

A ópera é tão dramática, tem uma força que não se encontra em outras músicas. Quando você conhece as histórias que estão por trás daquelas palavras cantadas em outros idiomas, você descobre a força dos dramas ali interpretados. 

Não consigo esquecer quando ouvi aquela grande soprano cantar sobre o amor. Ali eu soube que a música me embalaria para sempre.

Nessa época, ensaiamos muito para participar de uma apresentação com 40 mil vozes no estádio do Pacaembu em São Paulo. Vários corais do estado inteiro cantaram juntos músicas de Natal, vocês precisariam sentir a força daquelas vozes juntas! 

Naquele momento fiz outra descoberta, senti o que era a fé, aquela música estava direcionada ao céu! Era muito mais do que uma oração! 

Mas aos 14 anos a emoção era mais que especial, iríamos cantar junto com Pavarotti, ver de perto um mestre cantando! Não tem como colocar em palavras o que se sente ao ver um ídolo de perto. 

Isso tudo já teria me levado ao meu amor à música.

Mas, junto com Dona Maria de Lourdes, entrou na minha vida uma personagem especial, a Professora Linda, ela era amiga de minha mãe!

Um dia ela apareceu nos ensaios do coral, sentou-se ao piano e passou a tocar para nossos ensaios.

Minha mestra e minha amiga Linda Tonon, pura arte!

Linda, uma das mulheres mais incríveis que conheci, professora de português e latim no meu colégio. 

Ela me ensinou mais que o português, me ensinou sobre a força que o ser humano deve ter para enfrentar toda e qualquer situação que se apresenta na vida. 

Mulher maravilhosa, viveu o amor e as lutas por liberdade, defendeu o direito dos professores e era dona de uma cultura invejável. Durante muitos anos ela frequentou minha casa. 

Quando se sentava ao piano, eu parava tudo que estava fazendo para ouvir, pois era maravilhoso o som que ela tirava daquele instrumento, era mais que técnica, era emoção!

Se você estiver lendo minha história, vai achar que Linda teria sido meu primeiro grande amor, pela admiração que demonstro. Mas não, ela me ensinou que há diversas formas de amar!

Eu amava o que ela representava, uma pessoa forte, com a arte nas veias, com a força de uma leoa para interpretar a nona de Beethoven e a doçura de uma borboleta quando contava suas histórias de amor, como se fosse uma valsa ou um bolero suave!

Ela era a essência do mestre, do professor…

Até hoje, quando vou dar uma aula ou palestra, tento seguir seus passos.

Não tinha como não chorar quando ela tocava o Adágio de Albinoni! Infelizmente, na época não havia celulares para gravações. 

Il Divo gravou de forma brilhante o Adágio e, se alguém quiser se emocionar, ouça! Talvez assim saiba o que ela me fazia sentir.

Il Divo – Adagio (Live Video) – YouTube

E quando ela tocava Piaf, principalmente o Hino ao Amor, a gente podia sentir a emoção da própria Piaf na sua frente. 

Convivi com Linda muitos anos, ela era quase uma mãe para minha mãe. 

Eram conversas deliciosas, onde muita história de vida e de experiências nos encantavam.

Na música, ela viajava do clássico para a MPB com uma rapidez invejável. Tirava facilmente um samba, um bolero do piano com a mesma tranquilidade que tocava uma peça de Mozart.

Algumas músicas eu aprendi ali, comecei a tocar no piano sem partitura, eu tocava o que ouvia, pois o que ouvia me agradava demais! 

Foi com essa convivência que conheci as obras de Pixinguinha, Ataulfo, Cartola, Adoniran, entre tantos outros. 

A arte em geral é a minha vida

Amo a arte em geral, fiz desenho na Pan-Americana, escola de teatro, estudei métodos modernos de piano. 

Deixei a arte entrar em minha vida, abri as portas e as janelas e deixei acontecer! 

Muitas pessoas entram nas nossas vidas e despertarem algo que você quer fazer, ouça esses sinais. 

Eu parei de tocar instrumentos, parei de cantar e nunca cheguei a atuar no teatro. Infelizmente fiz isso por preconceito, por medo e por dinheiro.

Com o tempo, aprendi que a vida é feita de escolhas e que não devemos arrastar culpas pelas escolhas feitas. Pois todas nossas escolhas nos fazem crescer como ser humano. 

Assim, decidi guardar na alma as opções que deixei para trás, pois tinham sabor de “Quero mais”.

Mudei minhas escolhas!

Mas nunca me fechei ao que era novo!

A arte sempre esteve na minha vida indiretamente, como expectador, assisti constantemente muitas peças, filmes, shows. Eu me transportava para o palco a cada nova apresentação. 

Eu me sentia ali, no palco!

Hoje eu estou me realizando parte dos meus sonhos falando e divulgando a arte. Quem sabe, um dia desses, tocando piano…

Obrigado Linda, por tudo que me ensinou sobre música e sobre a vida! 

Nossas almas realmente sempre tiveram afinidade, até nascemos no mesmo dia!

Infelizmente, nossa foto está se apagando com o tempo! Mas nossa amizade será eterna!

Se quiser assistir um filme forte e com muita música boa: