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Guaicurus e A Barroca Zona Sul 

A Barroca Zona Sul cantou Guaicurus, povo indígena guerreiro, e ele se fez presente no sambódromo. Na voz, na bateira e na dança! Assista!

Pessoal eu hoje vou fazer algo muito especial! 

Vou apresentar um lindo texto!

Esse texto é o samba enredo de escola de samba Barroca Zona Sul de São Paulo e te desafio a ouvir com mais atenção os sambas das escolas, suas letras trazem história, luta, beleza, valorização de culturas e nações. 

Samba enredo 2023

Nesse caso temos toda uma história indígena que iremos desvendar juntos.

A noite e o amanhecer

Natureza, Panorama, Noite, Lua, Luar

Anoiteceu!

No verde que abriga minha aldeia

Lamento ao esplendor da lua cheia

Raiou! A maldade do Carcará

Desperta a fúria Mbayá

Pajé evoca meus ancestrais

Quem ousava destruir a paz

É ventania vinda de além-mar

Ouça, a natureza que se manifesta

O coração é arco, a mente é flecha

Ser livre é a lei do meu lugar

O carcará

Carcará é uma ave da família dos falcões, muito comum no centro da América do Sul, tem esse nome pelos sons que emite para defender seu território e que chamou a atenção dos indígenas que lhes deram esse nome. Ave inteligente, de bom porte.

Mbaya, povo indígena da América do Sul, mais tarde chamado Guaicuru. 

Carcará, Gavião, Animal, Vigiando

Nesse trecho podemos ver a invasão do Brasil, habitado apenas por indígenas, onde os povos colonizadores adentram e retiram a liberdade das nações locais e não respeitam a natureza.

Auê auê, guaicuru chama pra guerra

Eu sou o grito que amedronta a floresta

Auê auê, guaicuru não tem senhor

Cavalgando mata adentro

Enfrentando o invasor

Essa estrofe mostra a garra, a força dessas nações frente aos que entram em seu território. 

Grito de guerra

AUÊ, AUÊ Um grito de guerra ecoa e chama o povo a defender suas raízes. Se eu fosse você, eu aprenderia esse grito e defenderia nossos povos originários.

Guaicurus um povo forte, guerreiro que cavalgava muito bem e que lutava com força e certeza na vitória.

Fogo E Água, Mãos, Lutar, Incêndio

Lágrima escorre do meu rosto

Pintado de dor e de traição

Página da história esquecida

Escondida no olhar de cada irmão

Brasil, meu país menino

O passado não me fez servil

Clamo ao cavaleiro da floresta

Verdadeiro filho dessa pátria mãe gentil

Hei de preservar meu aracê

Meu povo é sentinela Kadiwéu

Termos e significados

Aracê em tupi-guarani significa amanhecer, aurora, cantos dos pássaros pela manhã.

Kadiwéu, dentro da linguagem dos Guaicurus, era um povo forte, guerreiro que deu apoio ao Brasil na Guerra do Paraguai e, que receberam territórios por esse feito.

Panorâmico, Pôr Do Sol, Amanhecer

Essa belíssima estrofe mostra que somos um país jovem, quando consideramos apenas como história os últimos 500 anos, mas temos muito mais que isso, somos fortes, guerreiros, temos raízes profundas nessa nossa terra Brasilis.

No pantanal há de resplandecer

O verde das matas, o azul do céu

O pranto da alma apaga essa chama

É luz de iara, tupã e caaporã

Dono da terra é falange guaicuru

Barroca é resistência por um novo amanhã

Iara, uma das mais belas lendas de amor e luta pelo poder, o bem e o mal se enfrentam, infelizmente o bem sofre muito e torna Iara uma história triste.

Nuvens, Paraíso, Céu, Poderoso, Deus

Tupã o grande Deus indígena

Caaporã, numa tradução literal do tupi-guarani teríamos caá, como mato ou morro e porã como bonito, então teríamos mata bonita!

Pantanal

Esse trecho, além de uma melodia poderosa, traz toda a força das palavras para a defesa dos ecossistemas do Pantanal! 

Os indígenas aqui apresentados são típicos do sul e centro-oeste brasileiro, estando muito presentes no bioma do Pantanal.

Acho super importante falarmos do Pantanal, pois a Amazônia está nos jornais e os demais biomas não estão mais na grande mídia e precisam ser defendidos também.

Faz pouco tempo escrevi um livro que chama “Contos e Lendas” onde eu falei de nossos personagens importantes. 

Contei as lendas, algumas eu mantive originais, outras resolvi dar um tom mais heroicos a nossa gente, então Iara, Curupira, Boitatá e outros personagens podem ser vistos como heróis de verdade. 

Acho que se eles protegem nossas florestas e matas não podiam ser colocados feios e maus. 

Você pode dizer: você mudou o original? 

Na realidade existem muitas versões de cada uma das histórias, eu só resolvi dar a minha versão, com um toque de romantismo, de defesa do nosso meio ambiente e de nosso povo originário.

Respeito ao compositor

Uma homenagem especial aos compositores da agremiação:

  • Andre Mattos 
  • Claudio Mattos 
  • Fernando Negão 
  • Julio Alves 
  • Mikaia 
  • Morganti
  • Pixulé 
  • Rodrigo Alves 
  • Sukata 
  • Thiago Meiners 
  • Thiago Savanna 
  • Tubino 
  • Wilson Mineiro

Obrigado à escola e a seu povo que me receberam tão bem, vou estar no desfile e vou cantar esse samba a plenos pulmões, pois acredito que é mais que um samba, é uma forma de expressar meu amor ao meu país, a minha origem e essa terra linda que amo demais.

Povos originários e outras Escolas de Samba no passado

Os povos originários estiveram em grandes sambas, vocês querem ver só alguns exemplos: 

A Mocidade de Padre Miguel em 1975, cantou o mundo fantástico do Uirapuru; em 1977 foi a vez da Mangueira e Panapanã, o segredo do amor; em 1987 A Vila Izabel cantou e encantou com Raízes; a Tradição cantou o Xingu, o pássaro guerreiro em 1985; A Unidos da Tijuca trouxe “O Dono da Terra” e em 2020 a Portela entrou no Sambódromo com a história de paz que se vivia na região do Rio de Janeiro antes dos invasores, o enredo era “Guajupiá, terra sem males”. Guajupiá era o olimpo dos nossos indígenas, um local de harmonia, respeito e vida farta, os índios que migravam pela costa se surpreenderam com a beleza do Rio de Janeiro e o chamaram de Guajupiá!

Canto das Três Raças

Para encerrar esse texto e homenagear os autores do samba da Barroca vou trazer uma estrofe do Canto das Três Raças, de Mauro Duarte e Paulo Pinheiro, imortalizado por Clara Nunes

“Ninguém ouviu, um soluçar de dor

No canto do Brasil, um lamento triste

Sempre ecoou, desde que o índio guerreiro

Foi pro cativeiro e de lá cantou”

(Faço desse trecho uma homenagem a eterna Clara Nunes e aos Autores dessa obra prima de nossa poesia e música)

Vou finalizar com imagens da Quadra da Escola e o tema desse ano: