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Dando significado ao Palhaço!

Imagem do “palhaço”

Nesse texto vamos falar sobre “O palhaço” e “O artista”.

O conteúdo se baseia nas falas e na forte presença de Carlos Maldonado na live “O efeito da arte em nossas vidas” do Laboratório Krono de 22/10/2020.

Eu não pretendo transcrever na íntegra a live, vou trazê-la para o campo da minha redação e da sua leitura. Vamos construir juntos conhecimento e saber!

A autoria será compartilhada entre o artista que se dispôs a falar, um ouvinte que se sentiu tocado pela fala e se inspirou na leveza das frases (o que foi suficiente para organizar as ideias num texto) e buscar no leitor aquele que poderá ser a terceira ponta nessa construção literária.

Vamos, enfim, trazer o conhecimento para o plano do pensamento.

 Preservei-me, o direito de não dizer o que é certo ou errado, pois dependeria de um ponto de vista, criei um texto livre, solto e que, em parte é seu, Leitor!

Para começar a introduzir a inovação, foi muito bom verificar como Carlos respondeu sobre sua formação, quando questionado!

“Sou 85% água, pelos, pele…”

Em seguida, o ator se posicionou sobre a necessidade de se descontruir esse questionamento e suas respostas padronizadas, tão básicas em entrevistas de todos os tipos!

Nosso autor não falou sobre seus cursos e títulos, falou muito mais, nos contou sobre suas pesquisas e experiências!

Autor – “Pesquiso algumas linguagens artísticas, como teatro de improviso, performance, contação de histórias, danças contemporâneas e tudo que estiver relacionado ao palhaço, muito ligado ao estado de presença, o aqui e agora, e a relação com o outro”. 

Sua construção artística do palhaço está ligada à troca, ao olhar, ao momento, todas as linguagens pesquisadas agregam, compõem!

  • “O palhaço é muito isso, 
  • o aqui! 
  • o agora! 
  • o olhar!
  • Ele independe de todos os padrões tradicionais do circo, dos esquetes! 
  • Ele se forma no jogo com a plateia!”     

História

Considerando aspectos históricos da arte, o palhaço é uma das construções artísticas mais antigas e possui grande importância. 

Se pensarmos no bobo da corte por exemplo, por um lado ele é aquele que brinca, faz rir a autoridade máxima o “Rei”, mas por outro lado, pode ser contestador, questionador. O palhaço chega quase ao nível subversivo, pois pode, por meio das piadas, questionar muito do que não se questiona de forma mais séria. Ele pode quebrar regras, tabus e normas! 

Agora quando vemos o circo tradicional, as atrações são tensas, geram medo, o público se preocupa com a segurança dos artistas, com seus riscos, entre as atrações, a presença do palhaço quebra essa tensão, é o momento certo para as pessoas respirarem aliviadas e caírem na risada.

Quando as pessoas vão ao circo e olham para trapezistas, contorcionistas, bailarinos, acrobatas, tendem a se sentir inferiorizados perante aquela facilidade de execução dos movimentos; nesse momento surge o palhaço imitando os grandes artistas, mas de forma engraçada. 

É aí que o palhaço diz a todos que somos humanos, que todos somos diferentes e imperfeitos, limitados, mas maravilhosos nas nossas qualidades.

O palhaço e o ator diferem no plano da interpretação?

– O ator cria uma parede imaginária na frente do palco, para que entre na cena sem a interferência da plateia, na maioria das peças. Se queima uma lâmpada ou alguém espirra, o ator segue (exceto em peças onde a interação se faz necessária), vai desconsiderar a situação!

– O palhaço interage, sente o público, reage! Nos exemplos acima, ele vai falar que esqueceram de trocar a lâmpada ou sem dúvida vai falar “Saúde” e brincar que cuide da saúde. Vai colocar luz no evento extraordinário!

O palhaço faz, muitas vezes, rir de si mesmo!

Mas muitas vezes isso tudo é muito difícil.

Nosso mundo hoje é muito competitivo, as pessoas querem ser diferenciadas, querem superar expectativas, não admitem erros, apontam os erros alheios.

O palhaço mostra muitas vezes nossas fragilidades e isso pode ser complicado.

Atualmente é difícil enxergar e aceitar as imperfeições, os erros, as limitações. Quando damos risada do palhaço, no tropeçar e cair, no rasgar sua calça e eu e nós, liberamos comentários e damos risada, estamos extravasando nossas limitações.

O Palhaço e a criança se assemelham?  

O palhaço dá ao adulto a possibilidade de se sentir criança, a inocência infantil e a sabedoria do adulto convivem na relação palhaço-expectador. 

O estudo da palhaçaria é um resgate para o olhar da criança. 

A criança olha com curiosidade tudo que se apresenta a ela, o ambiente que vai colocando sobre as crianças os medos, as vergonhas. 

A criança não tem medo de errar. Ela cai e se levanta sem se preocupar com nada. Não tem medo do ridículo. Não tem medo de experimentar nada. De criar… Não vê maldade…Ela vê o que é genuíno!

Alguns tipos de palhaço:

Branco e Augusto

  • O tradicional, próximos de Didi e Dedé, Gordo e Magro, para os quais podemos dizer que “O palhaço é a criança anjo”, não anjo no sentido religioso, mas na leveza, na verdade, na pureza.

Podem ser duplas engraçadas e complementares, ou individuais, que riem de tudo!

Bufão

  • O bufão é a criança demônio, é o contraventor, quebras as regras, ele cospe as verdades, apavora, viaja nas emoções! É muito curioso. Mostra o que é muito profundo da alma humana.

Um exemplo seria o italiano Leo Bassi, ele enlouquece a plateia, diz que as portas estão trancadas e que ele vai colocar fogo no teatro, chega a ser grotesco, mas faz com que todos repensem sentimentos que estão ocultos no ser humano.

Antes era chamado de dionisíaco ou trágico.

Durante muito tempo, as pessoas consideradas fora do padrão comum eram mantidas fora do convívio da sociedade, os leprosos, os anões, os deficientes, pois não podiam conviver com as “chamadas pessoas normais”; as religiões, em especial a católica na Idade Média, reforçavam essa situação de isolamento. 

Nos povoados antigos essas pessoas viviam nas florestas, distantes do convívio. 

Uma vez por ano, e apenas uma vez, essas pessoas podiam conviver com todos, era o dia da Blasfêmia, o palhaço bufão nasce dessas pessoas que vinham nesse dia blasfemar! 

O palhaço é um transgressor, contesta nossas regras e costumes.

Hoje temos uma banalização dessa linguagem, a criação do palhaço vinha do questionamento, do sarcasmo, mas hoje é simplesmente uma pessoa com nariz vermelho, peruca colorida que distribui balas e diverte crianças…

Para pessoas que encaram o palhaço como essência, há necessidade de um trabalho psicológico, onde o artista se analisa profundamente, para poder atuar com qualificação, é um processo doloroso.

Maldonado citou “As dores e as delícias de ser o que é!”, pois traduz a vida do artista “palhaço”.

Esse profissional precisa de aceitação, evolução e crescimento pessoal para atuar.

Carlos fala um pouco sobre sua atuação atual nas apresentações. Após 20 anos de estudos da linguagem do palhaço, considerando o teatro do improviso, psicodrama e formas de atuação, ele agora realizou o sonho de levar essa experiência para as ruas, pois lá, ele pode ter o contexto mais completo de pessoas, o bonito, o feio, o louco, o engravatado, o pobre, o rico, o branco, o preto, o mendigo, a mulher, o homem, o gringo, lugar onde todos se encontram. 

Maldonado e atuação

Para começar seu trabalho, o artista optou por usar uma roupa preta, um nariz vermelho, pouca maquiagem, acentuando formas que pareciam engraçadas!

Numa primeira fase fez um trabalho só observando, sem interagir, pesquisando, entendendo as pessoas. 

– “O medo das pessoas por um arquétipo é muito interessante”. 

Fez uma sugestão, faça esse exercício: 

Fique só observando as pessoas, torne-se um observador, as pessoas reagem de maneira diferenciada a alguém que só observa!

Acho que todo mundo deveria experimentar!

Após esse período de observação e atuação desenvolveu estilos próprios.

Um dos estilos de Maldonado ele nomeou de expogizchão, onde se leva muito giz colorido, vestido com seu estilo de palhaço, permite que as pessoas escrevam, desenhem e interajam. 

Uma música de fundo um ritual com vassoura limpando o chão, dançando e construindo conexões pessoais. 

As crianças se conectam muito mais rápido!

O adulto tem medo de interagir com o desconhecido. 

Nesse momento e de acordo com a disponibilidade do público, começam os convites para participação e interação. 

Essa intervenção é muito interessante, pois muitas pessoas escrevem suas histórias, uma senhora disse que era um tipo de acupuntura social! 

Todo tipo de gente quer participar e escrever e deixar sua marca. Você tem morador de rua, gringo, turista e criança escrevendo.

Revela muito a necessidade das pessoas de se expressarem!

Pode ser feita com dança, com carvão. Existem muitas formas de conexões o importante é ficar atento a elas.

Essas interações possuem um aspecto muito especial, duram horas e com o passar do tempo, o artista pode interagir com poucas pessoas e de repente com muitas e o artista tem que estar inteiro o tempo todo.

Esse trabalho já foi feito por Maldonado em vários lugares. Destaque para Avenida Paulista, um lugar onde todos esses públicos interagem diariamente. Por um período de 2 anos esteve na Irlanda e pode circular em outros países e se apresentar, não era necessário nada além da roupa preta do nariz e da liberdade de interagir. 

Você se conecta no olhar, e pode arrancar sorrisos, pode deixar alguém bravo, pode receber palmas ou não.

Quando o artista interage na maioria das vezes gera o afeto, mas pode despertar a ira, o medo, a descoberta de algo que incomoda.  

Gostei muito de uma fala de Carlos sobre a diferença entre passar o chapéu no Brasil e no exterior, aqui as pessoas pensam que é “esmola” lá fora “reconhecimento ao trabalho”. No exterior, as pessoas param para assistir quando gostam do trabalho e pagam para o artista que se apresenta como se estivesse num local privado. 

Um depoimento realça muito essa desvalorização do artista de rua por parte dos brasileiros. 

Numa apresentação, uma moça estava acompanhada de marido, filhos e a babá. Brincou, interagiu e depois elogiou muito e fez uma comparação: 

– Se eu tivesse ido ao shopping teria pago estacionamento, e a cada brinquedo com cada criança gastaria 15 reais, eu teria gasto no mínimo uns 150 reais. Foi muito mais divertido aqui!

Mas na hora de ir embora, ela colocou apenas 2 reais no chapéu! 

  • Qual o sentido de valor que possui essa pessoa?
  • É essa mentalidade que precisa mudar! 
  • Valorizar o que é bom, o que diverte!

Quando questionado:

Como poderíamos entender a expressão “Ser feito de palhaço”?

– Não posso afirmar que seja isso, mas acredito que tem tudo com o palhaço Branco e Augusto, onde existe a figura do opressor e o oprimido. Pode ser visualizado no Gordo e o Magro, Didi e Dedé, sempre existe um esperto e aquele que está sempre pronto a ser enganado. Logo, a expressão deve ter sua raiz nessa relação.

Finalizando…

Essa live agregou muito na construção da figura do “palhaço” como trabalho artístico atuante, onde o público interage e dá retorno imediato ao artista.

Continuaremos a procurar mais artistas e trazer suas opiniões, experiências, atuações, lições, momentos e tudo que possa te fazer entender mais a alma do artista!

Agradecemos a todos os fotógrafos das fotos do Instagram de Carlos Maldonado, em especial a Apolo Santos que assina algumas delas.

Até breve!