
A natureza e meu lado espiritual
Não me recordo com precisão, mas acredito que a história que contarei remonta ao feriado prolongado de Finados de 2004.
Naquela época, tinha por volta de 23 anos, cursava Engenharia Química Industrial em Lorena/SP e já trabalhava. Tinha, e ainda tenho, um grupo de amigos e amigas muito próximos e queridos, onde resolvemos viajar a Foz do Iguaçu para aproveitar o feriado.
Durante todos os anos de faculdade tivemos poucas oportunidades de viajarmos juntos e esta parecia uma ótima oportunidade.
Planejando…
Já no planejamento da viagem e com orçamento curto, decidimos ir de ônibus, pois era muito mais barato e poderíamos viajar durante a noite.
A parte que ninguém se atentou foi que compramos bilhetes de um ónibus convencional, e não ônibus-leito. E assim fomos, por longas 20 horas, devidamente sentados de Aparecida/SP a Foz do Iguaçu/PR.
Não dá para negar que a viagem foi cansativa, mesmo com as paradas para banheiro e alimentação, mas como em qualquer viagem e ainda mais nesta idade, a ida é sempre uma festa!
Desembarcamos em Foz do Iguaçu na manhã de sábado, já com aquele clima de verão com sol escaldante e aquela umidade alta que já faz a roupa colar no corpo.
A chegada
Nos hospedamos em um hostel em quartos compartilhados e, logo após nos instalarmos, já decidimos pegar um taxi até a entrada do Parque das Cataratas pelo lado brasileiro.
Minhas expectativas da viagem eram basicamente conhecer lugares novos e, em especial, a natureza, pois naquela época, minhas escapadas eram sempre voltadas a lugares muito urbanos e consumistas (mas não vou negar que a possibilidade de visitar Argentina e Paraguai para fazer algumas comprinhas também era parte do atrativo).
Já na entrada do parque, tomamos o ônibus que nos levou até a base do Hotel das Cataratas, para que iniciássemos a caminhada que nos levaria até as plataformas próximas as grandes quedas d’água.
Algo divino
Ao dar os primeiros passos em direção a um mirante que serve para comtemplar a vista para as cataratas, me ocorreu algo que há muito não sentia e nunca mais me esquecerei: ao ver aquela imensidão de cachoeiras, volume de água, mata verde e grandes rochas, senti a presença de algo divino, Deus, fui tomado por uma emoção, mas acabei reprimindo a vontade de chorar.
Naquela época, e apesar de ter estudo boa parte da infância e juventude em colégio católico, era um homem extremamente racional e com a cabeça exclusivamente voltada à ciência.
Sempre gostei do tema, do porquê lógico e químico das coisas e, por fim, me afastei de minhas crenças e negava minha espiritualidade.
Mas naquele dia, ao ver tamanha grandiosidade, com vida pulsando por todos os lados e a perfeição do “conjunto da obra”, fui tomado por um sentimento que algo divino está presente ali para que tudo aquilo exista e ocorra da forma que deve ser.
Ao mesmo tempo, me senti pequeno, mas ainda assim, parte do todo, pois assim o somos.
Iniciamos nossa caminhada e as trilhas sempre margeando e com vistas aos rios e cataratas.
Entre conversas com os amigos e risadas, momentos de solitude, contemplação e reflexão por tudo aquilo que estava diante de meus olhos.
O choro ficou preso na garganta em vários momentos, mas hoje, mais maduro, não me envergonho em deixar uma lágrima escorrer ou embargar a voz ao contar esta história.
Durante toda a caminhada, ao me deparar com tamanha perfeição, ficava imaginando como tudo aquilo poderia existir.
Claramente, as explicações lógicas de desenvolvimento, transformação e evolução da Terra e do Universo vieram à cabeça, mas ainda assim, algo muito maior, divino e longe da minha compreensão acabou por dominar meus pensamentos.
Mesmo que você não tenha uma crença, acredito que há algo que nunca deixará de impressionar: o poder e a perfeição da Natureza e, de ao final, sempre vencer, com toda sua complexidade e impacto.
As visitas e caminhadas pelo lado Argentino do parque são ainda mais impressionantes ao se chegar muito próximo da famosa queda Garganta do Diabo, onde o volume e a força das águas são indescritíveis.
As gotículas
Durante todo o passeio pelos parques, somos banhados pelas gotículas de água que se espalham pelas proximidades das cachoeiras e, para mim, isso teve um significado de “alma lavada” ou mesmo um novo batismo pela Mãe Natureza.
Talvez um início de um novo ciclo e autocompreensão, mas que ainda demorou mais de uma década para que eu o aceitasse e ficasse em paz comigo mesmo por aceitar minha espiritualidade e entender que posso manter minha base racional e científica.
Hoje, vejo que isso me faz muito bem e ajuda a contemplar ainda mais alguns detalhes ou situações corriqueiras, passando a enxergar ainda mais a necessidade de chegarmos a um equilíbrio no mundo em que vivemos para que possamos nos perpetuar por aqui.
Somos apenas uma espécie que habita este planeta e temos que apreciar e cuidar desse lugar, tendo noção que somos parte de uma complexa rede de sobrevivência e parte de algo que gosto e chamar de Divino, pois mesmo que sejamos obras do acaso, isso por si só já nos torna fantásticos.
Porém, o homem sempre se achou o expoente máximo do universo, mas me recordo de um poadcast escutado meses atrás, acho que o autoconsciente da Regina Giannetti, que a humanidade passou por três grandes momentos onde o homem foi devidamente colocado em seu lugar:
- O primeiro foi Galileu Galilei, com a teoria do heliocentrismos e que a Terra não é o centro do universo (século XVII);
- O segundo é Charles Darwin com a teoria da evolução das espécies (século XIX), derrubando a tese do criacionismo;
- O terceiro evento veio com Sigmund Freud com a teoria da inconsciência, expondo que nossos impulsos e emoções também advém do inconsciente e não temos total controle sobre isso (século XX).
Finalmente, é citado que estamos passando por um quarto momento, onde o homem se dá conta que não domina a natureza, mas é dominado e vencido por ela caso não haja um equilíbrio.
Finalizando…
Assim, passar a contemplar e a respeitar as grandes e pequenas obras e momentos evidencia o quão importante é também sermos sustentáveis e cidadãos.
Vejo que o resgate da espiritualidade me fez enxergar isso e me faz vivenciar a busca pela harmonia e respeito entre as relações.
Voltando à viagem, teve comprinhas no lado paraguaio, em Ciudad del Est e aproveitamos para trocar nossas passagens de regresso para um ônibus semileito. Afinal, depois de 4 dias de muito calor e caminhadas, precisávamos de descanso melhor.
Estive outras 2 vezes em Foz do Iguaçu, com possibilidade de fazer outros passeios, como aquele barco que vai até próximo a algumas cataratas.
E em todas as vezes me emocionei de igual forma, sempre com a mesma sensação de algo divino e de vida pulsante no lugar.
Hoje, já consigo ter este mesmo tipo de sentimento em lugares que frequento em meu dia a dia, como a sacada de meu apartamento em São Paulo.
