
Autores: Luciana Ferraz e Cosmo Fuzaro
O passado nunca esteve tão presente no futuro
Existe uma contradição curiosa na moda contemporânea: quanto mais a tecnologia avança, mais os estilistas parecem interessados em revisitar o passado.
Nas apresentações desse final de 2026, referências das décadas de 1960 e 1970 reapareceram em minivestidos, formas geométricas, silhuetas em A e inspirações espaciais.
Rendas, bordados e tecidos tradicionais receberam interpretações contemporâneas.
A cobertura da Vogue e de outras publicações de moda evidencia esse diálogo entre memória e renovação. Isso não significa que a moda tenha ficado simplesmente saudosista:
reinterpretar o passado é diferente de reproduzi-lo.
A nostalgia como matéria-prima
Na Chanel, Matthieu Blazy retomou elementos da história da maison e procurou atualizar códigos tradicionais, como o tweed.
Já a Courrèges manteve em evidência uma linguagem associada ao futurismo dos anos 1960, com formas geométricas e minissaias.
Esses exemplos, discutidos pela imprensa especializada durante a temporada, mostram que uma referência antiga pode produzir algo atual quando encontra novos tecidos, proporções e necessidades.
Londres e a valorização do fazer manual
Enquanto a inteligência artificial conquista espaço na indústria, criadores britânicos continuaram a explorar técnicas que evidenciam o trabalho das mãos: drapeados, barras inacabadas, sobreposições, bordados e combinações de materiais.
A Fashionista interpretou essa valorização artesanal como uma possível resposta ao avanço da criação por IA.
Trata-se de uma leitura crítica da publicação, não de uma posição unânime dos estilistas.
A máquina pode gerar imagens rapidamente, mas isso não equivale a compreender o caimento de um tecido ou a construção de uma peça.
A inteligência artificial já entrou no processo criativo
Em setembro de 2026, uma iniciativa divulgada pelo Google envolveu os estilistas Jane Wade e Sergio Hudson no teste de ferramentas de inteligência artificial para pré-visualização de looks e apresentações.
A proposta ilustra uma utilização prática da tecnologia: comparar possibilidades antes de produzir fisicamente.
O designer continua responsável pela linguagem estética e a equipe técnica pela viabilidade das peças.
A tecnologia pode acelerar a experimentação sem substituir essas decisões.
Onde a tecnologia pode transformar a moda?
Na criação e no desenvolvimento, ferramentas generativas e simulações tridimensionais ajudam a testar cores, estampas e proporções.
Podemos encontrar também na modelagem e na produção, recursos digitais podem apoiar prototipagem, encaixe e planejamento de materiais.
Ou ainda na comercialização, a análise de vendas e demanda pode orientar estoques e coleções.
São possibilidades tecnológicas da indústria, não uma afirmação de que todas tenham sido demonstradas nos desfiles desta temporada.
O que preocupa nesse futuro?
O primeiro risco é a padronização: referências semelhantes podem gerar coleções visualmente repetitivas.
O segundo é a distância entre imagem e realidade: um croqui digital pode prometer um caimento que o tecido não reproduz.
Também surgem questões de autoria, direitos sobre imagens e desenhos, trabalho e transparência no uso de sistemas generativos.
A velocidade não dispensa responsabilidade.
Conclusão: as duas coisas, simultaneamente
A moda está saudosista e futurista ao mesmo tempo.
A nostalgia oferece histórias, materiais e emoções; a tecnologia amplia as maneiras de experimentar, produzir e apresentar essas histórias.
A inovação nem sempre significa criar algo impossível de vestir. Pode significar transformar uma referência antiga numa roupa relevante para a vida cotidiana.
A moda pode usar máquinas para imaginar o amanhã, mas continuará precisando de pessoas para decidir por que esse amanhã merece existir.
Live dos autores
Mais que fontes e referências editoriais, são sugestões de leitura!
- Vogue e British Vogue — cobertura das coleções primavera-verão 2027, setembro–outubro de 2026.
- Fashionista — análises da temporada de Londres e do trabalho artesanal, 2026.
- Google — comunicação sobre colaboração com Jane Wade e Sergio Hudson em ferramentas de pré-visualização, setembro de 2026.
