
Algumas semanas antes de completar 60 anos, tive vontade de fazer uma viagem para celebrar. Fui verificar se tinha milhas. E não é que tinha? Faltava escolher o lugar.
Eu já conhecia o Atlântico ao longo de quase toda a costa brasileira e também de sua outra margem, nas terras ancestrais lusitanas. Pensei, então, em chegar à outra borda do continente e olhar um oceano que ainda não conhecia.
Foi assim que Lima entrou no radar e virou destino.
O primeiro encantamento aconteceu antes mesmo de eu aterrissar.
De dentro do avião, voando sobre as nuvens, vi o sol nascer.
A Cordilheira atravessava aquele mar branco e seus pontos mais altos permaneciam visíveis, como se as montanhas tivessem se transformado em um imenso arquipélago.
Cheguei a Lima na manhã de domingo, muitas horas antes do horário previsto para ocupar o quarto. José, o recepcionista do hotel, acolheu meu portunhol com atenção e uma gentileza que eu voltaria a encontrar em outras pessoas durante a viagem. Ele guardou minha mala e eu, apesar da noite insone, saí para ver o mar.
Assim como Diego
Queria fazer como Diego, o menino do texto de Eduardo Galeano levado por seu pai, Santiago Kovadloff, para conhecer o mar.
Em vez das altas dunas de areia por onde pai e filho seguiram, caminhei pelas ruas de Miraflores até Larcomar. E lá embaixo estava ele, o Pacífico.
Como Diego, fiquei muda de beleza.
Permaneci ali durante algum tempo, olhando, silente.
Depois voltei ao hotel, tomei banho e saí novamente para fazer a minha primeira refeição em Lima: um lomo saltado delicioso, acompanhado pela voz da garçonete Verónica, que cantava com alegria e paixão atrás do balcão.
Naquele mesmo dia, conheci a Huaca Pucllana e suas muitas camadas de história.
Em meio aos edifícios de Miraflores, as construções de barro conservavam a presença de uma cidade muito anterior àquela que agora as cercava. Ali também vi lhamas, alpacas e uma área de cultivo de alimentos ancestrais.
Depois de muito caminhar, voltei ao hotel exausta e fui descansar.
O dia seguinte
No dia seguinte, eu não queria apenas avistar o Pacífico do alto. Queria chegar até ele.
Depois de bater pernas por Miraflores e de um almoço com direito a ceviche e pisco sour, comecei a descida. Poderia ter ido de teleférico, mas quis sentir o caminho pelo Malecón de la Reserva.
Caminhei até encontrar as escadas que me levaram à passarela. Depois dela, cheguei a uma praia coberta por pedras enormes, tão diferente das faixas de areia da costa brasileira às quais eu estava acostumada.
Sentei-me diante do Pacífico e busquei dentro de mim a menina que vira o mar pela primeira vez e a convidei para sentar ao meu lado.
Meditei. Agradeci.
Encantei-me com o som da água escorrendo entre as pedras quando as ondas recuavam.
Depois de um tempo tirei os tênis e caminhei até a água. Não pretendia mergulhar.
Queria apenas sentir o Pacífico tocar meus pés. Mas, uma onda mais forte avançou sobre mim e quase chegou à minha cintura. Eu toda contida e reverente e ele, o mar, sem nenhuma cerimônia, lambeu minhas pernas.
Depois de um tempo que não sei precisar, subi novamente o barranco e caminhei até o hotel. O corpo estava cansado, mas a mente permanecia desperta, ainda encantada com o que eu havia vivido naquele dia
O centro histórico
Depois de uma boa noite de sono, estava pronta para novas descobertas. Fui conhecer o centro histórico.
No Convento de São Francisco e em suas catacumbas, encantei-me com a arquitetura e com histórias contadas pela guia.
Mais tarde, no Parque de la Muralla, vi edifícios centenários diante do casario que subia o Cerro de San Cristóbal.
À noite, fui ao Parque de la Reserva. O espetáculo das águas não foi tão impactante quanto me disseram que seria. Mas o parque, com suas muitas e diferentes fontes, é bem bonito. Havia algo curioso naquela abundância de água em uma cidade onde quase não chove. O rio Rímac é generoso.
O último dia
Na manhã do último dia, tomei café em uma cafeteria deliciosa e fui mais uma vez ver o mar. Dessa vez, aproveitei uma das poucas horas de funcionamento do teleférico, ainda em obras, e desci por ele.
Em quatro dias, percorri Lima com os pés, os olhos e meu portunhol. Foram 84.981 passos contadinhos pelo smartwatch.
Eu havia viajado para olhar um oceano que ainda não conhecia. Voltei sem a pretensão de dizer que agora o conheço. Quatro dias não permitem tamanha intimidade.
Mas o Pacífico deixou de ser apenas um nome no mapa. Quando penso nele, vejo a praia de pedras, recordo o tempo em silêncio e escuto a água escorrendo enquanto as ondas retornam ao mar.



Dicas sobre Lima Peru:
Como chegar
Voo direto ou com conexão do Brasil até o Aeroporto Internacional Jorge Chávez (LIM) em Lima.
Duração média do voo direto a partir de capitais como São Paulo: cerca de 5 horas.
Melhor época do ano
Só Lima: Dezembro a abril (verão, com sol, céu mais limpo e calor de 20°C a 27°C).
Combinado com Cusco/Machu Picchu:
Maio a setembro/outubro (estação seca na serra; em Lima o tempo fica nublado com a garúa, mas é o ideal para o roteiro completo).
Passeios imperdíveis
Malecón de la Reserva de Miraflores:
Caminhar à beira do Pacífico, ver o Parque del Amor e andar de parapente.
Barranco: Explorar o bairro boêmio, arte de rua, cafés e a Ponte dos Suspiros.
Centro Histórico: Ver a Praça Maior, a Catedral e as Catacumbas do Convento de São Francisco.
Huaca Puclliana: é uma das atrações mais incríveis de Lima. Já pensou em visitar um sítio arqueológico em um dos bairros mais nobres da capital
Gastronomia local: Provar ceviche e causa limeña em restaurantes renomados (Lima é capital culinária).






