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Homenagem Regina Drummond: há livros que contamos às crianças, e outros que não deixam os adultos dormirem

Uma escritora que atravessa gerações, transforma palavras em encontros e sabe que um pouco de medo também pode ser uma deliciosa maneira de formar leitores

Conheci Regina Drummond antes mesmo de a Comudsaber existir como existe hoje.

E algumas pessoas entram em nossos projetos de uma maneira tão natural que, depois, é difícil separar a história delas da nossa própria história.

Regina é uma dessas pessoas.

Ainda no Laboratório Krono, quando começávamos o Projeto Rudá, tivemos o privilégio de lançar a iniciativa com um conto escrito por ela.

Não foi apenas a participação de uma escritora em um projeto.

Foi um daqueles encontros em que percebemos que conhecimento só se torna verdadeiramente importante quando encontra alguém disposto a compartilhá-lo.

E Regina sempre esteve disposta.

Ao longo do tempo, encontrei nela alguém disponível para conversar, participar, trocar ideias e, principalmente, falar sobre aquilo que parece acompanhá-la por toda a vida: a literatura.

Falar com Regina sobre livros é perceber rapidamente que não estamos conversando apenas sobre uma profissão.

Estamos falando de paixão.

Palavras. Personagens. Histórias.

De crianças descobrindo o prazer da leitura.

De adolescentes encontrando nos livros algumas respostas, e muitas novas perguntas.

E também de fantasmas, crimes, mistérios, vampiros, mortes inexplicáveis e histórias capazes de fazer alguém olhar duas vezes para o corredor escuro antes de apagar a luz.

Essa Regina também me encanta.

Uma menina que queria escrever e escreveu

Regina nasceu em Minas Gerais, em uma família que ela própria descreve como muito literária, da qual faz parte Carlos Drummond de Andrade.

Conta que sonhava ser escritora desde criança.

Sua primeira publicação aconteceu aos 12 anos, quando um poema seu foi selecionado para o painel da Biblioteca Pública de Minas Gerais. O primeiro livro chegou em 1980 e, em 1983, nasceu aquele que se tornaria um de seus grandes sucessos: O Passarinho Rafa.

Regina é formada em Língua e Literatura Francesas, fala inglês, francês e alemão e atualmente vive em Munique, na Alemanha, mantendo uma relação permanente com o Brasil. É escritora, tradutora, contadora de histórias e desenvolve há décadas projetos de incentivo à leitura. Participou de bienais, feiras, projetos literários, palestras, cursos, oficinas, rádio, televisão e teatro.

Sua produção recebeu reconhecimentos da FNLIJ, da Cátedra Unesco de Leitura da PUC-Rio e do Prêmio Jabuti, este último como editora.

Talvez isso explique por que, quando conversamos, Regina não fala simplesmente sobre livros.

Ela fala sobre formar leitores.

Conheça Regina Drummond e sua trajetória

Do Passarinho Rafa aos novos leitores

É impossível falar de Regina sem passar por O Passarinho Rafa.

O pequeno pássaro que vivia protegido em uma gaiola dourada deseja conhecer o mundo e acaba descobrindo algo muito maior: o significado da liberdade.

Mais de quatro décadas depois de seu lançamento original, Rafa continua voando. Uma nova edição, publicada pela Melhoramentos e ilustrada por Bruna Assis Brasil, aparece entre as novidades atuais do site da autora.

E talvez exista algo bonito nisso.

As crianças mudaram. O mundo mudou. Os livros mudaram. Mas algumas histórias continuam encontrando novos leitores.

Regina continua escrevendo para os pequenos. A Menina que Comia Livros, O Desfile dos Animais, Histórias e Curiosidades do Folclore Brasileiro e outras obras mostram que sua literatura infantil continua viva.

Mas neste artigo quero atravessar uma porta diferente.

Talvez uma porta que esteja rangendo um pouquinho.

Pode entrar.

Só não prometo que aquilo que estiver do outro lado seja completamente tranquilo.

Regina também gosta de assustar

Quem conhece apenas a autora dos livros infantis talvez se surpreenda.

Regina possui uma relação especialmente interessante com suspense, mistério, fantástico e terror.

E que bom.

Porque literatura juvenil não precisa tratar o jovem como alguém incapaz de lidar com conflitos, medo, morte, transformação ou assuntos difíceis.

Em suas obras encontramos fantasmas.

Mas também encontramos bullying, depressão, fake news, conflitos familiares, diferenças culturais, violência contra a mulher, amadurecimento, identidade e liberdade.

Em Tem de Tudo Nessa Escola, por exemplo, quatro histórias passam por bullying, fake news, transtornos alimentares, depressão e violência contra mulheres.

É aí que o medo deixa de ser apenas susto.

Uma boa história de terror pode assustar durante algumas páginas e continuar fazendo pensar depois que o medo passou.

Abra a estante de Regina, se tiver coragem

Para não transformar este artigo em uma relação comercial que envelhecerá rapidamente, preferi usar como referência principal o catálogo oficial da própria autora, que identifica quais obras estão atualmente “nas livrarias”. Ali também é possível conhecer capas, editoras, idades recomendadas e sinopses.

Veja os livros de Regina Drummond para leitores a partir de 11 anos

Entre eles, eu destacaria:

Silêncio no Corredor

Terror para ser lido justamente em um lugar que deveria parecer seguro: a escola. Regina participa da coletânea ao lado de Heloísa Prieto, Júlio Emílio Braz, Edson Gabriel Garcia e Manuel Filho. É uma das novidades de 2026 e indicada a partir dos 11 anos.
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Morte na Neve

Pessoas começam a morrer misteriosamente em uma pequena cidade dos Alpes Bávaros. Parece frio. O inspetor Hammeister acredita que existe algo muito mais assustador por trás daquelas mortes.

Quatro Estações de Pavor, com Rosana Rios

Quatro histórias, quatro estações e diferentes maneiras de provocar arrepios: espíritos vingativos, possíveis extraterrestres e fantasmas entram em cena. E ainda há um convite delicioso: o leitor pode imaginar seu próprio final.
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Quatro Estações de Morte, também com Rosana Rios

Agora são crimes e mortes que atravessam quatro histórias. Os títulos já avisam que o passeio não será tranquilo: A assassina de São Gabriel, Três machados na parede, A última respiração e A vida por um fio.

Histórias de Tirar o Sono

Dumas, Tchékhov, Conan Doyle, Edgar Allan Poe e outros mestres do gênero aparecem traduzidos e adaptados por Regina Drummond e Taciana Ottowitz. Fantasmas, mortes inexplicáveis e acontecimentos perturbadores justificam muito bem o título.

Lobisomem e Outros Seres da Escuridão

Uma viagem ao território das criaturas que aprenderam a morar nos nossos medos. Regina recria a história clássica do lobisomem e assina também O mensageiro da morte.

Aventura na Mina da Passagem

Uma excursão escolar a uma antiga mina de ouro em Minas Gerais muda completamente quando uma das garotas começa a agir de maneira estranha. E há o fantasma de uma pirata do século XVIII esperando pelo grupo.

A Gótica que Não Gostava de Fantasmas, com Giulia Moon

Uma adolescente gótica que não gosta de fantasmas já seria uma ótima contradição. Acrescente perdas familiares, uma irmã que vê fantasmas, uma tutora maquiavélica e relacionamentos complicados.

Metamorfoses

Premiado com o selo Distinção da Cátedra Unesco de Leitura PUC-Rio e reconhecido como Altamente Recomendável pela FNLIJ. No conto de Regina, beleza, obsessão, rejeição e uma estranha poção conduzem a consequências trágicas.

Crimes e Castigos

Sete autores, sete contos e problemas muito contemporâneos: crimes cibernéticos, roubo de dados, fake news, feminicídio e outros temas aparecem misturados a aventura e suspense.

Tatuagens de Poder, com Rosana Rios

Dois mundos se encontram em uma fantasia marcada por poder, objetos mágicos, traições, reviravoltas e muita ação.

Os Herdeiros da Terra do Gelo, com Severino Rodrigues

Lucas e Leila parecem viver histórias separadas até que joias, segredos, metamorfoses e verdades escondidas começam a aproximar seus destinos.

Lisboa: um sonho, um pesadelo, com Rosana Rios

Uma herança obriga Doroteia a morar seis meses em Lisboa. O que parece inicialmente uma história de viagem esconde, segundo a própria apresentação da autora, uma trama maquiavélica.

Tem de Tudo Nessa Escola

Quatro histórias interligadas transformam uma turma escolar em ponto de partida para discutir assuntos bastante sérios, sem abandonar a linguagem juvenil.

Quando Tudo Muda, com Shirley Souza

Finalista do Jabuti de 2017. Depois do divórcio dos pais, Vanessa deixa para trás amigos, namorado, escola e país para começar uma nova vida na Alemanha.

Viagens de um Caderno Chamuscado

Em 1987, Marisol registra em um caderno sua viagem pela Europa enquanto vive um amor proibido pelas famílias. Romance, memória, viagem e reviravoltas se encontram.

Sophie em Paris

Sophie deixa sua vida para estudar em Paris e ser modelo. No meio do caminho surge Gian — e, como pano de fundo, a história de Coco Chanel.

A Mulher do Meu Pai

Isabela usa seu diário para lidar com sentimentos provocados pela nova companheira do pai. Ciúme, diferenças culturais e arte acabam abrindo espaço para algo que parecia impossível: aproximação. A obra foi selecionada para o PNBE.

A Garota Quase Perfeita

Gracinha é obediente demais, perfeita demais. Até descobrir que crescer também significa aprender a dizer não, compreender os próprios sentimentos e tornar-se ela mesma.

Memórias de um Sargento de Milícias

Regina adapta o clássico de Manuel Antônio de Almeida para jovens leitores, acompanhando as aventuras de um dos anti-heróis mais divertidos da literatura brasileira.

Assinado Nós

Coletânea na qual diferentes autores apresentam seus contos. A participação de Regina tem um título que, sozinho, já deixa uma provocação: “Parece amor. Será?”

E os livros que já não encontramos nas livrarias?

Chegar até aqui poderia dar a impressão de que conhecemos a produção de Regina Drummond.

Não conhecemos.

Conhecemos apenas a estante que está disponível hoje.

A trajetória de um escritor é muito maior do que o catálogo comercial de determinado momento. Livros mudam de editora, edições se esgotam, contratos terminam, títulos deixam de ser reimpressos.

Mas existe uma diferença importante entre um livro não estar mais à venda nas livrarias e um livro ter deixado de existir.

Ele continua nas bibliotecas. Continua nas estantes de escolas. Continua nas casas de leitores.

E, muitas vezes, reaparece nos sebos, esperando por alguém que ainda não o conhece.

No próprio site de Regina existe essa bonita separação entre os títulos que estão “Nas livrarias” e aqueles que podem ser encontrados “Nas bibliotecas”.

Conheça também os livros de Regina Drummond disponíveis em bibliotecas

Por isso, não quero deixar esses livros fora desta homenagem.

Ao contrário.

Quero abrir uma segunda estante.

A outra estante de Regina

Livros que talvez você precise procurar um pouco mais — e talvez isso torne a descoberta ainda mais especial

Aqui entram obras que não aparecem atualmente no catálogo da autora como títulos disponíveis nas livrarias.

Isso significa que não vou colocar um botão artificial de “compre aqui” quando não houver uma edição nova regularmente comercializada.

Para encontrá-los, o leitor pode procurar em bibliotecas públicas e escolares, catálogos de bibliotecas, sebos físicos e sebos on-line. Como a disponibilidade de livros usados muda constantemente, também não acho adequado colocar links para exemplares específicos: hoje existem, amanhã podem ter sido vendidos.

E há alguns títulos que merecem ser procurados.

Um Vampiro no Harém

Só o título já mostra aquela Regina que quero revelar especialmente neste artigo. O sobrenatural encontra um cenário inesperado e abre espaço para fantasia, mistério e humor. É daqueles livros que ajudam a desmontar a ideia de que literatura para jovens precisa ser previsível.

Onde procurar: bibliotecas e sebos.

Meu Amor é um Vampiro

Mais uma incursão pelo universo fantástico e vampiresco, aproximando sentimentos adolescentes de personagens que pertencem ao imaginário do terror.

E existe algo deliciosamente contraditório na combinação: amor + vampiro.

Regina parece gostar exatamente desses encontros improváveis.

Onde procurar: bibliotecas e sebos.

E existem outros…

Um livro pode sair de catálogo.
Uma boa história não sai da literatura.
Uma autora para crianças? Sim. Para jovens? Muito. Para adultos? Experimente.

Talvez essa seja uma das coisas de que mais gosto na obra de Regina.

É difícil aprisioná-la em uma idade.

Há livros que uma criança poderá descobrir.

Também há histórias para aquele momento estranho e maravilhoso em que deixamos de ser crianças e ainda estamos descobrindo quem seremos.

Existem textos que falam diretamente aos jovens.

E há histórias que um adulto pode abrir dizendo: — Vou só dar uma olhadinha…

…e perceber algumas páginas depois que continua lendo.

Porque literatura juvenil de qualidade não é literatura menor.

É literatura capaz de conversar com determinado momento da vida sem subestimar quem está lendo.

E Regina sabe fazer isso. Sabe brincar, emocionar. e sabe provocar.

E, felizmente para quem gosta de suspense, sabe assustar também.

Conhecer Regina é entender por que as palavras importam

Conhecer Regina Drummond é uma coisa. Ler Regina Drummond é outra.

Mas ter a oportunidade de sentar, conversar com ela e perceber como seus olhos e suas palavras se transformam quando o assunto é literatura acrescenta uma terceira dimensão.

Porque então entendemos de onde vêm tantos livros. Eles vêm de alguém que realmente ama as palavras.

Ao longo da minha trajetória, encontrei profissionais que escrevem. Também encontrei escritores que publicam.

Mas só encontri algumas pessoas para quem escrever parece ser uma maneira de estar no mundo.

Regina pertence a esse último grupo.

Desde aquele encontro ainda no Laboratório Krono, passando pelo Projeto Rudá e chegando à parceria e amizade construída com a Comudsaber, sua disponibilidade para conversar, colaborar e compartilhar conhecimento sempre me chamou a atenção.

E isso é coerente com sua própria história.

Uma menina que publicou seu primeiro poema aos 12 anos cresceu, atravessou idiomas e países, escreveu para crianças, jovens e adultos, contou histórias, traduziu, participou de projetos de formação de leitores e continua colocando novas histórias no mundo.

Talvez seja por isso que conversar com Regina sobre literatura seja tão inspirador. Ela não fala apenas dos livros que escreveu.

Fala dos livros que leu. Dos que gostaria de escrever. Das histórias, leitores, palavras, imaginação.

E principalmente daquela relação quase inexplicável que algumas pessoas estabelecem com a literatura.

Eu chamaria isso simplesmente de amor pelas letras.

E talvez todo escritor verdadeiro guarde um pouco daquela criança que um dia descobriu que algumas palavras, quando colocadas na ordem certa, conseguem criar lugares que antes simplesmente não existiam.

Regina continua fazendo isso. Para uma criança de seis anos, um adolescente de treze., um jovem e para um adulto.

Enfim, Para quem gosta de rir e se emocionar.

E, definitivamente, para quem não tem medo de sentir um arrepio quando alguma coisa inexplicável acontece do outro lado da página.

Obrigado, Regina. Principalmente, obrigado por continuar acreditando que uma história bem contada ainda é capaz de transformar alguém em leitor.

E isso, para mim, é uma das formas mais bonitas de deixar um legado.

Gostaria de mostrar o quanto Regina se posiciona e traz temas atuais para usa literatura. O último dos vídeos foi dado para Krono&Vc, atualmente Comud&Vc nosso canal!