Skip to content

Suplementação de ferro mudou: o que os pais de crianças menores de 2 anos precisam saber

No dia 17 de março de 2026, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicou uma atualização importante sobre a prevenção e o tratamento da deficiência de ferro e da anemia ferropriva em lactentes.

E quando uma recomendação como essa muda, é natural que surjam dúvidas:

Preciso mudar o ferro do meu filho? A dose que ele está tomando está errada? Devo começar uma nova suplementação?

Calma.

Para meus pacientes, já deixo o recado: na próxima consulta vamos conversar sobre as novas recomendações e, quando necessário, atualizar as receitas.

Não é preciso, e nem recomendado, mudar doses ou iniciar uma suplementação por conta própria.

Por que falamos tanto sobre ferro nos primeiros anos?

Os primeiros dois anos de vida são um período extraordinário de crescimento.

O bebê cresce, ganha peso, desenvolve habilidades, aprende a sentar, engatinhar, andar, falar e interagir cada vez mais com o mundo.

E o ferro participa de processos fundamentais nessa fase.

Ele é necessário para a produção da hemoglobina, responsável pelo transporte de oxigênio pelo organismo, e também tem papel importante no desenvolvimento neurológico.

Quando existe deficiência de ferro, especialmente quando ela evolui para anemia ferropriva, podemos encontrar consequências que vão muito além de simplesmente “estar com anemia”.

Por isso, prevenir a deficiência de ferro durante a infância sempre foi uma preocupação importante da Pediatria.

O que mudou em 2026?

A nova recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria atualiza a forma como a suplementação profilática deve ser realizada em lactentes.

Entre as mudanças, a SBP incorporou para crianças de 6 a 24 meses o esquema utilizado pelo Programa Nacional de Suplementação de Ferro, com 10 a 12,5 mg de ferro elementar por dia, administrados em ciclos.

A recomendação prevê:

  • primeiro ciclo diário durante três meses, preferencialmente dos 6 aos 9 meses;
  • uma pausa de três meses;
  • segundo ciclo durante três meses, preferencialmente dos 12 aos 15 meses.

Mas atenção: isso não significa que todas as crianças devam simplesmente passar a receber a mesma quantidade de ferro.

Existem situações que precisam ser avaliadas separadamente.

Cada criança continua sendo única

Quando prescrevemos ferro para um bebê, não olhamos apenas para a idade.

Precisamos considerar aspectos como peso ao nascer, prematuridade, alimentação, aleitamento, introdução alimentar, consumo de alimentos ricos em ferro, condições clínicas e fatores de risco para deficiência de ferro.

Bebês prematuros ou que nasceram com baixo peso, por exemplo, podem necessitar de esquemas específicos de suplementação.

É justamente por isso que uma nova diretriz não deve ser interpretada como uma receita pronta para todas as crianças.

Diretrizes orientam a Pediatria. A consulta individualiza o cuidado.

“Então devo mudar a dose do ferro do meu filho?”

Essa provavelmente será uma das perguntas que mais vou ouvir nos próximos meses.

Minha resposta é simples:

Não mude nada sem conversar com o pediatra.

Se seu filho já utiliza ferro, continue seguindo a prescrição que recebeu até que o médico responsável faça uma nova avaliação.

Na próxima consulta podemos verificar a dose, conversar sobre alimentação e desenvolvimento, analisar possíveis fatores de risco e decidir se existe necessidade de adequação à nova recomendação.

Não compare a receita do seu filho com a do filho de uma amiga, de um irmão ou de outra criança da mesma idade.

Duas crianças de 8 meses podem ter necessidades diferentes.

Alimentação também faz parte dessa conversa

Suplementar ferro não significa esquecer a alimentação.

Com a introdução alimentar, devemos oferecer uma dieta variada e adequada à idade, incluindo fontes de ferro.

Carnes, feijão e outras leguminosas, além de diferentes alimentos que fazem parte de uma alimentação equilibrada, ajudam a construir bons hábitos alimentares e contribuem para uma oferta adequada de nutrientes.

A suplementação é uma estratégia preventiva importante, mas ela faz parte de um conjunto maior de cuidados.

E se a criança já tiver deficiência de ferro ou anemia?

Aqui existe outra diferença muito importante.

Prevenção não é tratamento.

As doses utilizadas para evitar a deficiência de ferro não são necessariamente as mesmas utilizadas quando a criança já apresenta deficiência ou anemia ferropriva.

Nesses casos, o pediatra pode precisar investigar as causas, solicitar exames quando indicados e estabelecer um esquema terapêutico específico.

Por isso, não devemos aumentar a quantidade de ferro oferecida à criança imaginando que “um pouquinho a mais vai fazer bem”.

Medicamento deve ser utilizado na dose correta e com indicação adequada.

Para os pais dos meus pacientes, um recado especial

A Pediatria está sempre evoluindo.

Novos estudos aparecem, evidências são revistas e sociedades médicas atualizam suas recomendações.

Isso não significa que aquilo que fazíamos anteriormente estava necessariamente errado. Significa que a Medicina acompanha o conhecimento disponível e procura melhorar continuamente a maneira como cuidamos das crianças.

Então, se seu filho tem menos de 2 anos e utiliza suplementação de ferro, anote essa informação para conversarmos.

Na próxima consulta, vamos olhar juntos para a nova recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria, avaliar as necessidades específicas do seu pequeno e, se for necessário, atualizar a receita.

Sem sustos.

Sem mudanças por conta própria.

E, principalmente, sem transformar uma orientação geral em uma regra igual para todas as crianças.

Porque cada bebê tem sua própria história — e cuidar bem também significa respeitar essa individualidade.

Fonte Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Recomendações para o tratamento e prevenção da deficiência de ferro e anemia ferropriva em lactentes – Atualização 2026. Publicado em 17 de março de 2026.