

Os criadores, provocadores e visionários que fizeram da moda brasileira uma linguagem capaz de atravessar fronteiras
Moda nunca foi apenas roupa.
Ela é tecido, corte, cor e forma, claro. Mas também é comportamento, economia, arte, desejo, contestação, identidade e memória.
E talvez seja impossível contar a história da moda brasileira apenas por décadas.
Prefiro contá-la por pessoas.
Pessoas que olharam para um pedaço de tecido e enxergaram alguma coisa que ainda não existia. Pessoas que trouxeram Paris para o Brasil, e outras que fizeram exatamente o contrário: levaram o Brasil para Paris, Nova York e para o mundo.
Algumas transformaram a sensualidade brasileira em sofisticação. Outras fizeram da alfaiataria uma assinatura. Houve quem colocasse caveiras, látex e contradições na passarela. Quem vestisse nossas praias. Quem transformasse um vestido em manifesto político.
E houve ainda quem não desenhasse roupas, mas desenhasse o próprio imaginário da moda brasileira através das páginas de revistas, fotografias, editoriais e novos talentos.
Esta não é uma lista dos “melhores”.
É uma reverência a alguns dos nomes que nos ensinaram que moda brasileira não precisa pedir licença para existir.
Dener, quando o Brasil decidiu que não precisava copiar Paris
Dener Pamplona de Abreu foi muito mais do que um costureiro de mulheres elegantes. Ele ajudou a defender a possibilidade de existir uma alta-costura com identidade brasileira em uma época em que nossas elites ainda olhavam quase obrigatoriamente para a França.
Ele trabalhou com cores, estampas e elementos brasileiros sem abandonar a sofisticação e tornou-se estilista da primeira-dama Maria Thereza Goulart. Criou ainda a Dener Difusão Industrial de Moda e participou da construção de uma ideia de moda nacional como negócio.
Sua própria frase resume a dimensão de sua ambição:
“Eu criei a moda brasileira, um estilo próprio, nosso.”
Dener não queria apenas vestir uma mulher.
Queria provar que elegância também podia falar português.
Clodovil, moda também é personalidade
Antes da televisão transformar Clodovil Hernandes em uma das personalidades mais conhecidas do país, existia um grande costureiro.
Clodovil trabalhou a alta-costura com teatralidade, feminilidade e irreverência. Musselines, crepes, bordados florais, tafetás coloridos e passamanarias apareciam em suas criações. Em determinados momentos, era capaz de aproximar uma saia sofisticada de uma camiseta com símbolos do futebol brasileiro.
Talvez essa tenha sido uma de suas grandes lições.
Estilo não nasce da obediência. Nasce da personalidade.
Clodovil podia dividir opiniões como homem público. Como criador, porém, ocupa lugar importante na construção da alta-costura brasileira.
Zuzu Angel, quando um vestido deixa de ser roupa e vira voz
Poucos nomes representam tão profundamente a fusão entre moda, Brasil e história quanto Zuzu Angel.
Zuzu colocou em suas roupas aquilo que encontrava ao redor: renda, seda, fitas, chita, pássaros, borboletas, papagaios, pedras brasileiras, bambu, madeira e conchas. A Bahia e suas cores marcaram profundamente sua linguagem.
Mas sua moda atravessaria uma fronteira ainda maior.
Depois do desaparecimento e morte de seu filho Stuart durante a ditadura militar, a criação tornou-se também denúncia.
E aí a roupa adquiriu outra dimensão.
Um vestido podia falar.
Uma estampa podia protestar.
Uma passarela podia incomodar o poder.
Zuzu não levou apenas moda brasileira ao exterior. Levou uma história brasileira que precisava ser ouvida.
Ocimar Versolato, um brasileiro no templo da alta-costura
Ocimar Versolato fez algo que parecia improvável para um jovem vindo do ABC paulista: chegou a Paris, abriu seu próprio ateliê e tornou-se o primeiro brasileiro a dirigir uma maison de alta-costura francesa, a Lanvin.
Seu mundo era de sensualidade construída com enorme domínio técnico.
Moulage diretamente sobre o corpo, musseline, organza, transparências, corsets, alças delicadíssimas, costas cavadas, fendas, recortes precisos. Em uma coleção histórica, transformou até tecidos associados à camisaria e à alfaiataria masculina em vestidos de festa.
Versolato entendia algo precioso:
sensualidade não precisa gritar.
Pode estar em uma dobra, numa transparência, num tecido que parece flutuar ou na maneira perfeita como um vestido acompanha o corpo.
Alexandre Herchcovitch, o belo também pode incomodar
Se alguns criadores brasileiros buscaram a elegância clássica, Alexandre Herchcovitch escolheu muitas vezes provocar.
Caveiras. Látex. Couro. Xadrez. Borracha. Referências fetichistas. Preto confrontado por cores explosivas e neon. Masculino misturado ao feminino. Retrô encontrando futurismo.
Mas reduzir Alexandre à provocação seria um erro.
Por baixo de toda aquela rebeldia existe domínio de construção, modelagem e alfaiataria. Ele saiu do underground paulistano e levou sua linguagem às semanas de moda brasileiras e a Nova York.
Talvez sua grande assinatura seja justamente a contradição.
Agressividade e delicadeza. Estranheza e beleza. Rua e luxo.
Alexandre mostrou que a moda brasileira também podia ser escura, urbana, intelectual, sexual, desconfortável e internacional.
Ricardo Almeida, precisão também é identidade brasileira
O universo de Ricardo Almeida começa pela modelagem.
É difícil falar de alfaiataria masculina brasileira contemporânea sem chegar ao seu nome.
Tecidos nobres, acabamento, gola, forro, proporção e construção transformaram-se em elementos de uma assinatura que durante muitos anos esteve fortemente ligada ao slim fit. O próprio Ricardo afirma que procura fugir da zona de conforto em cores, estampas e tecidos sem fazer o homem perder sua identidade.
Mais recentemente, essa alfaiataria também passou a conversar com volumes maiores e novas ideias de conforto.
Ricardo transformou o terno de obrigação em linguagem pessoal.
E provou que tradição não precisa significar imobilidade.
Lenny Niemeyer, o Brasil que aprendeu a vestir a praia com sofisticação
Lenny Niemeyer percebeu algo que hoje parece óbvio, mas não era: o beachwear brasileiro poderia ser muito mais do que um biquíni.
Quando chegou ao Rio no fim dos anos 1970, encontrou inspiração na criatividade e na informalidade da mulher carioca. Sua formação artística levou-a a trabalhar estampas maiores e a experimentar materiais inesperados. Seda, couro, metal, cordas, referências náuticas, selaria e arquitetura entraram naquele universo.
Até ossos bovinos transformados em argolas apareceram em suas experimentações iniciais.
Lenny ajudou a transformar praia em lifestyle.
O maiô podia ser sofisticado. A saída de praia podia entrar em outros ambientes. E a sensualidade brasileira podia viajar pelo mundo sem se transformar em caricatura.
Ela não vestiu apenas o mar. Vestiu uma maneira brasileira de viver perto dele.
Ronaldo Fraga, roupa também conta histórias
Talvez Ronaldo Fraga seja um dos nossos maiores contadores de histórias por meio da roupa.
Guimarães Rosa, Drummond, Portinari, Nara Leão, Lupicínio Rodrigues, Athos Bulcão, Zuzu Angel, o Rio São Francisco, o Vale do Jequitinhonha, a Amazônia e o semiárido já atravessaram seu universo criativo.
Em suas mãos, a passarela deixa de ser simplesmente uma apresentação da próxima estação.
Vira narrativa.
Memória.
Afeto.
Manifesto.
Brasil.
Ronaldo parece procurar justamente os Brasis que corremos o risco de esquecer.
E os devolve transformados em roupa, desenho, cor e emoção.
Francisco Costa, o brasileiro que reinventou o silêncio
O mineiro Francisco Costa chegou a um dos cargos mais importantes da moda mundial: sucedeu Calvin Klein na direção criativa feminina da Calvin Klein Collection.
E fez isso sem tentar transformar-se em Calvin.
Costa prefere definir seu trabalho como reducionista, mais do que simplesmente minimalista. Seu interesse está no corte, no tecido e na retirada do desnecessário.
Crepes fluidos, jerseys tecnológicos, construção limpa, formas puras e experimentações de textura fazem parte desse universo. Ele chegou a construir vestidos de jersey a partir de um único painel para eliminar elementos desnecessários.
É fascinante pensar nisso.
Enquanto parte da imagem internacional do Brasil foi construída pelo excesso de cor, Francisco mostrou outra possibilidade.
O brasileiro também pode conquistar o mundo pelo silêncio, pela precisão e pela redução.
Regina Guerreiro, ela não costurava vestidos. Costurava imaginários.
Regina Guerreiro merece estar nesta homenagem mesmo não sendo estilista.
Porque alguém precisava olhar para tudo aquilo, selecionar, provocar, contextualizar, fotografar e contar.
Durante 14 anos na Vogue, Regina ajudou a profissionalizar o jornalismo de moda brasileiro, lançou e impulsionou modelos, fotógrafos e criadores e transformou editoriais em histórias visuais.
Sua assinatura pessoal também dizia muito: preto, rigor, teatralidade, curiosidade e uma personalidade impossível de ignorar.
E sua compreensão da moda continua atual: as tendências, dizia ela, vêm da rua, do comportamento, dos desejos e das “fomes” das pessoas.
Regina nos ensinou que moda não se entende olhando apenas para roupas. É preciso olhar para a vida.
Daniela Falcão, moda também precisa de ponte, voz e território
Daniela Falcão também não entra aqui como estilista, e sim como alguém que ocupou posições importantes na construção e difusão do discurso da moda brasileira.
Passou por Folha, Jornal do Brasil, TPM e Trip, tornou-se editora-chefe da Vogue Brasil em 2005 e posteriormente assumiu a direção editorial e geral da Globo Condé Nast. Em 2021, criou o Nordestesse, plataforma voltada à divulgação de criadores dos nove estados do Nordeste em moda, design, artes e gastronomia.
Sua presença nesta lista lembra algo essencial:
não basta existir talento. É preciso criar pontes para que ele seja visto.
E descentralizar o olhar também significa perguntar: quantos criadores extraordinários existem longe dos lugares onde tradicionalmente decidimos o que merece ser chamado de moda?
E o que todos eles têm em comum?
Quase nada.
E talvez seja justamente essa a resposta.
Dener não é Alexandre.
Alexandre não é Ricardo.
Ricardo não é Ronaldo.
Ronaldo não é Francisco.
Francisco não é Lenny.
Lenny não é Zuzu.
Ainda bem.
Porque não existe uma única moda brasileira.
Nossa moda atravessa a alfaiataria, a praia, a alta-costura e o underground. Nasce em Minas, São Paulo, Rio, Bahia, no Nordeste e em tantos outros territórios que transformam cultura em criação.
Pode vestir preto ou explodir em neon; encontrar sofisticação na seda e na musseline ou reinventar a chita, o látex e tantos materiais improváveis. Pode ser estampada ou minimalista, exuberante ou silenciosa.
A moda brasileira carrega memória e protesto, arte e negócio, tradição e ruptura. Mas, acima de tudo, carrega imaginação.
E talvez nossa maior força esteja exatamente aí.
Durante muito tempo, olhamos para Paris, Milão, Londres e Nova York para descobrir o que deveríamos vestir.
Continuaremos olhando.
A moda sempre foi uma grande conversa entre culturas.
Mas esses brasileiros nos ensinaram algo ainda mais importante:
também existe um mundo olhando para nós.
Porque quando um criador brasileiro transforma chita em luxo, praia em sofisticação, sertão em narrativa, alfaiataria em contemporaneidade, látex em alta moda ou silêncio em elegância, ele não está apenas acompanhando uma tendência.
Está acrescentando uma nova palavra ao vocabulário mundial da moda.
E talvez essa seja a homenagem que devemos fazer a todos eles, aos que estão aqui e a tantos outros que ainda merecem ser lembrados.
Obrigado por não terem simplesmente vestido o Brasil.
Obrigado por terem dado ao Brasil coragem para vestir a si mesmo.
“A moda brasileira conquistou o mundo quando deixou de perguntar o que deveria vestir e começou a mostrar ao mundo quem nós somos.”

