
Recentemente, durante uma reunião com um cliente, ouvi uma pergunta que me chamou a atenção:
“Márcia, o que acontece do outro lado do mundo realmente tem impacto nas minhas operações de importação? Eu não embarco mercadorias dos países em crise?”
A resposta foi simples: mais do que imaginamos.
Muitos empresários ainda têm dificuldade em compreender por que um conflito no Oriente Médio, uma guerra na Ucrânia ou uma disputa comercial entre Estados Unidos e China podem afetar diretamente seus custos, seus fornecedores e até mesmo seus resultados financeiros.
Mas essa é justamente uma das características do mundo em que vivemos hoje: tudo está conectado.
No Comércio Exterior, aprendemos diariamente que uma decisão política tomada a milhares de quilômetros de distância pode impactar um projeto que está sendo desenvolvido aqui, dentro de uma pequena ou média empresa brasileira.
E os exemplos estão por toda parte.
Nesta mesma semana, estive reunida com clientes para discutir os recentes reajustes de fretes marítimos anunciados por armadores internacionais. Os aumentos já começaram a aparecer em algumas rotas e as perspectivas para os próximos meses apontam para um cenário de custos mais elevados e maior instabilidade logística.
Quando analisamos as causas desses aumentos, percebemos que elas estão diretamente relacionadas ao cenário geopolítico global.
As tensões envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos continuam gerando preocupações sobre a segurança das principais rotas marítimas internacionais. O Estreito de Ormuz, por onde passa uma parcela significativa do petróleo mundial, permanece sob monitoramento constante dos mercados.
Ao mesmo tempo, a guerra entre Rússia e Ucrânia continua produzindo reflexos importantes sobre energia, fertilizantes, commodities agrícolas e cadeias globais de suprimentos.
O resultado é um efeito cascata que acaba chegando às empresas brasileiras.
O efeito cascata da geopolítica
Muitas vezes o empresário vê apenas o aumento do frete ou do custo de importação e não consegue visualizar toda a cadeia de acontecimentos que levou até aquele resultado.
Na prática, o processo costuma ser algo parecido com isto:
Evento geopolítico → aumento da percepção de risco → aumento dos seguros internacionais → alteração de rotas marítimas → aumento dos fretes → aumento dos custos de importação e exportação → aumento dos preços finais → redução do consumo → pressão inflacionária.
No final da cadeia, quem absorve esse impacto é toda a economia.
E quem trabalha com Comércio Exterior precisa entender cada etapa desse processo.
Um novo fator de preocupação: os Estados Unidos
Outro tema que vem sendo acompanhado com atenção pelo mercado internacional é a possibilidade de novas sobretaxas e medidas protecionistas envolvendo produtos destinados ao mercado norte-americano.
Independentemente do país ou setor afetado, qualquer movimento de aumento tarifário por parte dos Estados Unidos costuma gerar reações em cadeia no comércio internacional.
Quando uma das maiores economias do mundo altera suas regras comerciais, empresas ao redor do planeta precisam rever estratégias, buscar novos mercados, renegociar contratos e reavaliar investimentos.
Não seria a primeira vez que o mundo empresarial precisaria se adaptar rapidamente a mudanças dessa natureza.
Os setores mais expostos
Alguns segmentos já vêm sentindo os efeitos dessas transformações de forma mais intensa.
Entre eles:
- Indústria de transformação;
- Agronegócio;
- Setor automotivo;
- Tecnologia e eletrônicos;
- Químico e farmacêutico;
- Energia;
- Empresas altamente dependentes de matérias-primas importadas.
Mas seria um erro acreditar que apenas importadores e exportadores são impactados.
Freight forwarders, despachantes aduaneiros, operadores logísticos, seguradoras, bancos, áreas de compras internacionais e gestores de supply chain também precisam acompanhar esses movimentos com atenção.
O profissional de Comércio Exterior precisa olhar além da operação
Quando comecei minha trajetória no Comércio Exterior, há mais de 35 anos, grande parte do nosso trabalho estava concentrada na execução operacional.
Hoje a realidade é muito diferente.
Sistemas automatizados, integração de dados e inteligência artificial assumem cada vez mais atividades rotineiras.
Em contrapartida, cresce a necessidade de profissionais capazes de interpretar cenários e apoiar decisões estratégicas.
Isso significa acompanhar notícias internacionais, entender tendências econômicas, analisar riscos logísticos e avaliar possíveis impactos sobre os negócios dos clientes.
Não sou economista e não tenho bola de cristal, mas temos que desenvolver a capacidade de prever cenários.
Temos que ficar atentos aos sinais, analisar tendências e ajudar empresas a se prepararem para diferentes cenários.
E, convenhamos, já vivemos isso antes.
A pandemia mostrou como eventos inesperados podem interromper cadeias globais de suprimentos praticamente da noite para o dia.
A crise dos contêineres provocou aumentos históricos nos fretes internacionais.
A guerra na Ucrânia alterou fluxos comerciais que pareciam consolidados.
E agora seguimos observando novos movimentos geopolíticos que podem redefinir novamente as relações comerciais internacionais.
Oportunidades também surgem em momentos de incerteza
Embora os desafios sejam evidentes, momentos como este também criam oportunidades.
Empresas que monitoram o ambiente internacional conseguem identificar novos fornecedores, novos mercados, alternativas logísticas e oportunidades de expansão antes da concorrência.
Por isso, acompanhar geopolítica deixou de ser um interesse exclusivo de governos, economistas ou grandes corporações.
Hoje, é uma necessidade para qualquer empresa que atua ou pretende atuar no mercado internacional.
Conclusão
O Comércio Exterior nunca esteve tão conectado aos acontecimentos globais.
O que acontece em Washington, Pequim, Moscou, Bruxelas, Teerã ou Kiev pode impactar diretamente os custos, os prazos e as estratégias das empresas brasileiras.
Por isso, informação e planejamento se tornaram ativos tão importantes quanto preço, produto ou mercado.
E talvez essa seja uma das maiores transformações da nossa profissão: deixar de olhar apenas para a operação e passar a enxergar o cenário completo.
Porque, no mundo atual, compreender os movimentos globais pode ser a diferença entre reagir aos problemas ou antecipar oportunidades.
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