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A cegueira que caminha ao nosso lado

Tenho 60 anos, ainda trabalho, ainda danço, ainda tomo minhas cervejas com os amigos. Ainda faço planos para o futuro.

E, para ser sincero, muitas vezes me sinto mais jovem do que boa parte dos jovens que encontro pelo caminho.

Talvez porque eu continue curioso ou porque eu continue aprendendo sempre.

Ou porque eu ainda me emocione com as pessoas, com a arte, com a vida e com as infinitas possibilidades que ela oferece.

Ontem entrei no metrô.

Era apenas mais um fim de dia.

Mais uma viagem entre milhares que acontecem diariamente nas grandes cidades.

Ao meu redor estavam trabalhadores voltando para casa, estudantes carregando mochilas, pessoas absortas em seus celulares, outras simplesmente tentando sobreviver ao cansaço.

Em uma das estações entraram quatro pessoas com mais de setenta anos.

Pessoas que claramente precisavam se sentar. Vi alguns dos chamados jovens fazendo caras de desagrado.

Ouvi comentários irônicos. Algumas brincadeiras que tentavam se esconder atrás do humor.

No final, levantaram-se. Deram os lugares. Cumpriram o que era esperado.

Mas fizeram isso sem compreender o significado do gesto.

Eu também poderia ter pedido um assento. Afinal, oficialmente já pertenço ao grupo das pessoas consideradas idosas.

Mas não senti necessidade. O que me incomodou não foi a falta do lugar.

Foi a falta de consciência.

Porque todos aqueles jovens, sem exceção, carregavam dentro de si o mesmo destino.

Se a morte não os alcançar antes, todos chegarão à velhice.

Todos.

A natureza humana muda de roupa, muda de tecnologia, muda de discurso.

Mas não muda suas grandes certezas.

Nascemos.

Envelhecemos.

Morremos.

Parece simples.

Mas parece que ninguém mais quer lembrar disso.

Foi então que minha atenção se desviou daqueles quatro idosos.

Passei a olhar o vagão inteiro. E aquilo que vi me entristeceu de outra forma.

Vi jovens dormindo encostados nas janelas. Homens e mulheres exaustos.

Vi rostos marcados pelo desgaste. Não era preguiça. Não era desinteresse.

Era cansaço. Um cansaço profundo.

A maioria não estava voltando de um passeio. Estava voltando do trabalho. Assim como eu.

E naquele instante percebi que o problema era maior do que a falta de respeito aos mais velhos.

O problema era uma sociedade inteira adoecida. Uma sociedade que esqueceu de olhar para o ser humano.

Eu acredito profundamente na conscientização.

Mas acredito também que consciência não nasce sozinha.

Ela precisa ser ensinada.

Precisa ser cultivada e estimulada.

E isso me trouxe uma pergunta dolorosa: Quem está ensinando as novas gerações?

Porque não basta ensinar matemática sem ensinar ética.

Nem tecnologia sem ensinar responsabilidade.

Não basta ensinar profissões sem ensinar dignidade.

Nem falar sobre direitos sem ensinar sobre deveres.

Não basta ensinar sucesso sem ensinar humanidade.

Quando digo que a sociedade falhou, não estou apontando um único culpado. Estou olhando para todos nós.

Famílias.

Escolas.

Empresas.

Governos.

Instituições religiosas.

Meios de comunicação.

Todos.

Pouco a pouco fomos substituindo valores profundos por discussões superficiais.

Trocamos sabedoria por opinião, reflexão por reação, conhecimento por repetição.

E talvez por isso estejamos vivendo uma época em que tantas pessoas falam e tão poucas realmente pensam.

Vejo diariamente debates inflamados sobre política, economia, trabalho e sociedade. Vejo pessoas defendendo ideias com uma paixão impressionante. Mas também vejo muitos que jamais viveram aquilo que defendem.

Pessoas privilegiadas falando sobre sacrifícios que nunca enfrentaram. Algumas pessoas confortáveis falando sobre sofrimentos que nunca conheceram. Pessoas instruídas repetindo discursos vazios.

E então percebo que diplomas não produzem sabedoria.

Cargos não produzem consciência.

Dinheiro não produz caráter.

Prestígio não produz humanidade.

O autoconhecimento continua sendo uma das maiores necessidades do ser humano.

Talvez a maior de todas.

Comecei este texto como um conto. Depois ele se transformou em uma reflexão. Agora permitam que ele termine como uma oração.

Uma oração sem bandeiras. Sem partidos. Sem religiões obrigatórias.

Uma oração apenas humana.

Senhor…

Abre os olhos dos homens.

Ensina-nos novamente a olhar para dentro antes de apontar para fora.

Ajuda-nos a compreender que o respeito não é sinal de fraqueza, mas de grandeza.

Mostra-nos que a dignidade humana vale mais do que interesses pessoais, ideológicos ou financeiros.

Que a tecnologia seja instrumento de educação e não de alienação.

Que os governos se lembrem do povo que lhes concedeu confiança.

Que todas famílias redescubram o valor do exemplo.

Que as escolas voltem a formar seres humanos e não apenas profissionais.

Que os líderes compreendam que liderar é servir.

Que os jovens enxerguem nos mais velhos a experiência.

E que os mais velhos enxerguem nos jovens a esperança.

Senhor, não permita que o ódio cegue de tal forma que as pessoas deixem de ouvir a própria consciência.

Não permita que homens e mulheres repitam absurdos apenas para pertencer a grupos.

Não permita que o medo seja maior do que a verdade. Nem que o preconceito seja maior do que o amor.

Pai, ajuda-nos a romper a cegueira coletiva que tantas vezes escolhemos carregar. Ajuda-nos a lembrar que somos passageiros da mesma viagem.

Que ocupamos assentos diferentes. Que vivemos momentos diferentes.

Mas seguimos todos na mesma direção.

E que, no final, aquilo que realmente ficará não será o que possuímos.

Mas o amor que fomos capazes de oferecer.

Amém.